RESENHA #99: RESSIGNIFICANDO

 

AUTOR: Akapoeta / João Doederlein
SINOPSE: Antes aprisionadas na formalidade dos dicionários, palavras como “girassol”, “Deus”, “sonho”, “tatuagem”, “cafuné” e muitas outras são libertadas por João Doederlein — que assina com o pseudônimo AKAPoeta — neste seu primeiro livro. Elas são repensadas a partir das experiências pessoais do autor, de vinte anos, e de sua geração, mesclando romantismo bem resolvido, paixão, isolamento e um dia a dia que respira tecnologia e cultura pop. Combinando textos que se tornaram sucesso nas redes sociais com material inédito, o autor acha novos significados para os signos do zodíaco, para clichês indispensáveis como “paixão” e “saudade” e para as atualíssimas “match” e “crush”. Uma história de amor correspondido entre um jovem e sua musa — a escrita.

ressignificar (v.): é um ato de extrema liberdade em que a gente
pinta o mundo à nossa volta do jeito que a gente vê.

 

Nós todos somos muito particulares. Pensamos diferente, sentimos diferente, beijamos diferente. Não há nada que nos torne exatamente igual a outro indivíduo, porque temos experiências particulares e cada um de nós possui algo inexplicável que nos faz únicos – além de nossas digitais, claro.

O livro dos ressignificados é quase uma personificação dessa ideia, pois é poema em formato de dicionário. Para melhor entender isso, precisamos lembrar de todos os dicionários que vimos durante a nossa vida. Cada um deles nos mostra palavras e, a partir dos usos que elas possuem, dá-nos significados utilizados por todo um coletivo.

A ideia do autor, João Doederlein, conhecido como akapoeta, é dar significado as palavras, mas não um comum dentro da sociedade, usados no cotidiano. e sim, um novo e próprio. O que, no final das contas, ele faz é literalmente dar ressignificado à vida e à língua.

Usando o que nos é mais próprio, o sistema linguístico, poeticamente, atribui novos sentidos ao que nos cerca: ao que achamos banal, passageiro ou completamente nosso – ou de um outro poeta, como Pasárgada, de Manuel Bandeira; ou de um outro povo, como eudaimonia, próprio do uso dos gregos.

Entretanto, ao contrário de um dicionário que divide por letras do alfabeto, o livro de Doederlein divide sobre coisas que nos cercam, o que faz muito sentido, pois é um significado próprio do indivíduo.

Dando essa sensação de divisão temática, pareceu-me muito que a obra é proposta em um nível comum e, ao mesmo tempo, extraordinário. Em seis partes, relacionadas intrinsecamente com a vida, que aparecem: o jardim, o zodíaco, o coração, a mente, a cidade e, por fim, e a história de nós dois.

Eu posso estar enganada, mas essa divisão me remete muito, a partir da leitura, em como ver a natureza, seja humana ou o próprio ciclo natural do mundo; o zodíaco, que se conecta muito ao que somos em uma designação astral, quase como um destino traçado sem traçar; o coração, conectado diretamente com nosso emocional; a mente, relacionada a camada filosófica e espiritual; a cidade, o físico em contemplação da carne e do universo que nos cerca (mesmo que menor do que um país, quase como um grande bairro); e, não menos importante, e a história de nós dois, que fala sobre o romance, o amor e sobre o que a maioria dos poetas querem falar e sentir. 

Dentro dessa divisão que se estabeleceu para mim, o artista fala muito sobre como apreende o mundo e nos mostra – ao ponto de sermos empáticos o suficiente – a partir de palavras. Inclusive, acredito que parte dessa empatia não se case somente com o texto, mas com as múltiplas referências, principalmente da cultura pop contemporânea e também com o nosso cotidiano, vivendo de aplicativos de celular e esperando sempre textos mais curtos, mais rápidos e que nos passe mais informações.

Com um projeto gráfico muito bonito e chamativo, a obra dele se complementa em imagem e em texto, o que dá essa sensação de era globalizada também, remetendo-me a livros poéticos como de Rupi Kaur (aliás, ambos usam as letras minúsculas a todo momento, embora a poetisa use por sua cultura).

O livro em si é muito interessante e a ideia inserida nele extremamente sagaz, porém, devo dizer que os textos poéticos ora são muito bons, ora são muito fracos, quase nunca oscilando no meio termo, principalmente, os que remetem demais a romance quando não precisavam. Um dos pontos que mais me incomodou, embora seja uma perspectiva pessoal, é que pouco se fala sobre outros amores e se o livro é sobre a vida, não deveríamos falar da multiplicidade que há nela?

Usando o popular e o pessoal, o autor traz consigo uma obra que mostra uma vida a ser vivida, experienciada e sentida muito mais, mas que também já sentiu, sofreu e precisa desabafar. É um livro gostoso e de leitura rápida; mais divertido que um dicionário comum, mais poético que muito poema consagrado.

Claro, é tudo um ressignificado da vida, cada um tem o seu.

 

REFERÊNCIAS

DOEDERLEIN, João. O livro dos ressignificados. 1ª ed. São Paulo: Paralela, 2017.