RESENHA #95: AO DESEJO DE VIVER

 

AUTORA: Nina George

SINOPSE: Marianne Messmann está presa num casamento sem amor e não vê a hora de pôr um fim em tudo. Durante uma viagem a Paris, ela sobe na Pont Neuf e se joga no Sena, mas é salva do afogamento por um passante. Em seguida, é levada para o hospital e lá vê um azulejo pintado com a linda paisagem de uma cidade portuária da Bretanha. Inspirada pela pintura, ela decide embarcar em sua derradeira aventura.Ao chegar à Bretanha, Marianne entra num restaurante chamado Ar Mor (o mar) e é arrebatada por um novo e encantador modo de viver. Lá ela conhece Yann, o belo pintor, Geneviève, a enérgica dona do restaurante, Jean-Rémy, o chef perdido de amor, e várias outras pessoas que abrem os olhos dela para novas possibilidades. Entre refeições, músicas e risos, Marianne descobre uma nova versão de si mesma ― apaixonada, despreocupada e forte. Porém, de repente, seu passado chega para confrontá-la. E, quando isso acontece, ela precisa decidir entre voltar para sua vida antiga ou abandoná-la de vez em nome de um futuro promissor e empolgante. O maravilhoso bistrô francês é uma jornada dos sentidos, com refeições suculentas e paisagens estonteantes. Uma história recheada de poesia, beleza, sensibilidade, romance, erotismo e segundas chances, que nos mostra que não existe idade para recomeçar e ser feliz.

As coisas que ela não tinha feito. Era isso que os mortos queriam comunicar.
As coisas que não foram vividas. Na vida de Marianne só havia o que ela não tinha vivido.

 

O tempo, alguns dizem, é um inimigo implacável, tão nefasto que é capaz de agir lenta ou rapidamente – a depender de quão mal ou bem você se sinta, respectivamente. As horas podem passar vagarosamente quanto ansiamos que ela passe de uma vez; da mesma forma, quando desejamos que o tempo não passe, e até que pare, as horas se transformam magicamente em segundos.

Marianne viveu uma vida que pareceu ter passado em um instante, até perceber que não poderia chamar o que tinha passado de vida, pois ela nada tinha vivido. Perceber isso, para a personagem, foi tão nefasto que a narrativa começa com uma tentativa de suicídio.

A autora começa a cena de maneira ritualística. O que seria apenas um suicídio nas mãos de outro escritor, Nina George transforma em um rito de passagem e aceitação da morte, de uma morte tão bem-vinda que chega a ser aterrorizante para qualquer um que for minimamente apegado à vida.

Com a queda – na verdade, Marianne arruma tudo meticulosamente – das peças de roupa, a personagem, que é uma mera desconhecida, vai ganhando forma. Nós conhecemos um pouco de seu passado e também de sua personalidade, principalmente, a sua bondade, pois a cada momento, é capaz de pensar em alguém que nem sequer conhece. Dessa forma, também entendemos porque a personagem se doou demais sem receber quase nada em troca.

Marianne tem sessenta anos, ela não é uma protagonista comum na flor da idade que está buscando por um sonho ou uma aventura. Pelo contrário, a narrativa trabalha uma personagem que nunca pôde ter uma aventura, presa nas convenções do matrimônio. Logo, é impossível não a encaixar em figuras femininas que nós já conhecemos, como nossas mães e avós.

Com um passado tão regrado em tradicionalismos, e em uma família que a impõe essa tradição a todo instante, Marianne é uma personagem que pertence ao século XXI: alguém desesperada para fugir da família, do marido e das convenções e simplesmente viver.

Essa narrativa, embora conte com romances para todos os lados – algo que me incomoda, porque nenhum personagem do ciclo principal fica realmente sozinho –, não é sobre romance. Uma característica muito marcante da autora, desde A Biblioteca Mágica de Paris, é apresentar uma ideia que pareça ser um romance, mas não é.

A história de Marianne trabalha com muitas ideias e reflexões, também encontradas com Perdu, personagem de seu livro de estreia no Brasil, mas que vão muito além. A trama se entrelaça aos estigmas sociais presentes no século passado e aos comodismos tradicionalistas, ao empoderamento feminino e também a recomeços e, principalmente, à vida.

O ciclo da personagem é muito interessante, pois ela começa com uma fuga psicológica e, antes do meio da narrativa, a sua fuga se torna física – o que demonstra o quão devastada estava. Nós todos estamos propensos a fugir de nossos problemas, alguns muito mais do que outros. Marianne permaneceu neles durante tantos anos que se esqueceu dessa possibilidade, até finalmente ter a chance de dar uma oportunidade a si mesma.

Nesse processo de fuga, Marianne foge de alguém que se tornou pelo casamento e pela anulação da própria identidade para se tornar alguém que era antes do matrimônio; uma pessoa que esbanjava qualidades. O mais interessante dos livros de Nina George, ao menos dos dois lançados no Brasil, é essa constante busca de encontrar a si mesmo, antes de tentar encontrar alguém.

Entretanto, há algo que realmente me incomodou durante a leitura. Em uma parte do livro – na verdade, foi uma frase literalmente – me pareceu que a personagem pensa que parte desse caminho de encontrar a si mesma está conectado demais com o romance que surge entre ela e um dos personagens. Contudo, por sorte, isso é deixado de lado quando a personagem fraqueja.

Esse incômodo é breve, mas reflete algo que ocorre muito durante as narrativas: a dependência demasiada do romance para encontrar o seu verdadeiro caminho. Nós somos fadados a desejar romances, não necessariamente porque queremos, mas porque a sociedade nos diz que precisamos. A literatura, por muitas das vezes, confabula com esse pensamento e extrapola um limite muito tênue entre um eu e um nós.

Nós podemos amar e sermos amados, mas, antes de tudo, nós precisamos nos reconhecer e nos amar. O livro de Nina George nos demonstra isso, ainda que tenha me dado um susto por um breve momento. Por conta disso, acabo considerando esse livro como tapas na sociedade.

 O primeiro tapa é a ideia de que um protagonista não precisa ser jovem, ele não precisa estar conectado a atualidade e nem ser belo ou seguir um estereótipo definido. Temos uma protagonista que possui sessenta anos! É um estigma social prezar mulheres de boa aparência, logo, aquelas com mais idade estão fadadas ao esquecimento em diversos meios.

O segundo tapa considero sendo a apresentação do fenômeno da depressão e do suicídio, e não são somente de jovens que se sentem amargurados ou deprimidos, visto que não é a idade que define a nossa felicidade. Muitas pessoas acreditam que a depressão não existe, mas se esquecem de que a depressão provém, antes de tudo, de como a vida lida conosco e como lidamos com a vida. Mostrar uma personagem que veio de um tradicionalismo e possui um marido que não reconhece os sinais de seu sofrimento demonstra o que ocorre na vida cotidiana, na qual muitas pessoas fingem se importar, mas não se importam.

O terceiro tapa, entre eles o que mais gosto, é o empoderamento contra o machismo. O machismo prevalece em toda a vida passada de Marianne, em cada gota d’água que apagava a pequena chama que eram seus sonhos e seus desejos. A sua jornada em busca de autoconhecimento a transforma em uma mulher empoderada e que passa, aos poucos, a se reconhecer. Embora romantize bem algumas partes desse processo, em outras, a autora nos dá uma crueza esplêndida. Nós, mesmo que passemos a reconhecer parte do que somos, não nos valorizamos e, dessa forma, caímos nas garras do passado opressor. Essa crueza é um tapa dirigido ao público feminino, muito mais do que o público masculino que lerá esse livro, pois, movidas por conceitos sociais, muitas das vezes, deixamos que esses preceitos nos levem de volta. Marianne mostra que não podemos permitir isso.

Nós precisamos viver os nossos sonhos, talvez seja esse o fator que tenha levado Nina George a ministrar toda a narrativa com uma pitada de misticismo bretão. A Bretanha possui mitos e lendas – explorados inclusive nesse livro – que nos levam diretamente a pensar a vida após a morte, nos nossos feitos em vida e no quanto vivemos de fato. Logo, toda essa mitologia vai ao encontro da narrativa e nos passa lições surpreendentes, além de conhecimento sobre toda uma cultura da qual, embora conheçamos por alguns nomes, valorizamos algo externo a tradição – já que as lendas arturianas que nos são transmitidas não são de fato as bretãs, mas transpassadas a partir de valores cristãos que possuem távolas redondas e brigas românticas por Guinevere.

Entretanto, da mesma forma que Nina George nos diz para vivermos nossos sonhos, nós podemos encontrar obstáculos para compreendê-los e vivê-los. Esse é um aspecto quase invisível no livro, eu diria, mas existe algo surpreendente nele em termos linguísticos: Marianne não fala francês e muito menos bretão, passando boa parte da história sem entender algumas coisas que lhe são ditas. A autora ministra três línguas durante a fundamentação da narrativa como se ministrasse os três pontos de vistas que Marianne irá ver e viver: o alemão tradicional de Marianne, o perspicaz e vívido francês e o místico bretão.

A personagem passa por essas três fases e, quanto mais vai conhecendo as línguas – embora seja a todo momento uma informação a parte –, mais ela vai se encontrando com a perspicácia, a vida e o místico. E, embalada nesses novos três aspectos, vemos toda a trajetória de Marianne e de seus amigos que, em nenhum momento, são deixados de lado. Inclusive, vemos que o amor possui diversidade, com uma prodigiosa interação bissexual. Pois, não importa como, todos temos, em algum lugar, o instintivo desejo de viver, de realmente viver.   

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

GEORGE, Nina. O Maravilhoso Bistrô Francês. 1ª edição. Rio de Janeiro: Record, 2017.