RESENHA #84: O BAÚ DE OLYMPIA BINEWSKI

 

AUTORA: Katherine Dunn

SINOPSE: Senhoras e senhores, sejam bem vindos ao circo dos Binewskis, um lugar repleto de atrações extraordinárias e seres estranhos que vão surpreender o mais cético dos espectadores. Quando os ambiciosos donos de um circo itinerante se veem diante da decadência de seu próprio negócio, eles decidem mudar o jogo de maneira nefasta. Com o uso de substâncias radioativas e drogas, eles transformam seus filhos em aberrações – um espelho de sua própria moral – para salvar o negócio da família. Suas apresentações pelo país inspiram devoção de alguns e ódio de outros, e as tensões e valores familiares são levados a um novo nível. Geek Love lança sua luz sobre as nossas noções de bizarro e normal, belo e feio, sagrado e obsceno. Fãs da série American Horror Story e do filme Freaks, de 1932, vão se transformar com essa história, também uma das favoritas de Neil Gaiman, e tão singular quanto seus personagens.

Aos aficionados e amantes da sexta arte, é sempre bom recordar que existem dois tipos de literatura: a primeira é a do conforto, aquela que insere em sua vida um pouco mais de alegria ou de tristeza, porém a premissa é o entretenimento e, por mais que existam lições de vida, continua seguindo padrões sociais estabelecidos e aclamados. A segunda, ao contrário da anterior em gênero, número e grau, é a do desconforto, aquele tipo de trama que sugará suas noites de sono e te embebedará em reflexões a respeito do que foi apresentado e do quão estranho isso tudo pode soar.

Estranho é o adjetivo que define Geek Love, a obra escrita por Katherine Dunn, a qual fez revoluções mundo afora sobre o que é o bizarro, o conceito de família, a medida do amor – seja ele doentio ou não – e, acima de tudo, o conceito de normalidade trabalhando o seu antônimo.

O livro tem como narradora Olympia, a penúltima filha de um casal que fazia experimentos bizarros para ter filhos fora dos padrões de normalidade com o intuito de apresentá-los no circo Binewski, o qual pertence à família, e se divide entre o presente e o passado dela. Essa divisão, por mais brilhante que seja – já que o presente vem se justificando na medida em que o passado é contato –, às vezes, peca em execução justamente por cortar o clímax de algumas cenas.

Entretanto, essa transição não tira – em absoluto – as reflexões trazidas no decorrer da leitura, pois, por mais que muitos autores ilustres e estudiosos fascinantes digam que é uma obra sobre a anormalidade e o estranho – em um processo de contraponto com a normalidade –, terei que ser petulante o suficiente para discordar. Ao ler Geek Love, por mais que os protagonistas fossem estranhamente fora dos padrões de beleza e sociedade, o que abalou as minhas estruturas foi o modo como Dunn conseguiu trabalhar a normalidade tão bem enquanto a voz era daqueles que são considerados monstros, terríveis ou até geeks, na terminologia original alemã, malucos.

Eu não posso negar que Geek Love trabalha a anormalidade, mas, depois de pensar muito, percebi que o mais desconfortante nessa obra – e por isso a classifico no segundo tipo de literatura ao qual a maioria dos clássicos pertence – diz respeito à estranha normalidade que tudo soava o tempo todo.

Ao adentrarmos em um circo padrão, podemos encontrar figuras que fogem dos estereótipos facilmente, como mulheres barbadas, homens engolindo espadas, etc. No entanto, encontramos, no circo Binewski, crianças com nadadeiras, gêmeas siamesas e anãs albinas, além do Cano, um lugar repleto de bebês, que não deram certo, em tubos.

No início, temos um choque de realidade perante ao apresentado, começando pelo fato de valorizarmos a criança, a infância e a inocência, abarcadas pela postulação da ideia de infância que passou a existir a partir do século XIX, justamente por causa disso, nós nos incomodamos porque as crianças, no livro, são – ao nosso ver padrão – defeituosas e há uma porção delas mortas dentro de tubos; em sequência, esse confronto se transforma, visto que o valor dado a elas pelos pais é proporcional a sua deformidade: o fato de elas serem defeituosas é o motivo pelo qual seus pais não a abandonam, já que, caso nasçam normais, não possuem utilidade.

A subversão de valores apresentadas por Dunn nada mais é do que o reflexo de como agimos e tratamos aqueles que não são parecidos conosco. Se víssemos uma criança com nadadeiras, sentaríamos perto dela ou nos afastaríamos? Há dois tipos de pessoas, na categorização que parece ser apresentada por Dunn a priori, a primeira é aquela que sente pena; a outra, a que demonstra aversão. Contudo, Arturo – o Aqua Boy – mostra que tais sentimentos são intercambiáveis ao ponto de aversão virar veneração e pena se tornar raiva. Tudo, é claro, com uma medida de manipulação que poderíamos encontrar em figuras como Hitler.

Embora o livro seja sobre a história dos Binewski como um todo, Arturo é a estrela principal e a maior atração do circo e do leitor; não somente porque Olympia – a irmã secretamente apaixonada por ele – é a narradora, mas pelo fato de a ascensão e a decadência dos Binewski se deverem diretamente as suas atitudes e as suas palavras. Arturo Binewski é o tipo de personagem que mais amamos e, ao mesmo tempo, nos provoca aversão e ódio, visto que a sua inteligência é esmagadora, a sua forma de pensar é o maior catalizador para que confrontemos as nossas ideologias, no entanto, não deixa de ser um megalomaníaco manipulador que não mede nenhum esforço para ser o centro de tudo.

Geek Love traz consigo uma relação parental abusiva e um relacionamento amoroso não concretizado que soa extremamente absurdo, é um livro que, trabalhando os conceitos mais primordiais da sociedade, como família, amor e religião, tira-nos da nossa posição de conforto e nos faz questionar sobre o que estamos fazendo e se não estamos cometendo, em certa medida, os mesmos erros que nossos ancestrais enquanto cultivamos os nossos próprios monstros.

Dunn me fez recordar muito recorrentemente de como a nossa sociedade funciona, pois buscamos incessantemente o padrão de normalidade imposto por nós mesmos, em que medidas estéticas estão acima da intelectualidade, por a aparência ser o mais óbvio e visível (principalmente, para as mulheres). No entanto, em mesma medida, queremos ser únicos. Como, ao mesmo tempo, desejamos ser normais – igual a todos os outros – e ainda assim queremos ser especiais? É um desejo paradoxal entre exclusividade e normalidade, pois o anormal nada mais é do que sair de um padrão.

No fundo, não estamos todos fora dele? Por mais que tentemos nos encaixar? Essa foi uma das reflexões que mais me fez pensar e perceber como, no fim, tudo soa extremamente hipócrita depois dessa fundamentação inicial.

Outra das muitas reflexões de Geek Love, para mim, foi a respeito do amor. Sobre como amor se manifesta e de que maneira ele pode ser explorado em uma relação abusiva e, pior, como, dentro de uma relação abusiva é, sim, possível perceber o quão odioso tudo aquilo é, no entanto, ser ineficiente em escapar. Dessa forma, Dunn entra nos laços inquebráveis, como os parentais. É possível fugir da sua própria família e do amor que deveria nutrir?

Os personagens são crus e extremamente plausíveis, e por mais que Arturo seja o cerne da narrativa, Olympia consegue ser uma mistura paradoxal de amor e ódio, fazendo-nos sentir pena na mesma medida da raiva. A única exceção, entre todas as figuras exóticas do livro, é Fortunato – ou Chick – que consegue ser carismático, doce e infantil, sem nunca nos proporcionar outra coisa senão adoração, no entanto, é essa mesma inocência amável que o levará ao abismo. Ele é, sem sombra de dúvida, a metáfora encarnada da nossa noção de infância, tempo no qual a inocência é bela, mas pode ser desastrosa para nós como indivíduos.

Na busca pela felicidade, encontramos percalços, o primeiro de todos é aceitarmos a nós mesmos porque – antes de nos buscarmos – fazemos algo extremamente marcado no livro: procuramos o outro. Nessa busca pela felicidade nas mãos de outra pessoa, perdemos a nós mesmos e o que poderia nos fazer realmente bem; essa acaba sendo uma das grandes lições – e sinceramente tapas – que podemos abarcar da obra de Dunn a partir do culto – enlouquecido – da felicidade, além de entender aqueles no topo da pirâmide de uma religião, eles podem ser os menos crentes entre todos os seguidores. Olympia é a prova viva de alguém que não vive por si, não tem um espetáculo próprio e de uma pessoa que coloca o outro sempre antes de si mesma – tornando-se, dessa forma, uma narradora por excelência e a melhor para contar a história do circo e de sua família.

Por mais que essa obra me suscite tantas reflexões e ideias, confesso que há aspectos nela – tratando-se de execução – que me incomodaram, ambos pertencentes ao final da narrativa. O primeiro, por mais que eu consiga encontrar metáforas para ele (ainda que algumas forçadas), é a própria formulação do final, o qual me soou mal-acabado e preguiçoso. O segundo, bem menos importante que o primeiro e de uma questão estilística, foram as mudanças repentinas de pessoa. A obra, quase que por completo, é em primeira pessoa, com exceção dos momentos em que há diários, notícias de jornais e, aleatoriamente, situações em que o livro intercambia para a terceira pessoa sem aviso prévio e motivo explícito.

Como eu não li o original, pode ser um erro de tradução da Darkside – o que eu definitivamente não acredito –, pois claramente a editora caprichou e muito na edição, tanto nos detalhes internos como nos externos, já que a capa do romance apresenta elementos chaves, como o pôster de um circo itinerante e um cadeado, o lugar no qual Oly esconde os mistérios de sua família. Além disso, talvez pela forma com que o livro me deixou perplexa e reflexiva, não notei nem sequer erros que, comumente, encontro nos livros da editora. 

Mas, entre tudo isso, há em Geek Love, como o próprio título propõe – por mais que Dunn tenha dito não ser o nome ideal – um amor de alguém bizarro, um amor com um senso bizarro. Geek, como ela explica, provem do termo alemão “geck” que significava bobo ou maluco para, posteriormente, designar indivíduos que faziam apresentações em que arrancavam a cabeça de galinhas e perus com os dentes ou comiam insetos.

O que muitos não observam nesse título é que, em sua composição, ele já trabalha dois aspectos da obra, o amor e o estranho, além do que haverá durante o decorrer da obra: o sentimento mais profundo entre malucos ou geeks pode ocasionar. Contudo, para descobrir isso, antes de tudo, é preciso desbravar o baú de Olympia, onde as anotações sobre o passado e as suas sensações sobre o presente ficam escondidas.  

No final de tudo, o confronto será com você mesmo – e você pode amar ou odiar isso.  

 

REFERÊNCIA

DUNN, Katherine. Geek Love. Tradução de Débora Isidoro. São Paulo: Darkside, 2018.