RESENHA #88: AS RAÍZES DO CONHECIMENTO

 

AUTORA: Naomi Novik

SINOPSE: Agnieszka e Kasia são melhores amigas e levam uma vida tranquila no vale. Mas essa tranquilidade cobra seu preço. Afinal, às margens do vilarejo onde moram fica a temida Floresta corrompida, cheia de um poder maligno desconhecido, e para impedir que ele avance para além das fronteiras da Floresta, o povo do vale conta somente com a proteção de um mago frio e ambicioso, que a cada dez anos exige que uma jovem do vilarejo seja entregue para servi-lo. Enquanto a próxima escolha se aproxima, Agnieska teme por sua bela, graciosa e corajosa amiga. Mas pode ser que ela esteja errada. Porque, quando o Dragão chegar, não é Kasia que ele vai escolher.

Existem livros que fazem história; outros, cuja história faz parte intrinsecamente do leitor após concluir a jornada junto com o herói. Nem todo livro vai agradar a todos os indivíduos que se prestarem a lê-lo, mas todo livro – ou a maioria deles – sempre terá alguém para quem a leitura será especial.

Alguém que diga como aquele livro vale a pena.

Enraizados, definitivamente, não só representou, como apresentou extremamente bem o que é capaz de me agradar em uma história, o que é extremamente difícil quando se trata de Young Adults, histórias destinadas a jovens adultos, porque a maioria delas erra a mão quanto a críticas e mais ainda em desenvolvimento da narrativa e de personagens. Por exemplo, Six of Crows é uma trama que é encantadora por seus personagens, mas com enredo fraco; por sua vez, Corte de Espinhos e Rosas é uma narrativa que traz um plano de fundo ótimo, porém peca absurdamente no desenvolvimento de personagens e a trama possui não só características terríveis como mal elaboradas. Outras, como o Beijo Traiçoeiro, podem trazer surpresas, porém, não conseguem se manter quando essas se esgotam, trazendo histórias óbvias e com problemas de verossimilhança na construção de personagem.

Embora a escrita de Naomi Novik, ou, talvez, de sua tradutora Cláudia Belhassof (não sei, porque não li o original), não seja a mais elegante ou a mais bem modelada que já vi, pois algumas passagens são muito confusas e demandam certa releitura em momentos aqui e acolá, ela emenda tão bem a narrativa, constrói tão bem o enredo, focaliza os pontos certos nos personagens, que a escrita torna-se acessório, um acessório importante, mas acessório dentro de toda a gama de possibilidades dentro do universo que ela constrói.

 O primeiro ponto positivo de Enraizados é que a autora dispensa continuações e elabora um enredo num livro só, o que, dentro desse universo fantástico de livros para jovens adultos, é bem escasso e problemático. Fazendo isso, ela não enrola, ao contrário de muitos outros, enquanto desenrola a trama, apresentando aspectos que, mais para frente, tornam-se essenciais para compreender e conectar os pontos do porquê as coisas ocorreram daquele jeito.

Logo no princípio da narrativa, por exemplo, a autora deixa claro como o universo política e culturalmente funciona. Baseado em um sistema de corte e de vilarejo, há uma construção hierárquica de valores e poderes, próximo ao nosso sistema capitalista, mas muito mais congruente ao sistema feudal, em que há o senhor e os moradores daquela terra. É impossível desejar verossimilhança ao mesmo tempo que, em certa medida, o famoso “politicamente correto”. No entanto, não é porque os preceitos morais dos indivíduos daquela sociedade não seguem o nosso padrão – dessa forma, o “politicamente correto” torna-se flexível ao que você pressupõe ser correto e justo – que a lição moral do livro vá de acordo com essa noção.

Algo que, de fato, torna-se incômodo a minha pessoa é quando o leitor não sabe diferenciar o que o personagem pensa, o que a história traz e o ponto de vista do autor. Por mais que muitos confundam, é necessário ter noção de que são três ideias completamente diferentes entre si. A primeira vai seguir os padrões sociais da narrativa, no caso, como história baseada em um sistema monárquico feudal, nenhum camponês vai, explicitamente, ir contra um príncipe; o segundo representa a lição moral da trama, isto se define não necessariamente pelas ações dos personagens, mas pelo decorrer dos acontecimentos. O último, não menos importante, pode se conectar completamente com o que a história traz, mas isso não necessariamente é verdade, pois não podemos pressupor os pensamentos de uma pessoa através de uma história sem nunca ter dialogado com o indivíduo. Como Platão, através de Sócrates, rememora-nos: o verdadeiro conhecimento está no diálogo, não no texto imutável, surdo e mudo.

Voltando a fazer um paralelo com Corte de Espinhos e Rosas, dentro dessa última trama, o conhecimento é estagnado. Uma das coisas que me fez não suportar essa narrativa, como linguista e pesquisadora sobre oralidade e escrita, é como Maas ressalta que o conhecimento, o verdadeiro conhecimento, de sua personagem só se dá depois de ela ser capaz de ler, já na continuação da trama. Isso não faz parte só da cognição da personagem, que é narradora principal, mas em nenhum momento até o segundo volume – que me fez desistir de continuar lendo a trama, confesso – dá a entender que essa ideologia é incorreta, pelo contrário, diversas vezes ela repete essa ideia, como se a leitura de textos escritos fosse o suprassumo do conhecimento. Entretanto, isso é tão errado que não posso mensurar em um único texto escrito.

Enraizados, por sua vez, vai em completa contramão dessa noção que me fez – entre outros aspectos – não suportar a leitura do livro anteriormente citado. A noção de conhecimento na obra de Novik é fluida, como as raízes que se espalham debaixo da terra, como a água que corre nos rios. Enquanto o Dragão, par romântico da protagonista, é metódico e voltado para os livros, que comprovam ou não a veracidade do mundo; Agnieszka é justamente o oposto, ela representa o conhecimento não estanque, voltado para a oralidade, o mundo e a natureza. Eles são opostos, mas não simplesmente opostos, eles são opostos complementares, o que quer dizer que nenhum é menor que o outro, ambos transmitem conhecimento e são parte dele, formando possibilidades, como o Falcão e entre outros personagens mágicos também mostram.

Entretanto, é essa química de opostos que se atraem que faz o romance implícito na narrativa ser muito mais encantador do que os mais exagerados. Enquanto outras obras se sustentam com cenas sexuais aos montes e romance muito mais do que história, desenvolvimento de personagem e universo, Enraizados, outra vez, vai ao encontro do que é necessário para uma história e não, à libido do leitor, focando em outros personagens e relações, como de Agnieszka e de Kasia. Eu suspeito que essa quantidade de cenas românticas e completamente desnecessárias em Young Adults tenha muito mais a ver com preenchimento de espaço do que por necessidade, visto que preferem fazer três livros arrastados do que dois concisos ou apenas um. Há livros, claro, que fogem desse estereótipo, como Noivos do Inverno, escrito por Dabos; ou, seguindo a mesma editora nacional, A Biblioteca Invisível, de Cogman.

Outro aspecto interessante e bem modelado é o contraponto entre homem e natureza, um questionamento que foge ao tempo moderno. Há um embate tão antigo quanto o apresentado pela a narrativa, explorado e extrapolado pela a autora que se baseia em folclore eslavo e contos poloneses para investigar e investir em sua concepção até o momento final. Além de subverter noções maldosas de alguns personagens folclóricos, como a Baba Yaga.

Apoiando-se em uma base comum de contos clássicos, o clichê A Bela e a Fera, a escritora consegue – enquanto aborda os contos poloneses, trabalhar: a ideia fluida de conhecimento, o questionamento homem vs natura e a noção do que significa lar e raízes, além de ancestralidade – trazer personagens com diversas camadas e compreensíveis, o que não quer dizer que dentro das jornadas deles estão corretos ou as suas atitudes são adequadas ou justas, mas que são entendíveis dentro do contexto feudal e monárquico.

Assim sendo, o livro Enraizados não é só uma leitura que me deu prazer, mas uma leitura que me fez perceber que o Young Adult pode ser muito mais do que à primeira vista, como Dabos e Cogman conseguiram ao apresentarem mais do universo do que do romance. Há outros, equivalentes a esse, que são parte de folclores não convencionais, como Golem e o Gênio e A Noiva Fantasma, publicados pela Darkside e de volume único, capazes de apresentar uma boa construção de universo e sem exageros românticos, até porque fica claro que romance demais é embromação à libido.

Obviamente, há problemas nessa obra – como quaisquer outras – como, por exemplo, a personagem feminina ser extremamente forte e parecer ser mais capaz do que seu par romântico, alguém que já vivia com magia há muito mais tempo. No entanto, a autora quebra parte desse aspecto ao mostrar que o conhecimento é múltiplo e a questão não era sobre capacidade, mas sobre formas de vislumbrar a vida. É o homem vs homem, ou melhor, o homem vs Mulher Selvagem, como Pinkola aborda em uma leitura junguiana. É um tanto inverossímil, mas, na narrativa, torna-se um pouco plausível.

Esse é um livro que, dentro de seu gênero, na minha concepção, é capaz de fazer história, não é à toa que foi premiado.

 

REFERÊNCIAS

BARDUGO, Leigh. Six of crows: sangue e mentiras. Tradução de Eric Novello. 1ª ed. Belo Horizonte: Editora Gutenberg, 2016.

BEAUMONT, Madame de; VILLENEUVE, Madame de. A Bela e a Fera. Tradução de André Telles; apresentação de Rodrigo Lacerda; ilustração de Walter Crane e outros. 1ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.

BEAUTY, Erin. O Beijo Traiçoeiro. Tradução de Guilherme Miranda. 1ª edição. São Paulo: Seguinte, 2017.

CHOO, Yangsze. A Noiva Fantasma. Tradução de Leandro Durazzo. Barueri, São Paulo: Darkside, 2015.

COGMAN, Genevieve. A Biblioteca Invisível. Tradução de Regiane Winarski. São Paulo: Editora Morro Branco, 2016.

DABOS, Christelle. Noivos do Inverno. A Passa-Espelhos. Volume 1. Tradução de Sofia Soter. São Paulo: Editora Morro Branco, 2018.

ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com os lobos. Rio de Janeiro, Rocco, 1994.

MAAS, Sarah J. Corte de Espinhos e Rosas. Tradução de Mariana Kohnert. Rio de Janeiro: Galera, 2015.

NOVIK, Naomi. Enraizados. Tradução de Cláudia Mello Belhassof. Rio de Janeiro: Rocco, 2017.

WECKER, Helene. Golem e o Gênio. Tradução de Cláudia Guimarães. Barueri, São Paulo: Darkside, 2015.