RESENHA #97: O ESPECTRO DO AMOR

 

AUTORA: Graeme Simsion

SINOPSE: Para Don Tillman, não há nada que não possa ser solucionado com meia hora de pesquisa científica. Exceto lidar com as mulheres. Até o momento, a única coisa não esclarecida pelos estudos no campo de atuação de Don, a genética, é o motivo para sua incapacidade de arrumar uma esposa. Uma namorada ao menos? Ou até mesmo uma amiga para somar ao seleto grupo de amigos de Don, formado por Gene, também professor na universidade, e a mulher dele, Claudia, psicóloga e esposa muito compreensiva. Para solucionar esse problema do modo mais eficaz, Don desenvolve o Projeto Esposa, um questionário meticuloso que irá ajudá-lo a filtrar candidatas inadequadas a seu estilo de vida: fumantes JAMAIS, e mulheres que se atrasam por mais de cinco minutos ou que usam muita maquiagem estão fora dos critérios pouco flexíveis que o levarão à mulher ideal. O único problema é que um questionário desse tipo exige tempo e dedicação, duas coisas que começaram a diminuir exponencialmente no cotidiano de Don desde que ele conheceu Rosie: fumante, vegetariana e incapaz de chegar na hora marcada. Ou esse era o único problema até Rosie entrar na vida de Don e – despretensiosamente, uma vez que ela nunca se candidatou ao Projeto Esposa – mostrá-lo que a mulher ideal não existe, mas o amor, sim.

As emoções têm uma lógica própria.

 

Uma das coisas que mais me fascina na leitura, é a possibilidade de sentir empatia por seres de papel. Tenho para mim que um dos maiores poderes da literatura é gerar sentimentos, os quais, por sua vez, podem desencadear mudanças em quem somos. O Projeto Rosie é esse tipo de livro.

A história, por si só, é como todas as outras: um cara e uma garota se conhecem, têm tudo para não ficarem juntos, mas se apaixonam assim mesmo. Ponto. A mágica dessa receita de bolo não está no enredo composto basicamente de ingredientes conhecidos. Não. Está em Rosie, claro, ela dá nome ao livro; mas está, principalmente, em Don.

Don Tillman, aos 39 anos, é a perfeita definição de nada convencional. Sabe aquelas coisas que contaram a você sobre “ser normal”? Descarte tudo isso e só depois permita-se conhecer Don. Então, esperando o supremo da imprevisibilidade, apaixone-se pelo ser incrível que encontrará.

Solteiro até essa idade, ele está convencido de que permanecerá assim pelo resto da vida. Isso até que, após dar uma palestra sobre a síndrome de Asperger, ele ter uma ideia brilhante para encontrar a companheira perfeita: elaborar um questionário! Assim, poderia eliminar previamente todas as candidatas inadequadas ao posto. Dessa maneira peculiar, nasce o Projeto Esposa.

Embora as coisas não estivessem progredindo como o esperado, ao menos Don estava obtendo resultados, mesmo não sendo os mais promissores. No entanto, quando Gene, seu melhor amigo e amante convicto de sexo sem compromisso, acaba se tornando os gerentes das candidatas ao cargo de esposa perfeita, as coisas começam a desandar. Isso porque, por indicação dele, Rosie acaba entrando na história. Aquela mesma Rosie é fumante, vegetariana e sempre está atrasada. Esses três fatores já a colocam dos pés à cabeça na lista das nunca-em-hipótese-alguma-esposas.

Assim, de uma hora para outra, todos os planos e cronogramas de Don, tão bem planejados e calculados, vão por água abaixo.

Eu não sei se sou capaz de expressar em uma, duas ou quinhentas páginas a graciosidade peculiar do que Graeme criou, porque casou o discurso do personagem, o desenvolvimento do romance e o correr dos acontecimentos de forma tão sutil, mas tão eficaz, que não percebemos uma coisa, cujo valor para Don é imensurável: a passagem do tempo.

Li esse livro como se tomasse um coquetel preparado pelas mãos do bartender mais experiente do mundo; ou comesse um prato do chef mais renomado de todos – com gosto, capaz de sentir cada sabor, observando cada nuance para entender como os ingredientes se conectavam para gerar aquele resultado final tão irrepetível.

Não era gasto de tempo, era investimento.

É difícil explicar os motivos de a obra de Simsion ser tão especial sem revelar aspectos cruciais do enredo, mas tentarei resumir todos em um: o amor não é tratado como preto no branco – ele é um espectro. Nesse espectro, temos o amor que suporta, o amor que corrige, o amor que duvida de si mesmo, o amor que se ressente, o amor que se renova e o amor que se (re)descobre. Ao dizer isso, falo de Don e Rosie sim, mas falo também de seus pais, amigos, vizinhos e, mesmo, seus chefes.

Além disso, o discurso da exigência de um padrão de normalidade é tão bem tecido e refutado que não me restou outra coisa além de embasbacar-me com a capacidade humana de ser cruel e imbecil, ademais, com a genialidade de Graeme ao expor isso. Ainda que não adquira tons dramáticos ou leve às lágrimas, a forma com que é posto gera reflexão da mesma forma. O riso não impede-nos de sentir o impacto, aquele incômodo que diz que há tanta hipocrisia no mundo a ser mudada ainda.

Rosie – e, mais do que isso, a Rosie que Don enxerga – também é uma personagem deliciosa de acompanhar. Pelo seus ideais, pela forma que tem de ser única, pela aceitação de si mesma e dos outros, pelo orgulho com que percebe a si mesma, pela capacidade de admitir seus problemas e sua incapacidade de resolvê-los… Tudo isso cativa. No entanto, mesmo ao final da leitura, senti falta de conhecê-la melhor. Não sei se pela intensidade com que mergulhamos em Don, Rosie acaba por parecer rasa. Se há algo, talvez algo a ser apontado como um “defeito” (entre aspas, porque não creio que o seja realmente) na obra de Simsion, é esse aspecto.

No final, o que fica de O Projeto Rosie são os resultados mais promissores possíveis: uma história linda, a qual se encaixa perfeitamente nesse incrível espectro que é o amor.

 

REFERÊNCIA

Simsion, Graeme. O Projeto Rosie. Rio de Janeiro: Record, 2018.