RESENHA #87: O ROMANCE FEMINISTA DE 1901

 

AUTORA: Júlia Lopes de Almeida
SINOPSE: Camila, de origem pobre e casada com Francisco Theodoro em virtude da comodidade que a riqueza do marido lhe traz, descobre a paixão tardiamente nos braços do doutor Gervásio. Francisco de nada desconfia, mas terá seu ideal de família perfeita abalado após um mau negócio que o leva à falência.

A palavra falência deriva do termo latino “fallencia”, que, na língua pseudo-morta, significava “falta, insolvência”. A obra de Júlia Lopes de Almeida é sobre a falta e também sobre a insolvência; enquanto o segundo trata a respeito dos problemas comerciais de Francisco Teodoro, o outro trabalha as múltiplas carências da vida, principalmente, das figuras feminina e negra presentes na narrativa.

No entanto, antes de esmiuçar um pouco da experiência literária, acredito que seja necessário abordar a experiência histórica da qual a autora faz parte, isso se deve ao fato de que Júlia Lopes de Almeida é uma escritora realista, naturalista, feminista e abolicionista, entretanto, mesmo com todos esses aspectos vistosos à sua época, ainda mais para nós da contemporaneidade, a sua capacidade, intelectualidade e obras são pouquíssimo conhecidas.

Menos conhecido ainda é o fato de que ela foi deliberadamente excluída, por mais que fosse uma idealizadora, de um dos assentos da Academia Brasileira de Letras, simplesmente por ser mulher. Dessa forma, quando Almeida, em suas obras, como em A falência, aponta o sistema escravista, machista e execrável, relacionando-os aos romancistas como partes estruturais desse meio e desse método, ela poderia estar parabolizando a sua própria história de vida: de uma mulher brilhante que foi excluída do renome para colocarem, como homenagem, o seu marido no lugar.

Nesse interim, a obra não é só sobre, literalmente, a falência de um burguês, até porque esse fato – o que foi de fato uma decepção – só ocorre no final, mas de toda a denúncia de um sistema machista que: seleciona as mulheres como traidoras quando traem, mas não os homens; incorpora na figura feminina a mãe e o lar, sendo, nessas opiniões, as únicas funções cabíveis às mulheres; pondo-as como submissas, fúteis ou usáveis, por mais que possuam corações bons ou prevejam o desastre.

A obra de Almeida é arrebatadora para qualquer pessoa atenta as causas sociais, visto que ela aborda – com ironia – muitas situações vergonhosas, principalmente, para a atualidade, utilizando termos pejorativos para designar personagens, animalizando-os e diminuindo-os; ou se apropriando de discursos retrógrados (que não o eram em seu tempo) para tentar inverter os valores. A partir do discurso errado e maldoso, Almeida tenta subverter e tornar o discurso o menos plausível. Não somente o discurso, mas aqueles que o proferem.

Um homem que perde tudo ressalta como a figura feminina deve se dedicar ao lar; outro, mais jovem, julga uma mulher porque ela comete adultério, sendo tão subversivo e interesseiro quanto; o último, mais manipulador e terrível, é aquele que não acredita em divindades cristãs, batizando escritores homens como deuses, é o mesmo que usa e abusa de sua capacidade de controlar, diminuir através da arte, da performance e da falácia.

Dessa forma, a autora pontua três sistemas que entram em falência no decorrer da obra literária: o primeiro é o sistema familiar, subjugado pela traição e pela perda de valores morais e religiosos; o segundo, não menos enfático que o outro, é o sistema patriarcal, com personagens masculinos fracos, mesquinhos e hipócritas, os quais pouco ajudam a protagonista, muito menos os outros membros da família; o último, é o sistema individual, o qual é demonstrado pelo próprio indivíduo que se torna incapaz de se habituar à perda.

Por mais que eu tenha me apaixonado por Júlia Lopes de Almeida, devo dizer que não foi uma leitura fluida a priori, principalmente, porque a escrita apresentada pela a autora é muito distante da contemporânea, sendo assim, por mais que eu indique essa obra, ela pode se tornar um pouco custosa para os que não estão acostumados com textos mais antigos. Contudo, acredito que essa barreira temporal não deva ser impedimento para nenhuma pessoa.

E, ainda que eu diga que ninguém deva se impedir de ler o texto de Almeida, devo ressaltar que é imprescindível não ler a sinopse de algumas edições, como a da Penguin, visto que a sinopse diz tudo que vai ocorrer no livro, o que pode decepcionar o leitor ou fazê-lo receber spoiler. Por mais que eu tenha gostado da trama como um todo e toda a crítica desenvolvida, devo confessar que esperava um enredo completamente diferente do apresentado, já que acreditei que os fatos decorridos na sinopse fossem somente o início, por isso, sinto que eu poderia ver muito mais no plano de fundo que montei em minha mente do que vi realmente na história.

Contudo, também é necessário frisar que não é o decorrer dos fatos que importa, mas como os fatos transcorrem e o que eles representam dentro desse contexto no Rio de Janeiro, como: a figura negra, a formação das favelas, a figura feminina, a formação da estrutura do lar, a desmedida social, a pobreza, a traição, a falência (em múltiplos sentidos).

A edição enviada pela Companhia das Letras é muito boa, seguindo o design e a brochura estilo Penguin. As letras não são tão grandes, mas também não são pequenas, o que faz o livro possuir um padrão ideal àqueles que gostam das edições desse selo. Além disso, achei extremamente interessante em um livro com o título A falência ter uma capa cor de laranja, a qual representa o sucesso e a prosperidade.

Entretanto, não é um sucesso e não é próspero o fato de um romance, em 1901, ser tão feminista e tão empoderador?

 

REFERÊNCIAS

HOUAISS, A. e VILLAR, M. de S. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Elaborado no Instituto Antonio Houaiss de Lexicografia e Banco de Dados da Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
LOPES DE ALEMIDA, Júlia. A falência. Prefácio de Luiz Ruffato. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2019.