RESENHA #82: METÁFORA SOBRE ESCRAVIDÃO

 

AUTOR: George R. R. Martin

SINOPSE: Uma reinvenção original e fascinante das histórias de vampiros pelas mãos do mestre da fantasia moderna George R.R. Martin. Quando o falido capitão Abner Marsh recebe uma oferta de sociedade de um rico e sinistro aristocrata chamado Joshua York, ele até chega a desconfiar que algo está errado. Mas nada que a possibilidade de receber milhares de dólares em ouro e construir o barco dos seus sonhos não possa fazê-lo mudar de ideia. Assim surge o Sonho do Fevre, o melhor e mais potente barco de todo o Mississipi. Uma embarcação magnífica que, ao navegar pelo rio, vai deixando pelo caminho uma coleção de histórias sombrias. Movido pela força do vapor, o Sonho do capitão pode se transformar no maior pesadelo da humanidade.

Dentro da literatura, a mitologia de vampiros passou por transformações diversas, trazendo figuras mais marcadas pelo sombrio e outras mais marcadas pela ingenuidade, isso se reflete não somente no desenvolvimento dos personagens, como também na construção do enredo, diálogos e as próprias morais das histórias. Basicamente, a maneira como se vê o vampiro – sua criação e desenvolvimento – irá refletir diretamente na forma com que o livro irá se encaminhar.

A trama de Sonho Febril de George Martin reflete o que há de mais sagaz na escrita e nos enredos que o autor cria, e eu não preciso ler sua série mais aclamada para perceber isso, embora deva ter tido algum amadurecimento por parte dele no decorrer do tempo já que esse volume único sobre vampiros foi escrito antes de As Crônicas de Gelo e Fogo.

Confesso que o que mais me chamou a atenção, e o melhor do livro – na minha humilde opinião –, é como Martin desenvolve a ideia de vampiro. Dentro dessa mitologia, encontramos muito mais cientificismo do que o costumeiro viés sobrenatural dentro desse tipo de enredo, podemos vislumbrar um embasamento teórico graças às experiências anteriores de Joshua York, o vampiro que protagoniza a trama junto com o humano Abner Marsh, ainda que o verdadeiro protagonista – ao meu ver – seja o próprio navio e o que ele passa tal como a Notre Dame em O Corcunda de Notre Dame.

Esse aspecto teórico não parte somente da composição de vampiro elaborada pelo autor, mas também o estudo minucioso e histórico em relação ao período escravocrata dos Estados Unidos, o mesmo em que os barcos a vapor navegavam fervorosamente pelo rio Mississipi e, claro, o tempo em que as relações humanas entre raças era tão terrível que reflete na história da humanidade até hoje, com uma segregação que deixou sequelas no Brasil como nos Estados Unidos.

O interessante é que tanto a composição de vampiro quanto o tempo histórico se mesclam em teor metafórico, visto que a crítica principal elaborada por Martin é a maneira como humanos usam outros. É pontuado durante o enredo, mais de uma vez, esse uso contínuo de outro ser humano simplesmente por causa de sua cor de pele e, por isso, o vilão – dentro da história tendo essa atribuição – acaba ganhando voz e repetindo essa ideia como argumento para se manter sem ressentimentos. Se nós matamos uns aos outros por tão pouco, por que ele não poderia fazer o mesmo para sobreviver? Que diferença faria ser um senhor de escravos ou um escravo propriamente dito se o sangue é o mesmo?

Inclusive, é interessante observar a título de curiosidade que vampiros nesse período e lugar não são uma ideia incomum, já que existiam kits para caçá-los que foram leiloados há alguns anos atrás; outro aspecto é – diria eu – um erro de Martin, pois a palavra fevre, que intitula a obra, não é somente a forma obsoleta de fever (febre, em inglês), mas, pelas relações francesas daquele período, está correlacionado com o ferro e o ferreiro. No entanto, há uma cena em que Joshua pontua o mau agouro a respeito do nome do navio por conta da ideia de que fevre se relaciona a febre, entretanto, o personagem é francês e acaba se tornando uma conexão linguística pouco densa e insatisfatória por sua origem.

O título da obra, homônimo ao nome do navio, é o centro da narrativa, pois basicamente tudo é sobre o barco, que tanto metaforiza o vampiro com sua beleza e seus segredos quanto traz à tona – em sua acepção como febre – o desejo dos vampiros e – em sua acepção como ferro/ferreiro – a inflexibilidade de se curvar diante dos preceitos de matar humanos e o desejo de criar de Joshua.

Aqui, os desejos se mesclam – como num sonho ocasionado por uma febre, também metaforizado como um sonho extremamente excitante ou que causa nervosismo, de acordo com o sentido figurado da palavra no inglês –, pois alguns querem continuar a consumir sangue e outros, mais propensos aos idealismos do Rei Pálido, epíteto do vampiro amigo de Abner, sonham com uma espécie de mito arturiano de um salvador que irá levá-los para uma Camelot vampírica.

Em relação ao texto em si, é definitivamente lento a princípio, as cenas são bem descritivas e detalhadas – o que é um aspecto positivo para conhecermos as minucias do barco, do período histórico e de seus tripulantes –, porém isso faz com que a ação demore a ocorrer e somente depois de muitas páginas o livro se torne realmente empolgante. Martin consegue fazer, de uma hora para a outra, com que queiramos saber o que irá acontecer quando, minutos antes, é possível termos a dúvida se é melhor ir fazer outra coisa do que continuar a ler.

De todos os personagens presentes, o mais bem elaborado e interessante é – ao contrário do clichê – o ser humano, Abner Marsh. Ele é extremamente leal e esperto, sendo o condutor não só do barco como também o nosso durante a narrativa. São as suas descobertas que vão dando forma a história porque ele é, dentro do discurso indireto, quem nos sinaliza o caminho tanto dos vampiros quanto dos humanos.

Em relação aos vampiros, todos eles são um tanto sem forma, seguindo caracterizações muito rasas e comuns, o que os torna menos empáticos e plausíveis do que Abner, até mesmo Joshua York não foi capaz de me convencer como um bom personagem durante a leitura. O vilão é extremamente caricato, embora os seus questionamentos sejam válidos e, a partir dele, pensamos sobre como as relações humanas daquele período são mesquinhas e maldosas.

Não só dele, mas de seu humano escudo, Sour Billy, que traz questionamentos e posicionamentos totalmente diferentes do de Abner, sendo o seu contraponto humano durante a trama. Enquanto o sócio de York está ali pela amizade com o vampiro, as motivações de Billy são mesquinhas e suas ações beiram a insanidade, tendo – durante a leitura – uma tentativa de justificá-los, o que sinceramente não convence nem aos personagens.

Graças a Abner, o relacionamento entre os sócios é muito bom de se ler, porém há diversas cenas desnecessárias durante o enredo, o que faz parecer que Martin estava perdido durante a sua execução. Há também repetições gritantes e incômodas, como a cada interação entre os dois caracterizarem Julian – o vilão – da mesma forma, o problema que isso ocorre mais de três vezes e em momentos que não convinham.

Embora tenha muitas falhas durante a execução, Sonho Febril é um livro bom. O melhor dele, como eu já mencionei, é a sua mitologia e o princípio da existência dos vampiros: humanos não viram vampiros, eles se reproduzem mal e porcamente. No entanto, esse é o complemento chave para a metáfora mais brilhante do texto sobre escravidão, visto que – pelo desejo de opressão – há aqueles que querem se tornar vampiros, mesmo nascendo como seres humanos.

Contudo, se você nasceu negro num tempo escravocrata, você não tem como virar branco. Por que, de forma equivalente, um humano acha que pode virar vampiro só por ser perseguido?    

 

REFERÊNCIAS

MARTIN, George. R. R. Sonho Febril. Tradução de Luis Reyes Gil. São Paulo: LeYa, 2015.