RESENHA #94: UMA DINASTIA UTÓPICA

 

AUTORA: Mariana Teixeira

SINOPSE: Natasha nunca foi o protótipo de Rainha perfeita. Por causa de sua falta de confiança em si, tudo acabou encaminhando-se para que a Rússia se tornasse uma Monarquia Constitucional em plena Era-Pós-Terceira Guerra Mundial. Viver isolada em uma das colônias do Reino, refém dos desmandos do parlamento e de um primeiro ministro ambicioso, era algo que ela aprendera a conviver. Mas ninguém sabia da força que ela tinha dentro de si quando precisava defender o que amava. Apenas ela era verdadeiramente digna de possuir a magia da Coroa de Prata. Ninguém mais. Afinal, quando uma mulher poderosa reconhece o seu poder e encontra o amor, nada é capaz de impedi-la de lutar por seus ideais. E sua força era o que todos iriam assistir desabrochar.

O czarismo, sistema político vigente na Rússia de 1547 até a Revolução de 1917, ainda é alvo de fascínio e inspiração à literatura, tanto para autores quanto leitores. Na ficção e nas biografias dos czares, histórias não faltam, sejam elas coerentes com o sistema político ou seguindo uma linha mais fictícia e menos provável, tal como Anastasia, uma animação que, no final das contas, todo mundo crê ser na Disney quando, na verdade, não é. Esse universo russo e sistema político são as influências primeiras de A Coroa de Prata.

A história acompanha Natasha Sofia de Korona I, a qual possui apenas 17 anos, rainha da Rússia. Sem os pais, ela é isolada na ilha de Pervyy, lugar em que assume uma posição meramente figurativa à mercê de um Parlamento que não a incluí em suas decisões. Disposta a mudar tal situação e tomar o controle de seu reino, Natasha busca uma reviravolta em sua vida.

A Coroa de Prata é o tipo de narrativa que pode ser comparada à um barco em alto mar, sendo levado pelo vento. Não há uma rota clara, muito menos uma âncora que a mantenha no lugar, além disso, a sua composição é muito leve para sobreviver à uma tempestade.

A espinha dorsal é a personagem principal, Natasha. Essa é uma técnica conhecida, assim, não se pode e não se deve classificá-la como certa ou errada. Contudo, é claramente perigosa. Quando um único personagem carrega toda a história, a sua estrutura deve ser forte para suportar o peso dos capítulos. Natasha, infelizmente, não tem essa força.

Na literatura contemporânea, o empoderamento feminino é uma questão cada vez mais em voga, por isso, está constantemente sendo abordada por diversos autores. Como mulher, é impossível não me sentir realizada com a representatividade e mudança de paradigmas literários, porém, ainda temos um longo caminho a percorrer. Poucos são os exemplos de real empoderamento feminino, capazes de transmiti-lo sem trazer uma ideia contraditória, errônea e estereotipada da questão.

O problema principal em relação a Natasha e o seu empoderamento estão intrinsecamente relacionados ao fato de ela ser uma personagem que não amadurece. Ela apenas decide que, a partir de agora, será forte e assumirá o controle do reino, por isso, essa fala será repetida exaustivamente, numa tentativa de convencer o leitor e, talvez, para convencer a si mesma. A falha se apresenta na dissonância entre as suas falas e as suas ações. Por causa desse aspecto primário é que o seu empoderamento caí por terra, sendo nada mais do que um discurso vazio.

Talvez o período em que a história está situada tenha grande influência nessa questão. No contexto, a configuração do reino é o resultado da Terceira Guerra Mundial. A partir disso, os costumes e o palavreado usados tentam remeter às raízes do czarismo, o que faz a história existir em um limbo entre passado e futuro, sem sequer ancorar em um tempo próximo ao nosso presente. Não encontrei muita influência russa na narrativa, nem elementos futurísticos que pudessem criar uma distopia interessante ou, ainda, aspectos capazes de relacionar a história czar com esse universo novo criado para a Terceira Guerra Mundial. A guerra, infelizmente, é mero pano de fundo para o romance e as leves intrigas políticas, sem ter um papel tão efetivo quanto se espera.

Existem algumas reviravoltas interessantes, as quais garantem pontos à construção do enredo, mesmo criando um final previsível e de execução teatral. É nítida a tentativa de criar uma história mais visual enquanto bebe a grandes goles às influências geradas pelas novelas e séries. Apesar de tudo isso, a história pena para cativar o leitor, inclusive, preciso ressaltar que a escrita carece de uma revisão crítica e padece pelas repetições.

A Coroa de Prata apela para um público muito específico e pode não funcionar para qualquer um. Mas é sempre recomendável a leitura e avaliação pessoal de cada leitor, pois cada um sabe melhor do ninguém o que o agrada.

VOCÊ PODE ENCONTRAR NO WATTPAD!