RESENHA #90: O QUE É FICÇÃO?

 

AUTOR: Luiz Antonio de Assis Brasil

SINOPSE: “Este é um livro imaginado para auxiliar quem deseja escrever textos de ficção.” O escritor e professor Luiz Antonio de Assis Brasil registrou aqui sua experiência ao longo de 34 anos ininterruptos de trabalho com a Oficina de Criação Literária da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, e também no programa de pós-graduação em escrita criativa na mesma universidade. Com a perspectiva de um ficcionista dialogando com outros ficcionistas, ele apresenta ferramentas indispensáveis para a formação de um escritor. Avesso a fórmulas, Assis ressalta o papel da leitura constante de obras literárias para quem ser se tornar autor de ficção — e são essas obras as grandes referências de seus cursos e deste manual indispensável, que contou com a colaboração do escritor e ex-aluno Luís Roberto Amabile.

Eu descobri a existência do professor Assis Brasil quando, ainda decidindo qual mestrado ia fazer, conheci um curso da PUC do Sul, um recente programa de Mestrado e Doutorado que se destinava a criação literária.

Na época, eu tinha uma ambição imensa por escrita, pelo ofício de ser escritora – talvez, eu ainda carregue isso comigo –, mas, infelizmente, morando tão longe e ainda com as despesas de mensalidade, tornou-se impossível para mim. Sem dinheiro, eu me voltei para a minha Universidade e comecei a me especializar em Literatura Antiga, baseada nos diálogos platônicos, nas peças trágicas e nos épicos inesquecíveis de Homero. Claro, sem esquecer os textos mais modernos, o que é basicamente toda a literatura ocidental.

Eu também, no fundo, não esqueci as minhas ambições, mas ainda me sinto muito travada e incapaz de escrever uma narrativa lindíssima como os autores que admirei a vida toda fizeram e até hoje fazem, porque alguns estão vivos. Tenho ideologias similares de narrativa, mas a minha escrita não é tão boa quanto eu gostaria, em comparação aos demais. Será que todo mundo já sentiu isso?

Ou pior, quando você tem uma ideia e pensa: “ela pode ser fantástica, mas acho que outra pessoa deveria escrever, eu não tenho capacidade”. Qual escritor não passou por isso? Bom, eu já. Incontáveis vezes.

Como todo escritor que cresce na área, acredito que as inseguranças são enormes e acho que, pela primeira vez, uma resenha de um livro vai ser mais um desabafo pessoal do que uma resenha. Ou melhor, já é um desabafo imenso.

Por isso, quando a Companhia das Letras me enviou, no meio do mês, um livro extra que era sobre escrita criativa, o qual demorou três anos para sair da ideia e virar de fato um manual nas minhas, e vi o nome do professor Assis, eu poderia dizer que o meu mundo caiu.

Obviamente, num sentido figurado, mas foi quase como se fosse palpável. Então, eu percebi que a minha ambição não tinha morrido só porque não consegui frequentar um curso, ela só ficou presa no espaço-tempo, flutuando enquanto eu vivia outras experiências. Inclusive, por mais que eu pensasse que “não é para mim ser escritora, acho melhor ser crítica”, eu continuei consumindo manuais e livros a respeito de escrita, de desenvolvimento de personagem, passeando por teóricos diversos, principalmente da literatura fantástica, como Todorov, brincando com Propp e tentando entender as minúcias de escrita colocadas por Otto Garcia (Comunicação em Prosa Moderna é um dos livros que eu indico como complementar a esse do professor Assis Brasil, inclusive).

Então, por mais que eu estivesse escrevendo a dissertação – e ainda estou –, repleta de prazos apertados e trabalhos para corrigir, traduções para fazer, minhas mãos foram sozinhas, sem controle, folheando as páginas do livro. E, sem aguentar mais tanto suspense, comecei a ler.

Encontrei nesse livro algo que me deixou feliz e entusiasmada, senti uma conexão muito grande com as impressões e reflexões sobre arte literária do professor. Ele trabalha diversos aspectos que sempre foram a minha preocupação e, ao mesmo tempo, o que eu questionava ou pensava ou refletia.

Algumas das conclusões que ele coloca foram exatamente as minhas, como a importância do personagem – ou melhor, dos personagens –, como enredo e personagem devem entrar em simbiose para fazer sentido. A necessidade de vivência e experiência, principalmente, de empatia, porque escrita – antes de tudo e a mais canônica – é sobre humanidade. Como escrever sobre aquilo que você não desbrava? Das diferentes pessoas com suas distintas opiniões? Se você não tiver o mínimo discernimento do real e da tentativa de observá-lo, como você vai conseguir transcrevê-lo?

Muitos escritores enfatizam o enredo, a trama em suas ações, mas história não é só ação, história é reflexão sobre o que somos. O interessante é que, para justificar tais ideias, o professor se baseia em clássicos literários variados e, em suas explicações, é muito didático para com aqueles que não tiveram a experiência, de uma maneira a indicar leituras e mostrar o essencial para todo o escritor:

Se queremos escrever, antes de tudo, precisamos ler. Não só o livro, mas o mundo mesmo. Ao ponto de nos conectarmos com nossos leitores, engajá-los a se sentirem parte da história e ligados aos nossos personagens. Por isso, um livro nada mais é do que viajar sem sair do lugar, conhecer o mundo estando na cama, na poltrona, em qualquer lugar, mesmo debaixo de uma árvore numa tarde primaveril.

É se sentir dentro de algo, pertencendo, mesmo que nós saibamos que sempre há de chegar um fim. Literatura é isso e, durante todo o livro do professor, eu senti que por mais que eu tivesse desistido, no fundo, tudo que eu aprendi, deu a mim o suficiente para conhecer mais e transcrever.

Se eu às vezes penso em desistir, esse livro sempre vai me fazer lembrar o que é escrever. Após 34 anos, o Assis Brasil não é só um pioneiro, ele é um exímio exemplo de alguém capaz de nos mostrar, de maneira didática e simples, o básico que precisamos saber, mesmo que tenhamos, no fim, que esquecer.

Eu só posso agradecer a nossa parceira por essa edição, porque ela me lembrou o que eu sempre quis e não tinha coragem de tentar realmente.

 

REFERÊNCIAS

BRASIL, Luiz Antonio de Assis. Escrever ficção: um manual de criação literária. Colaboração de Luís Roberto Amabile. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.