RESENHA #81: AMOR DE MURPHY

 

AUTORA: Leisa Rayven

SINOPSE: Romântico e atual, o aguardado segundo livro da série de Mr. Romance (Masters of Love) traz o humor e os personagens envolventes característicos de Leisa Rayven. Asha Tate é uma ambiciosa assistente editorial. Romântica ao extremo, ela sonha com um amor que a leve às alturas. O homem ideal deve preencher todos os requisitos de sua longa lista – e talvez seja por isso que ela ainda não o tenha encontrado. Mas o romance fica em segundo plano quando o assunto é carreira, e tudo indica que ela está prestes a ser promovida. No entanto, para conseguir o cargo dos seus sonhos, ela deve achar um best-seller que balance o mercado editorial. Ela só não imagina que será balançada com ele. Em busca do próximo sucesso de vendas da editora Whiplash, Asha acaba entrando em contato com o Instagram do misterioso Professor Feelgood, que tem milhões de seguidores e um grande potencial de vendas. Mais do que apenas fotos sensuais de seu incrível corpo, o Professor posta poemas angustiados que atingem em cheio a sua alma. Mas o homem por trás da página acaba sendo bem diferente do que ela imaginava. Claro, seu corpo é lindo e seu rosto é de morrer, mas ele é intenso, arrogante e parece ter raiva do mundo todo – principalmente dela. Logo, o projeto dos sonhos de Asha parece ter tudo para se tornar um grande pesadelo. Para piorar, a atração que parece queimar entre ela e o Professor não ajuda em nada a manter sua cabeça no lugar. Dividida entre traumas do passado, sua carreira ascendente e sentimentos conflitantes, Asha terá que descobrir como publicar um sucesso editorial, resolver suas questões pessoais e, acima de tudo, lidar com o complexo Professor.

Se você ama alguém ou não é irrelevante. A diferença entre paraíso e inferno é se ela te ama de volta.

 

Quando a aspirante a editora, Asha Tate, resolveu firmar contrato com o poeta mais sexy, misterioso e sofrido do Instagram, ela não imaginava que ele poderia se tornar o seu inferno pessoal. Quer dizer, ele parecia perfeito e, depois que aceitou sua proposta para ser um escritor publicado, as coisas aparentavam estar realmente dando certo. Afinal, caso ele demonstrasse potencial para se tornar um escritor best-seller, Asha finalmente seria promovida a editora, como sempre sonhou. Mas a lei de Murphy nunca falha e tudo que poderia dar errado dá ainda pior.

Agora, Asha precisa achar um modo de não pôr tudo a perder, principalmente depois que o homem que mais odeia e o poeta pelo qual se sente extremamente atraída provam ser a mesma pessoa. Buscando conciliar trabalho e vida pessoal, ela descobrirá que, na vida, é preciso perdoar o passado se quiser realmente viver o presente.

Professor Feelgood é o sexto livro de Leisa Rayven que chega ao Brasil pela editora Globo Alt, sendo o segundo de sua nova saga, Masters Of Love; e, antes de qualquer coisa, o que eu gostaria de destacar é: caramba, como a escrita da autora evoluiu. Não só a leitura flui como se trezentas páginas fossem menos de dez, mas as cenas dramáticas ou as de humor provocam reações sinceras, risadas e apertos no coração que são realmente sentidos. Fiquei espantada com a intensidade da conexão que rapidamente criei com as personagens, mais rápido do que em qualquer obra anterior da escritora.

No entanto, a escrita foi apenas um dos aspectos que fez eu me conectar tão profundamente com a história. O fato de trabalhar um dos meus clichês favoritos, o do amor que nasce do ódio, também contou muitos pontos, principalmente se levarmos em conta que Leisa o desenvolveu de verdade, sem deixá-lo na superficialidade do sentimento de raiva gratuito. Há outro clichê que veio de brinde com esse e, embora eu não possa revelá-lo sem dizer demais, sua presença faz toda a diferença para a relação de Asha e o seu Professor.

Aliás, trazer um poeta como co-protagonista e exibir mais de um de seus poemas ao longo da narrativa foram golpes baixos da autora. Não há como não sentir as palavras. Ainda que não nos toquem com a intensidade com que atingem as pessoas – e principalmente as mulheres – na ficção, os poemas têm verdadeiro apelo. Há uma sensação de “eu já senti isso”, de “posso entender a sua dor”, e um quê de surpresa ao fim de cada poesia.

O desenvolvimento do drama que existe entre os dois personagens principais foi outro aspecto que me fez adorar o livro. Desde pequena, sou apaixonada pelos romances que valem o esforço, por amores pelos quais vale a pena batalhar. E, em Professor Feelgood, há isso de sobra. Entretanto, em nenhum momento a espera pela resolução do conflito torna-se cansativa, pois é sempre contrabalanceada pelo sarcasmo marcante dos protagonistas e pelos pequenos avanços que vão em direção às pazes, como um bebê que aprende a andar.

Uma das marcas registradas de Leisa Rayven, que foi se acentuando conforme novos livros foram sendo escritos e que podemos identificar em Professor Feelgood, é a sua capacidade de criar personagens secundários pelos quais é muito fácil se apaixonar. Já ouvi reclamações a respeito de como muitos deles acabam soando caricatos por causa de suas características exageradas e espalhafatosas, mas, em alguns casos, é esse exagero que os torna incríveis – e que torna a somatória da obra tão leve apesar de todos os percalços. É claro que algumas situações são absurdas e dificilmente seriam protagonizadas por alguém da vida real – de fato, esse é um ponto que pode ser apontado como negativo na obra de Rayven, mas que é facilmente desculpável se levarmos em consideração ao todo da história. Contudo, perdoável ou não, deve ser mencionado.

Entretanto, não é só humor que eles trazem para trama. Muitas das mais valiosas reflexões que existem na obra, sobre liberdade sexual e sexualidade feminina brotam de conversas envolvendo Eden e Joana, duas personagens que, para todos os efeitos, são secundárias. Além disso, Devin representa o estereótipo do homem que não tem o menor escrúpulo, senso de ridículo e moral; e, embora a primeira vista pareça inserido na obra apenas para causar asco, ele acaba por expor, através de suas ações nada louváveis, um problema grave enfrentado pelas mulheres em ambiente de trabalho: o assédio sexual.

Agora tornando à protagonista, mas ainda falando de reflexões importantes que a obra suscita, a própria Asha é uma representação dos traumas que podem se originar quando as mulheres são silenciadas em relação ao seu próprio prazer. Não é nenhum segredo que muitas mulheres abrem mão de seu prazer sexual para que seu parceiro o sinta; ou que muitas são culpabilizadas por sua própria insatisfação na cama. Asha passou por ambas as coisas e, vendo-a, é possível ter uma ideia de como isso é danoso para a autoestima, a autoconfiança e o amor-próprio, criando travas difíceis de serem desfeitas.

Por fim, um último ponto que me fez amar a obra: a quantidade de reflexões a respeito do fazer literário que há durante a história. Como foi dito no início, ao longo do enredo, Asha e o professor trabalham na escrita de um livro de autoria dele. Nesse processo de criar, muitas observações a respeito do que é escrever, ler e do que representa essa arte surgem. Inclusive, é precioso observá-las.

Devorei Professor Feelgood em uma madrugada e, depois de acabá-lo, arrependi-me amargamente por tê-lo lido tão rápido. O livro traz o tipo de história que conforta e, ao mesmo tempo, faz pensar. Meu lado romântico e meu lado crítico ficaram ambos satisfeitos, sendo que é raro um único romance conseguir provocar isso. Afora uma única ponta solta no final, não tenho mais o que apontar como negativo. Levando tudo isso em conta, só me resta lidar com a saudade que Asha e o Professor vão me deixar e, claro, aguardar ansiosa que o terceiro livro da série chegue às livrarias.   

 

REFERÊNCIA

RAYVEN, Leisa. Professor Feelgood. Rio de Janeiro: Globo Alt, 2018.