RESENHA #93: UM BOM LADRÃO

 

AUTORA: Leigh Bardugo

SINOPSE: Confiar na pessoa errada pode custar a sua vida. Após se safarem milagrosamente de um ousado e perigoso assalto na notória Corte do Gelo, Kaz Brekker e sua equipe se sentem invencíveis. Mas o destino está prestes a dar uma perigosa guinada e, em vez de dividir uma vultosa recompensa, os seis comparsas terão que se munir de forças, de armas e de seus talentos para lutar pelas próprias vidas. Traídos e devastados pelo sequestro de um valioso membro da equipe, o Clube do Corvo agora conta com poucos recursos e aliados, e quase nenhuma esperança. Enquanto isso, forças descomunalmente poderosas se abatem sobre Ketterdam para desenterrar os segredos mais sombrios da potente droga conhecida como jurda parem, ao passo que antigos rivais e novos inimigos surgem para desafiar a perspicácia de Kaz e testar a frágil lealdade de seus parceiros. Agora, todos terão de enfrentar seus próprios demônios, e será preciso muito mais do que sorte para sobreviver à guerra que está se armando nas ruas obscuras e tortuosas desse implacável submundo – uma batalha por vingança e redenção que decidirá o futuro do mundo Grisha.

Se nos apaixonamos por um personagem literário, definitivamente, isso nos trará consequências terríveis, até porque ficamos presos no fato de que ele ainda é ficção. Bardugo se apropriando muito bem da frase dita por Kaz, quando comenta o que um bom ladrão faz, rouba o nosso coração e deixa uma pitada de saudade e até ressentimento por alguns desfechos da trama.

O segundo livro da dualogia Six of Crows segue o mesmo ritmo de aventura e ação do primeiro, trazendo mais romance e referências da trilogia anterior – que confesso não ter compreendido bem e achado muito confusa algumas participações, como Retvenko – do que antes.

Os personagens – alguns novos e outros acabei percebendo que mais antigos – continuam seguindo a mesma falta de tato do primeiro livro da dualogia, podendo ser mais explorados e mais bem desenvolvidos. Contudo, as personagens principais femininas – Nina e Inej -, por mais que já fossem incríveis, são as estrelas da continuação dessa série. Não somente pela a amizade incrível construída entre as duas ao longo daquele ano que Nina ficou em Kerch, mas também porque as adversidades que ambas passaram não mudaram as suas essências alegres e bondosas. Elas estão dispostas a ajudar os outros, por mais que isso não fosse parte do plano.

Nina acaba tendo que lidar com um vício interminável; e Inej com a privação de sua liberdade, mais uma vez. Ambas sofrem com o pior que poderia lhes acontecer, isso porque a naturalidade de suas habilidades é que faz com que a sangradora se sinta bem consigo mesma enquanto, por sua vez, a espiã vê seu passado se acumulando a sua porta sem poder fazer muito.

As duas, nesse livro, crescem tão bem, tão absurdamente bem, que fica difícil dar destaque aos outros, confesso. Contudo, como Bardugo fez seis excelentes personagens – por mais que a idade me incomode ainda mais nessa continuação –, acaba sendo impossível esquecer a presença do brincalhão Jesper (com seus medos e seus problemas que são parte central da narrativa), o fofo Wylan (filho do homem que causou todos esses problemas e confronta o passado em relação aos pais de maneira que nunca conseguiu antes), o incrível – e maravilhoso – Matthias (que poderia abandonar tudo, mas quer mudar o rumo da história), além do sagaz Kaz (pouco a pouco, mostrando mais dos seus traumas).

Ou seja, o que Crooked Kingdom faz de maneira exemplar é mostrar como nosso passado afeta o que nos tornamos hoje, como cada tempo perdido ou lágrima em queda pode ser algo muito maior do que esperamos. Confrontar o passado se torna a especialidade dos seis que, outrora, não tinham apoio para isso, porém, a amizade, companheirismo e lealdade encontrada entre eles fará tudo isso mudar.

Eu realmente consigo me debruçar na dinâmica entre os seis personagens – entre eles em si, não com os demais – e ver como cada cena foi muito bem ajustada e equilibrada. Badurgo realmente fez um excelente trabalho quando se tratava dos seis: o ladrão, a espiã, a sangradora, o fugitivo, o atirador e o prisioneiro são uma família, meio estranha, mas são mais do que qualquer um deles possuía antes de tudo.

Como Inej diz, por mais que adversidades terríveis tenham surgido em seu caminho, aquele era o seu destino, feito para encontrar aquelas pessoas. Além disso, a garota suli consegue confrontar seus temores de maneira que não fazia antes, tal como os demais, e mostra como eles evoluíram, já que nada disso soa forçado na execução da narrativa.

A narração continua da mesma forma – terceira pessoa e enfatizando pontos de vistas específicos – e, em partes, sinto um crescimento e uma maturidade entre todos, mais ainda de Wylan e Jesper. Os dois possuem uma dinâmica tão boa que não conseguimos deixar de suspirar com eles, como não podemos parar de torcer para Nina e Matthias ou Inej e Kaz. Entretanto, soa forçado para mim o fato de que todos os casais formados entre os seis permaneceram no círculo deles. Inclusive, isso ressalta o ponto de que Bardugo só consegue mantê-los nessa boa dinamicidade se for no elenco dos protagonistas, pois todas as relações externas me soam incômodas, justamente porque são pessoas (os personagens principais) contracenando com ficções (os secundários e vilões, menos os personagens de Ravka, que por mais que os detalhes faltassem, pareciam mais críveis).

Mas é aquilo, quando gostamos dos personagens e do casal, por mais que a execução seja incômoda ou furada, acabamos deixando para lá e suspirando de qualquer jeito.

Só que nem tudo podemos deixar passar, isso porque há acontecimentos extremamente mal executados, como partes do plano de Kaz que não faziam qualquer sentido, ainda mais porque ele é apresentado como um estrategista sublime e que consegue calcular os passos do inimigo; ou tentativas desnecessárias de comoção, sendo esse – para mim – entre todos os livros que eu já li, o aspecto que me é menos aprazível de todos.

Eu entendo que pessoas perdem oportunidades, morrem ou passam por adversidades extremamente desagradáveis, entretanto, há detalhes na narrativa que – precisamente – estão ali não por parte da execução da história, e sim para causar algum sentimento incômodo, seja de perda, sofrimento ou amargura, numa tentativa pífia de nos conectar ao prejudicado. Em especial, comigo, sinto que funciona de maneira oposta, justamente porque me soa antinatural quando uma cena é feita dessa forma e com esse propósito exclusivo.

Infelizmente, Bardugo utiliza isso nessa trama, tornando-se nítido pelo fato de me parecer inverossímil com tudo o que ocorreu e com as habilidades adquiridas durante a construção da história, mal explicado na hora de executar e com informações posteriores que irão de encontro com o acontecimento. Como sempre, nem tudo são flores, mas se fosse, será que iríamos gostar mais do que já gostamos?

Porque um ladrão sempre deixa algo, não é mesmo?

 

REFERÊNCIA

BARDUGO, Leigh. Crooked Kingdom: vingança e redenção. 2º volume da dualogia Six of Crows. Tradução de Eric Novello. 1ª ed. Belo Horizonte: Editora Gutenberg, 2017.