RESENHA #85: O CAÓTICO CASO DE ÉRICA

 

AUTORA: Larissa Barros

SINOPSE: Érica, menina de quinze anos, tinha uma vida normal em Fortaleza até a manhã em que seus pais foram mortos no lugar dela. Após descobrir que foi incluída na lista negra da ordem das doze tribos de Israel (ODTI), recebe um convite para se tornar uma agente da Europol, que luta com todas as suas forças para impedir que fundamentalistas exterminem a humanidade. Enquanto isso, em Moscou, dois jovens sobrevivem a um duplo atentado que mata quase todos os seus amigos e lidam com a revelação de um segredo que envolve uma das vítimas. No Cairo, uma ONG islâmica tenta escapar de uma armadilha arquitetada pela ODTI para submetê-la às suas decisões. Em Washington, sede da Ordem, a filha de um funcionário da Casa Branca cai em ciladas para que seu pai colabore com os radicais. Em Pequim, um filho procura o pai, há meses desaparecido… Todas essas histórias se conectam. As tensões não se dão apenas entre povos e religiões, mas também entre pais e filhos, amigos, casais. Conseguirá Érica salvar a todos da destruição cada vez mais próxima?

Algumas histórias são como quebra-cabeças: exigem que o leitor junte as peças para compreender o resultado. Outras são como labirintos: fazem com que o leitor percorra um longo caminho de direções e desvios para alcançar o final. Mas algumas histórias, tais como Érica, são como um quebra-cabeça dentro de um labirinto.

O nome do livro faz referência a Érica Santana, protagonista da história, ela é uma jovem de quinze anos, nascida em Fortaleza, e leva uma vida ordinária até que, de modo muito suspeito, seus pais são assassinados. O que já é uma situação difícil por si só, torna-se ainda mais complicada ao descobrir que o crime não foi algo aleatório ou proveniente de uma mente criminosa comum. Aquela era apenas a ponta de um iceberg muito mais profundo e assustador do que ela poderia imaginar.

Buscando vingança, Érica se junta a Europol como uma agente secreta mirim. Dentro da organização, a protagonista descobre a respeito de um mundo que ela nunca imaginou existir. Um mundo infestado de conspirações e planos de guerra, lugar no qual, por séculos, a religião causou danos gravíssimos, ao ponto de iniciar uma nova Guerra Mundial. É assim que a sua vida muda para sempre.

É realmente difícil contar mais sobre a história de Érica, a autora entrega ao leitor diversas pequenas peças desse quebra-cabeça e, a cada capítulo, esses pedaços de história começam a trazer sentido o que, de fato, demora a ocorrer. A estrutura do romance é, para dizer o mínimo, caótica. Apesar de Érica ser a protagonista, ela disputa espaço na narrativa com outros vários personagens e outros tantos núcleos que lançam o leitor em uma maratona cansativa para conseguir não se perder no meio do caminho.

Cada núcleo se encontra em uma parte do mundo. Assim sendo, o leitor precisa se adaptar a inúmeros personagens que, por boa parte da história, não parecem ter relevância alguma no todo. Além disso, poucos deles têm características marcantes ou histórias interessantes o suficiente para que se destaquem na mente do expectador. Depois de pouco tempo de leitura, todos começam a se misturar e parecerem parte do mesmo, o que dificulta o encaixe das peças.

Grande parte desse problema se deve pelo estilo de narrativa da autora. A escrita do livro é extremamente crua, carecendo de descrições e desenvolvimentos que são vitais para os personagens e à trama. Seu texto é um tanto teatral, basicamente focado em ações, pequenas e desnecessárias, que descrevem personagens robóticos. Por vezes, o leitor não saberá dizer o que se passa na cabeça do personagem ou a sua expressão ao receber uma revelação importante, muito menos o ambiente em que está inserido, mas saberá exatamente quantos passos ele deu até a cadeira ou quantas vezes suspirou antes de se levantar e sair.

Para os admiradores de histórias de conspiração, Érica pode não ser uma boa pedida, uma vez que o conflito acaba sendo um mero pano de fundo. O conceito da obra é muito interessante, mas traz uma carga histórica que é pouquíssimo explorada. O que faz com que toda a obra acabe se apoiando exclusivamente na história de Érica.

Esse tipo de abordagem não é uma novidade, nem mesmo é figurada como incorreta, mas se torna problemática quando a personagem tem uma estrutura frágil demais para suportar a narrativa sozinha. Por exemplo, dentro da narrativa, a personagem possui quinze anos quando começa a sua jornada, seus pais são assassinados de maneira cruel, contudo, não é apresentado, dentro da história, qualquer impedimento ilegal e, muito menos, danos psicológicos.

Todavia, preciso ressaltar que o plot twist se constrói em cima de uma ideia muito boa e surpreendente. Quando todas as peças estão quase se juntando e o leitor percebe o labirinto que percorreu, fica visível que nada era o que parecia ser. Apesar de achar que faltaram pistas e indicações para embasar a reviravolta, achei muito inteligente o modo como a autora resolveu o conflito.

Érica é um livro com um público alvo muito específico, portanto, é preciso cuidado. Um leitor descuidado pode se perder nas diferentes linhas que delimitam esse labirinto de conspirações e nunca achar uma saída. Mas é preciso dizer que um leitor atento também corre o risco de tropeçar nas linhas frágeis e voltar o olhar para narrativa de maneira desinteressada. Como tantas obras dentro do universo da literatura, essa não é uma trama indicada para todos.

Para os que decidirem se aventurar, desejo-lhes uma boa jornada. Para os que ficam por aqui, agradeço a companhia e os deixo com um conselho: uma história é muito mais do que uma série de regras, erros e acertos; é uma experiência. E, nessa experiência, o leitor é um elemento vital.

 

REFERÊNCIA

BARROS LEAL, Larissa. Érica.  2ª ed. Barueri, São Paulo: Novo Século Editora, 2016.