RESENHA #96: O CONCRETO E O ABSTRATO

 

AUTORA: Madeleine L’Engle

SINOPSE: O pai de Murry e Charles Wallace, um exímio físico, está desaparecido há dois anos. A aventura começa quando, em uma noite de tempestade, eles recebem a visita de uma senhora peculiar, a sra. Queque é, que foi tirada de sua rota pelo vento enquanto viajava pelo tempo e espaço utilizando o tesserato. Na companhia de mais duas criaturas sobrenaturais, a sra. Quem e a sra. Qual, e de um garoto chamado Calvin O’Keefe, eles partem pelo universo em busca de qualquer indício do paradeiro do dr. Murry. Mas o que eles descobrem vai muito além disso: todo o universo está sendo atacado pela Escuridão, uma força perigosa que traga a luz das estrelas e dos planetas, em uma luta contra o mal que parece nunca acabar.

Absorver um universo fantástico, por vezes, é muito fácil, visto que encontramos um lugar de repouso e de maravilhas a serem explorados; no entanto, nem sempre isso acontece. Mas por que existe essa diferença? Ela é natural? Ela se espelha em qual razão?

Essa é uma questão dupla, que pode tanto ficar vagando no ar ou pode ser respondida, porém, como humanos, nossa mente pode ser limitada o suficiente para não entender a resposta.

A ideia da autora Madeleine L’Engle é confrontar, antes de tudo, com que naturalidade o ser humano percebe o mundo – tudo a volta, na verdade – e como se conecta com o que ele é. Esse é um dos ganhos mais excepcionais desse livro, porque remonta uma técnica filosófica muito antiga.

O que é abstrato? Na explicação escolar é tudo aquilo que não podemos tocar, como os sentimentos. O que é concreto? É o que tocamos, vemos, como o lápis que seguramos na hora de escrever ou o teclado em que digitamos. Entretanto, em algumas correntes teóricas – e umas bem antigas e gregas – é exatamente o oposto.

Desconstruir essa percepção é muito difícil e pode parecer bem confuso, por isso, a escritora, por vez ou outra, diz que nós não somos capazes de entender a complexidade que é abordada e comentada pelos personagens não-humanos – e, para ser bem honesta comigo mesma, eu me sinto certas vezes incapaz mesmo –, mas outras nem tanto, o que me gerou certo desconforto durante o decorrer da leitura porque ela, ao criar uma história infanto-juvenil, decidiu não dar créditos a imaginação e a percepção das crianças e dos outros leitores que se aprofundariam em sua trama.

Contudo, que percepção é essa em relação ao abstrato e ao concreto?

O que realmente sentimos? Nós tocamos a cadeira, vemos a tela do computador, contudo, o fato de usarmos os cinco sentidos para experienciar as sensações torna-nos submissos ao paladar, visão, audição, tato e olfato. Se temos uma defasagem, somos automaticamente comprometidos por ela. Por exemplo, se tivermos miopia, como a protagonista da narrativa, nossa visão será afetada e nossa percepção a respeito daquilo também será, por conta disso, nossas impressões serão muito distintas às de alguém que tenha astigmatismo ou qualquer um sem nenhum problema.

Entretanto, como funcionam os nossos sentimentos? Nós nos entristecemos, sentimos raiva e amor. Nossos sentimentos são as nossas sensações, elas são únicas e, ao mesmo tempo, universais, por conta disso, nós literalmente sentimos, sem depender de nada mais – só de nós mesmos e como o mundo nos afeta.

Nessa percepção, o que seria concreto para nós? O que seria abstrato? Os sentimentos trariam algo sem ser maculado pela experiência do corpo, sendo algo próprio e completo porque é nosso e, mesmo sem ser tátil, podemos tocar, logo, há uma concretude nos sentimentos. Em oposição, o abstrato é algo que vagueia nos nossos dedos, nas nossas mãos, olhos e boca, pois são percepções codificadas a partir de sensações externas e não, internas.

Há, claro, outras formas de definir o concreto e o abstrato, como a arbitrariedade, no segundo. Pois sabemos o que é uma cadeira, mas ela pode ser de inúmeras formas diferentes e isso faz com que ela seja, de certa forma, uma abstração, como o próprio nomear das coisas, no entanto, o livro Uma Dobra no Tempo não fala desse tipo de abstração e sim da abstração que destinamos aos sentimentos e às sensações que temos, que são o de mais concreto que possuímos.

Durante o livro, isso é muito bem encaixado e comentado parte a parte, principalmente, na figura das senhoras Queéqueé, Quem e Qual, além da Tia Criatura porque elas não são humanas e a sua percepção de mundo é muito distinta da nossa, o que causa muito estranhamento tanto para Calvin e Meg como para os alienígenas (quem é o alienígena, não é?). Algo muito interessante na obra é a forma em que vemos o mundo, achamos sobre a sua forma e a respeito dela, no entanto, esse achismo não significa equivalência com o real.

Com tudo isso, podemos perceber que há dentro da obra de L’Engle, algo muito filosófico e muito misterioso para as crianças, cujas quais estão aprendendo a ver o mundo. Como uma obra infanto-juvenil, eu acho extremamente interessante uma abordagem que mostre múltiplos pontos de vistas, sem se conectar a um único, pois assim as crianças são capazes de possuir mais empatia.

Entretanto, ainda que tenha referências literárias maravilhosas, o livro peca muito no desenvolvimento. Os personagens principais, por vezes, soaram-me rasos, ainda que possuam uma intelectualidade acima da média. Eu não consegui senti-los, pode parecer estranho numa obra que fala tanto sobre sentimentos e sensações, porém, o trunfo – na minha perspectiva – seria trazê-los mais fortemente nesse aspecto e eu não fui capaz de sentir ou perceber a autora conseguindo essa conquista.

Essa defasagem não me pareceu só dos personagens, mas também do próprio cenário. Ela explorava mundos – muito pouco, mas explorava – e eu senti falta de descrições mais marcantes que me fizessem desejar estar no cenário ou praticamente entrar nele.

Como uma obra infanto-juvenil, eu entendo que as descrições tenham de ser poucas porque, geralmente, crianças não possuem muita paciência, mas, fazer com que os cenários fossem mais palpáveis e ricos, definitivamente, traria um encanto maior à obra.

Não que não possua, pois obviamente há algo de maravilhoso dentro da narrativa que consegue ministrar muito bem doses de ficção científica e fantasia, misturando dois gêneros que, por vezes, parecem antagônicos. Esse é um aspecto muito, muito positivo da obra, pois é realmente difícil trazer essa mistura tão bem.

Tão bem quanto ministrar em doses a fé e a física. Outro aspecto que me pareceu incrível foi esse, porque muitas pessoas também creem que se você é físico, você é praticamente um ateu – e não funciona assim. Há aqueles que acreditam que a ciência e a religião são duas peças antagônicas que não dialogam, porém o livro de L’Engle demonstra que não funciona assim, o que eu achei interessante, pois creio que opostos complementares são essenciais para uma boa vida.

E, por falar em uma boa vida, ela mostra o porquê de devermos ser nós mesmos, sem querermos ser outros. Todos nós vivemos em uma era em que ser diferente é melhor do que seguir os padrões, isso é incontestável, contudo, na época que a autora escreveu esse livro, não era assim. Na década de 50, nós ainda queríamos viver em um molde padronizado, por isso, de forma muito sutil e delicada, Uma Dobra no Tempo traz isso à tona e nos mostra que podemos ser quem quisermos, sem nos incomodarmos com isso.

Há um diálogo na trama que fala, inclusive, sobre ser igual e ser idêntico. Há uma necessidade de igualdade, porém não devemos ser idênticos. Um porque seria chato e outro, principalmente, porque não poderíamos ser nós mesmos e isso é quase como se nos matássemos aos poucos.

É um diálogo que traz uma reflexão muito interessante e que também crítica a sociedade, implicitamente. Há nesse livro algo de maravilhoso, fantástico e científico, porém, há também algo mais profundo ligado à sociedade que precisa ser sempre relembrado.

Como o amor e todos os outros sentimentos concretos que temos porque há valor em cada um deles.

 

REFERÊNCIAS

L’ENGLE, Madeleine. Uma Dobra no Tempo. Tradução Erico Assis. 1ª ed. Rio de Janeiro: Harper Collins Brasil, 2017.