RESENHA #89: A LIBERDADE DAS FADAS

 

AUTORA: Diana Wynne Jones

SINOPSE: Sophie, uma jovem de 18 anos, é amaldiçoada por uma bruxa que a transforma em uma velha de 90 anos. Para se livrar da maldição, ela foge e emprega-se no Castelo de Howl. Essa ‘velha senhora’, dinâmica e misteriosa, dá nova vida à antiga habitação onde vivem Marko, um jovem aprendiz, e Calcifer, o demônio do fogo, responsável pela ‘vida’ do castelo. Além de ficar condenada ao corpo de uma senhora, o feitiço impede que Sophie revele que está sob uma maldição. Ainda assim, ela e Calcifer, também amaldiçoado, fazem um pacto, jurando que um vai tentar quebrar a maldição do outro, descobrindo sua natureza.

Não se pode ser exigente quando se está em busca do próprio destino.

 

Sempre deixo clara a minha predileção inata por contos de fadas e obras infanto-juvenis, visto que – numa concepção própria – é um tipo narrativo complicado de ser desenvolvido justamente porque é necessário, antes de tudo, lembrar o que é ser criança e como voltar aquele tempo.

Diana Wynne Jones, por mais que seja uma autora extremamente famosa lá fora, é pouco conhecida no Brasil, embora parte de sua obra tenha feito sucesso ao ponto de virar uma animação japonesa que é bem conhecida por aqui. O Castelo Animado, antes de ser parte do Studio Ghibli, é um livro.

Um livro muito bom, na verdade.

Ao contrário dos padrões orientais, Sophie é uma ruiva precipitada, ativa e mandona. De início, por mais que tenha uma personalidade extremamente altiva, a protagonista não consegue demonstrar isso, abaixando a cabeça sempre que pode. Embora, mais para frente, nem mesmo o famoso mago Howl seja capaz de deter os seus impulsos, o mesmo homem responsável por assustar muita gente pelas lendas que o circundam.

A narrativa elaborada por Wynne Jones é extremamente divertida e leve, tudo o que uma boa trama infanto-juvenil precisa necessariamente ter. No entanto, não podemos limitar essa história somente a sua leveza e diversão, porque é muito mais. A autora traz, durante uma nova acepção dos contos de fadas e um realismo mágico vindo direto da Inglaterra, conceitos importantes para a mulher, como os padrões sociais que nos são impostos e as responsabilidades que, no final das contas, concernem a nós mesmos e o quanto nos dedicamos a família.

Para muitos, os contos de fadas trazem pequenas reflexões acerca do cotidiano, histórias como Chapeuzinho Vermelho, por exemplo, demonstra o quão é perigoso para uma moça sair sozinha de casa, ou tramas como João e Maria que falam sobre abandono parental e a importância de auxiliar os seus pais. Entretanto, por mais que exista, durante a trama de Wynne Jones, essas simples lições, há algo muito mais profundo.

O primeiro aspecto mais entranhado é como Sophie precisa tomar a responsabilidade para si o tempo todo por ser a mais velha de três irmãs, fincando raízes – por mais que não queira – justamente porque ela acredita ser seu destino. Existia, naquele período, um aprisionamento da posição da mulher para aquilo que esperam que ela seja e não necessariamente o que ela quer ser.

Nesse parâmetro, encontramos o segundo aspecto intrínseco da obra de Wynne Jones – com um empoderamento feminino incrível, aliás –, o fato de Sophie estar tão presa aos padrões sociais que não pode ser ela mesma. Sophie só consegue demonstrar sua verdadeira personalidade após ser amaldiçoada, isso porque ela passa a acreditar que ninguém liga para o que faça por ter se tornado uma idosa. Ao vislumbrar a si mesma na terceira idade, percebe que qualquer necessidade de casamento, costumes e hábitos para o que deveria ser no futuro caem por terra.

Não tendo mais que se habituar a ser o que um homem espera que ela seja, justamente por não ter mais a aparência da juventude, a protagonista se vê livre de todas as amarras sociais que outrora a prendiam, tornando-se mandona e altiva como verdadeiramente era. Contudo, isso não tira, em nenhum momento, a característica jovial que marca a personagem: sua precipitação e julgamento exacerbados.

Ao contrário de livros, principalmente do cunho young adult (obras voltadas para jovens adultos), a personalidade de Sophie e a sua ansiedade para cumprir com as coisas não incomoda durante a leitura, somente os seus julgamentos – que são muitos – e, não por menos, porque seu par romântico possui tantos defeitos que até nós passamos a julgá-lo também.

Howl, como Sophie, está preso a amarras, no entanto, por ser homem, elas são um pouco diferentes. Para ele, é exigida a responsabilidade de quem cuida de uma casa, como se fosse uma função exclusiva da parte masculina da família, sendo pontuada na presença de sua irmã, por exemplo. Diversos aspectos clichês como falta de organização e senso são colocados em pauta e é muito interessante como, a todo momento, podemos perceber as tentativas de fuga do mago, ao menos, ele parece querer fugir de tudo.

Esses dois personagens não são os únicos a compor a obra, mas – por serem protagonistas – são os mais desenvolvidos durante a trama e é interessante ver como são tão diferentes um do outro. Wynne Jones consegue criar personalidades complexas em um enredo voltado para crianças, justamente para mostrar – sem didatismos – como somos influenciados por aquilo que nos cerca e como podemos, tal qual uma lição, fugir disso para sermos quem somos.

Além deles, e Calcifer – o melhor demônio e mais honesto que você irá conhecer –, há todo um universo muito bem esquematizado por trás, que suporta magia, jogos políticos e uma série de pequenos detalhes sutis e incríveis que saltam aos olhos. Coisas normais, como nabos, podem se tornar muito mais e a magia não é vislumbrada de uma só forma, tornando-se parte da personalidade que os personagens apresentam.

Há tanto em O Castelo Animado quanto em muitas obras canônicas que são valorizadas por terem um conteúdo mais adulto, no entanto, devemos sempre levar em conta que – como disse C.S. Lewis certa vez – devemos escrever histórias que gostaríamos de ler, reavivar o melhor que existe em nós: a nossa criança interior.

Ler é sinônimo de liberdade e a melhor forma de encontrarmos isso é nos recordarmos de quando as amarras sociais não nos prendiam aos padrões.

 

REFERÊNCIAS

JONES, Diana Wynne. Howl’s Moving Castle. New York, NY: HaperCollins Publishers Inc., 2001.

LEWIS, C.S. Sobre histórias. Tradução Francisco Nunes. 1ª ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2018.