RESENHA #91: O REAL ENTRE OS FANTASISTAS

 

ORGANIZADORES: Adolfo Bioy Casares, Jorge Luis Borges e Silvina Ocampo

SINOPSE: Numa noite de 1937, ao conversar sobre ficções fantásticas, três amigos — Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo — resolveram criar uma antologia com seus autores preferidos. Do filósofo Martin Buber ao explorador Richard Burton, passando pela tradição dos contos orientais, além de Cortázar, Kafka, Cocteau, Joyce, Wells e Rabelais, são 75 histórias — não só contos, como fragmentos de romance e peças de teatro — que nos apresentam uma literatura marcada pelo imaginário e por um modo diferente de representar a realidade. “A nossa sociedade — global, multilinguística, imensamente irracional — talvez só possa descrever a si mesma com a linguagem intuitiva da fantasia”, anota a escritora Ursula K. Le Guin no posfácio desta edição.

Se existe um tipo de literatura que me encanta, definitivamente, é a literatura fantástica, isso porque, ao contrário da contemporaneidade, a qual divide tudo em pequenos pedaços e fragmenta toda a magia, a minha ideia de fantástico está muito mais voltada para a raiz grega da palavra do que, de fato, ao que se pressupõe como fantástico nos dias de hoje.

Ursula K. Le Guin, uma escritora famosa que tenho vergonha de dizer que nunca li, em sua resenha a respeito da Antologia de Borges, Casares e Ocampo, vem esmiuçando etimologicamente a palavra fantasia. De acordo com ela, após ler o Oxford English Dictionary:

 

“Fantasia”, responde titia, limpando a garganta, “vem do grego phantasía, literalmente, ‘aparição’.” E explica que phantasía está relacionada a phantádzein, “tornar visível”, ou, no grego tardio, “imaginar, ter visões”, e também a phantein, “mostrar”.

 

Após isso, a autora continua a resumir os usos antigos em inglês, como “uma aparição, um fantasma, um processo mental de percepção sensorial, a faculdade da imaginação, uma noção falsa, um capricho ou extravagância”. Ao invés de continuar e acompanhar o processo linguístico de Le Guin, vou continuar a partir do grego. A última forma apresentada por ela significa “mostrar”, o que significa que houve uma mudança radical no sentido da palavra, no entanto, como todo vocábulo que sofre alteração de sentido, ele não perdeu a sua extensão: ao dizer isso, precisamos explicar que, por mais que uma palavra varie e mude – e muitas mudam para o sentido oposto –, ela ainda tem relevância naquele contexto, como mostrar e fantasiar, você vê algo: seja a realidade ou a fantasia. Assim, a extensão de sentido continua.

No entanto, como mostrar virou fantasiar? Bem, essa, na verdade, trata-se de uma mudança de percepção que pode estar conectada a diversos valores culturais e, principalmente, religiosos. Mas, acredito eu, principalmente, há uma diferença quanto o que era verdade para os gregos, como eles construíam a sua aléthea, em detrimento ao que veio a se tornar verdade posteriormente. Afinal, um mundo politeísta que acreditava em deuses extremamente humanos se difere – e muito – da concepção medieval, a qual vai se tornar bem diferente da Renascentista, retornando aos clássicos da Hélade, e muito mais distinta da nossa versão de pensar nos dias de hoje (embora algumas atitudes não tenham mudado muito).

Então, como isso aconteceu? Bem, a mudança de percepção de sentidos, de uma cultura oral para uma cultura letrada, pode ocasionar diferenças extravagantes, no entanto, o que se mostrava como verdade para os gregos, perceptual e ideologicamente, não é o que se mostra num período posterior. Dessa forma, a fantasia com a qual nos conectamos é dupla, como Le Guin volta a mencionar, pois ela está “situada em meio ao falso, à tolice, ao ilusório, aos baixios da mente e à crucial conexão da mente com o real”.

Dessa maneira, o que Le Guin e a palavra fantasia querem dizer é que: há um fundo de verdade demonstrada no fantástico, o qual é intrínseco ao homem. Os deuses gregos são fantasiosos com suas ações humanas, porém, ainda assim, eles – até hoje – mostram aspectos e facetas que intrigam teóricos. Um exemplo é a deusa do amor que traía o seu marido com qualquer um, ou a deusa do casamento que era traída diversas vezes pelo marido. Há uma duplicidade helênica que faz parte da natureza humana e a ela pertence, situa-se no fantástico, mas ainda se situa no real.

Assim a fantasia é vista na Antologia da Literatura Fantástica. Ela não se prende só aos seres mágicos, ela vai além, extrapolando tudo que foge do cotidiano e do real, através de reflexões, assombrações ou sonhos. Borges, Casares e Ocampo, ao montarem a sua antologia, contam com diversos escritos: seguindo uma ordem alfabética bem borgiana, os organizadores se aproveitam de autores de múltiplas culturas (japonesa, chinesa, árabe, francesa, hispano-americana, etc), além de autores clássicos como Kafka, Wells, Carroll, Joyce e outros, e de contos de um parágrafo a páginas.

Confesso que eu me senti incapaz de compreender alguns contos, isso porque ainda preciso estudar mais tais autores ou suas culturas; outros contos eu já conhecia e fiquei encantada por estarem nessa seleção; há aqueles novos – e que eu acho ter entendido – como grandes surpresas. Essa obra, ao meu ver, deve ser saboreada aos poucos e não lida de uma vez, justamente porque cada texto traz uma reflexão envolvente e inesquecível.

Um dos detalhes mais interessantes da edição da Companhia das Letras é que eles traduziram a partir da tradução dos autores, isso se deve ao fato de já ter existido uma crítica anterior a uma tradução italiana, visto que a ideia era trazer a perspectiva dos autores-tradutores e não, do original. O interessante (e minha recomendação) é tentar buscar, após a leitura dos contos, os originais ou traduções diretas daqueles de que mais gostar.

A edição é de capa dura, muito bonita. O design interno é impecável e muito bem delineado, a fonte é ótima para a leitura e a capa traz uma concepção interna da obra que só quem ler será capaz de compreender. Borges, como autor célebre, também está inserido nas páginas, como também Ocampo e a introdução é toda do Casares – uma de antes e outra de 25 anos depois.

Os autores ensinaram o que é fantasia e dão uma aula de reflexões através de contos fantásticos (nos dois sentidos que pode se ter a palavra), fantasia nada mais é do que uma amostra do real.   

 

REFERÊNCIAS

Antologia da literature fantástica. Organizado por Adolfo Bioy Casares, Jorge Luis Borges, Silvina Ocampo. Tradução de Josely Vianna Baptista. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.