RESENHA #80: BELEZA E MONSTRUOSIDADE

 

AUTORA: Gabrielle-Suzanne Barbot (Madame Villeneuve)

SINOPSE: A versão original do clássico que inspirou o famoso filme da Disney “A Bela e a Fera” teve a sua origem no ano de 1740, escrito por Madame de Villeneuve. A história fala sobre uma jovem que, levada a um castelo, conhece uma fera que, na verdade, é um príncipe. Ela também terá segredos a serem revelados.

A narrativa elaborada por Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve é considerada por todos – e assim conhecida – como o conto original de A Bela e a Fera (1740). Ao contrário das demais histórias que se baseiam nesse enredo, parece-me que essa é a versão mais completa e complexa já criada, visto que a maioria das outras narrativas se baseiam na versão resumida feita por Beaumont (1756).

Os detalhes trabalhados nessa trama, que jazem esquecidos pelas demais, são muito elaborados e surpreendentes, sendo um enredo tão bem encaixado que, ao esquecer um detalhe na adaptação, é possível que a narrativa perca o sentido. Talvez também seja por conta disso que a versão de Beaumont seja a mais revisitada, na hora de criar adaptações do conto, do que a de Villeneuve.

O princípio da trama conta a respeito de uma família rica que perde todas as posses e precisa viver no campo, pois não podem mais suportar a cidade, seja pela falta de luxo ou por toda a exclusão social de alguém que deixou de fazer parte da elite. Nesse momento, a obra explora o interesse humano e como as relações podem ser frágeis quando o incentivo se perde, no caso, o monetário.

A história adaptada por Beaumont segue a mesma linha, comentando sobre as invejas das irmãs e a existência de todos esses irmãos que existem dentro da narrativa de Villeneuve. Até esse ponto, todos estão aconchegados e conhecedores o suficiente para saber como se desenvolve.

Entretanto, o resto da narrativa possui aspectos muito distintos do que conhecemos da narrativa, e que são muito importantes para o desenvolvimento da história. Além disso, também são detalhes extremamente simbólicos, como os sonhos.

Bela, assim chamada por sua aparência e por sua bondade, ao se hospedar na casa da Fera em troca da vida de seu pai, que parou lá – ao contrário do desenho animado da Disney (1991) – por roubar uma rosa para presentear a filha, possui diversos sonhos. A cada noite, naquele mesmo castelo em que está aprisionada, ela sonha com um belo homem.

A personagem e protagonista vive uma vida dupla. Obrigada a ver a Fera todas as noites após o jantar e ouvir a criatura perguntá-la se quer deitar ao seu lado, espera ansiosamente para encontrar o homem de seus sonhos, pelo qual se apaixona perdidamente. Ao contrário do que é de conhecimento comum por conta do texto de Beaumont, Bela se apaixona por alguém antes do desenrolar romântico ocorrer com a Fera.

Essa ambiguidade amorosa dentro da narrativa traz à personagem dúvidas e rancores a todo momento. Odiando a Fera, reconhece a sua bondade. Vê nela a falta de inteligência, mas também percebe o seu gentil caráter. Aos poucos, a personagem fica cada vez mais incomodada com a situação em que está, justamente, porque não sabe se escolhe entre a beleza de seu amado e a gentileza do monstro que a acolhe.

Aos poucos, tudo se transforma em tédio, visto que não partilha nada com ninguém, nem mesmo com a Fera que pouco convive com a personagem. A partir desse momento, Bela é reenviada para casa, acontecimento comum a todos os leitores de A Bela e a Fera – e todas as adaptações que a sucederam.

O resto do desenrolar da história também difere muito e tudo que deve ser ressaltado nessa narrativa está no seu final. Ela é absolutamente diferente e muito bem mais explicada e esquematizada, entrando em um consenso com a ideia de contos de fadas muito mais do que as outras narrativas.

Enquanto existem menções esporádicas sobre as fadas em todas as adaptações, dentro dessa, conhecemos como funciona o reino dessas criaturas e como são agraciadas ou castigadas.

As explicações são muito complexas e plausíveis, contudo, somente se iniciam após fortes críticas sociais a respeito do que é ser nobre. É necessário ser nobre para conquistar o coração de um príncipe? O que difere uma menina comum de uma menina nobre? O que é esse sangue azul de que tantos falam?

A personagem da fada, central na trama e que explicará ao leitor cada reviravolta, questionará ideias sociais da época muito interessantes. Eu ousaria dizer que, a partir da Fada, é que Villeneuve possui sua voz.

Inspirada por autores como Charles Perrault e Madame Marie-Catherine d’Aulnoy, Villeneuve cria uma narrativa muito interessante que trabalha personagens opostos em todos os sentidos. Enquanto ela é bela, ele feio; a esperteza dela; a burrice dele; elegância e simpatia, vulgaridade e rudeza. 

Essa dualidade persegue toda a narrativa, quando traz a realidade contra o sonho, a arte contra o tédio, a beleza contra a feiura, a nobreza contra a plebe. Trazendo, dessa forma, questionamentos inerentes em relação à sociedade vigente e o sentido dos preconceitos sociais e hierárquicos.

A Bela e a Fera é uma história que narra sobre a dualidade dentro e fora de nós, tanto quanto dentro e fora dos personagens. A Fera e a Bela são ambíguos como seres viventes, como personas sociais e muito mais. Nós não somos o que aparentamos, nós somos duas pessoas – aquela que as pessoas veem e aquela como nós nos sentimos. Essa história é também sobre isso.

 

REFERÊNCIAS

BEAUMONT, Madame de; VILLENEUVE, Madame de. A Bela e a Fera. Tradução de André Telles; apresentação de Rodrigo Lacerda; ilustração de Walter Crane e outros. 1ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.