RESENHA #83: A NOVA AVALON E O FEMININO

 

AUTOR: Maria Turtschaninoff

SINOPSE: Maresi chegou à Abadia Vermelha quando tinha 13 anos, durante o Inverno da Fome. Antes disso, só ouvira rumores e fábulas sobre o lugar. Em um mundo onde garotas são proibidas de estudar ou seguir seus próprios sonhos, uma ilha habitada apenas por mulheres soava como uma fantasia incrível. Agora Maresi vive ali e sabe que é real. Ela está segura. Tudo muda quando Jai, com seus cabelos emaranhados, cicatrizes e roupas sujas, chega em um navio. Ela fugia da crueldade e dos perigos escondidos em sua terra natal – mas os homens que a perseguem não vão parar por nada, até encontrá-la. Agora as mulheres e meninas da Abadia Vermelha terão que usar seus poderes e conhecimento ancestral para combater as forças que desejam destruí-las. E Maresi, assombrada por seus próprios pesadelos, deve confrontar seus mais profundos e terríveis medos.

Muitas referências rondaram à minha mente enquanto, página por página, eu conhecia a história de Maresi, uma menina de treze anos que vai se formando mulher a cada novo conhecimento que adquire. Vai se formando mais do que isso, definitivamente, até o final do livro.

Uma das minhas referências mais claras, inclusive a mais interessante (por mais que tenhamos Safo e as Amazonas), foi a Ilha de Avalon. A trama miscigena a lenda – parcialmente original, além dos textos de Historia Regum Britanniae, entre outros de viés histórico –; As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley; e, não obstante, As Crônicas de Artur, de Bernand Cornwell, principalmente, quanto ao estilo com que a narrativa se move. Eu me senti tão próxima à Ilha das Maçãs por tantas vezes que fiquei surpresa com o quão facilmente esse texto me remeteu a isso.

Principiando pela a narrativa, devo dizer que a simplicidade do enredo se assemelha muito ao próprio texto, sem muitas figuras de linguagem ou longos momentos filosóficos, a obra traz consigo uma escrita cativante àqueles que não se aventuram em narrativas densas e descritivas; embora boa parte do livro seja falando sobre os funcionamentos da Abadia e a rotina das noviças e irmãs.

O livro começa com Maresi explicando-nos que está escrevendo sua própria história para compreender melhor os acontecimentos passados. Como na trilogia de Cornwell, em que Derfel Cadarn escreve sobre si e também sobre as lendas de Artur, com um cunho verídico e palpável, a similitude maior se dá quando ambos, sentados em um lugar sagrado – ele em um monastério; ela numa abadia –, passam a contar fatos decorridos, apontando a si mesmos como narradores claros.

Ainda que muito seja contado sobre os hábitos da Abadia Vermelha, nos pequenos espaços encontramos o que levou as meninas e mulheres até aquele lugar sagrado, em que homens não podem entrar. Sabemos que Avalon permite a entrada de Arthur para ser salvo por Morgana, da mesma forma, a Irmã O – uma das personagens mais importantes para a protagonista – conta uma história parecida sobre um homem que pisou em Menos, o nome da ilha em questão, para ser salvo pelos segredos lá guardados.

Há um jogo bem interessante nesse livro sobre as posições sociais das mulheres em detrimento a dos homens, além disso, de como os homens se comportam quanto a isso. Por muitas vezes, a obra narra como a figura masculina tende a querer manter os segredos do conhecimento para si – sem compartilhar com o próximo; a forma abusiva com que tratam as mulheres; e todo o mal que podem causar aos demais e a si mesmos. Em passagens rápidas e que podem passar despercebidas aos olhos caso não haja atenção, encontramos violência, abuso e maldade espalhados por todo esse universo fantástico.

 No entanto, há alguns contrapontos quanto a isso, algo que me deixou muito contente na leitura, pois, diversos textos tendem a fazer maniqueísmos quanto ao machismo trabalhado. Para exemplificar, enquanto temos o pai de Jai – a melhor amiga e também aquela que faz tudo mudar na ilha –, encontramos as memórias felizes e tristes da figura paternal de Maresi ao se despedir carinhosamente da filha para que tenha um futuro melhor. Essa dinamicidade entre figuras dentro do texto mostra uma realidade intrínseca a nossa: um patriarcado que tende a nos manipular e suprimir e poucos são os homens que notam isso ou dão um mínimo valor. Porém, existem.

    Há, durante o decorrer da obra, simbolismos muito marcados e fortes, presentes em toda a literatura ocidental, como a figura da maçã, as relações com o número três e a forte conectividade entre: poder, conhecimento e o ciclo da vida. Eu achei o livro embebido por uma mitologia muito interessante e comum às religiões pagãs, ainda que pareçam se miscigenar com as noções católicas certas vezes, como o uso de lenços cobrindo a cabeça e as nomenclaturas utilizadas.

Contudo, entre todos os aspectos mencionados, o que mais me chamou a atenção é a noção tripartida da divindade primordial da história. A Deusa, dividida entre a Rosa, Havva e a Velha, é uma ideia fantástica para trabalhar as etapas da vida e usar – didaticamente – a metáfora do que cada momento transpõe para nós, além disso, demonstrando a partir de uma ideologia cíclica o desenvolvimento do amor, da maturidade, da sabedoria, da vida e da morte.

Entre todas as três, a mais bem fundamentada – ou melhor explicada – é a Velha, pois é o símbolo da morte, utilizando-se de objetos marcados pelo veneno, e também da sabedoria, transpondo isso através da maçã e dos livros. É literalmente a biblioteca que circunda as catacumbas, o conhecimento gerado que permanece é o mais antigo, como os textos clássicos, por exemplo.

A construção dos ambientes e dos personagens torna-se muito clara durante o decorrer da trama, embora a escrita seja simples e sem muitos detalhamentos. Os lugares são bem apresentados, cravados de símbolos e empoderamento divino, além de embebidos de misticismo. O interessante, tal como Avalon, é que a Abadia Vermelha é um sussurro lendário transpassado de boca em boca, principalmente, das mulheres que desejam a liberdade e o conhecimento. Inclusive, esse é outro aspecto que me faz rememorar a religião católica, acumuladora de conhecimento e que transpunha isso para os seus sacerdotes. Faz isso até hoje, aliás.

Entretanto, por mais que muitas coisas no livro tenham me sido aprazíveis, não posso dizer que foi de todo. Confesso que achei algumas cenas um tanto exóticas demais – para uma obra contemporânea –, outras ações dentro da trama exageradas em uma medida inexplicável, quase como se Turtschaninoff não tivesse largado os contos de fada e tentasse escrever uma história simploriamente fantástica e com detalhes surpreendentes e simbólicos. Nessa medida, acredito que ela tenha tentado imitar as noções religiosas dos antigos textos sagrados quanto a essas cenas em questão, o que justifica por mais que eu não tenha gostado da execução, porém, não há como explicar as ações sem muita coerência de alguns personagens, por mais que ela justifique a partir da ideia de honra.

Além desses detalhes do enredo, também encontrei, por mais que a edição da Editora Morro Branco seja bela e bem diagramada, erros de português e concordância – uns mais graves do que outros. Não estragam a leitura, mas me fizeram crispar os olhos algumas vezes.

Maresi é uma trama que enche os olhos de qualquer pessoa que busca empoderamento feminino e um misticismo digno de As Brumas de Avalon. É a Nova Avalon com mais poder do que nunca.

 

REFERÊNCIAS

BRADLEY, Marion Zimmer. As  brumas  de  Avalon:  a  senhora  da  magia.  Tradução de Waltensir Dutra, Marco Aurelio P. Cesarino. 10. ed. São Paulo: Círculo do Livro, 1989.

_____. As brumas de Avalon: a grande rainha. Tradução de Waltensir Dutra, Marco Aurelio P. Cesarino. 10. ed. São Paulo: Círculo do Livro, 1989.

_____. As brumas de Avalon: o gamo-rei. Tradução de Waltensir Dutra, Marco Aurelio P. Cesarino. 10. ed. São Paulo: Círculo do Livro, 1989.

_____. As brumas de Avalon: o prisioneiro da árvore. Tradução de Waltensir Dutra, Marco Aurelio P. Cesarino. 10. ed. São Paulo: Círculo do Livro, 1989.  

CORNWELL, Bernard. As Crônicas de Artur. 3 volumes. Rio de Janeiro: Record, 2003.

TURTSCHANINOFF, Maria. Tradução Lilia e Pasi Loman. São Paulo: Editora Morro Branco, 2018.