RESENHA #77: REVESTIDAS DE AMARELO

 

AUTORA: Charlotte Perkins Gilman

SINOPSE: Uma mulher fragilizada emocionalmente é internada, pelo próprio marido, em uma espécie de retiro terapêutico em um quarto revestido por um obscuro e assustador papel de parede amarelo. Por anos, desde a sua publicação, o livro foi considerado um assustador conto de terror, com diversas adaptações para o cinema, a última em 2012. No entanto, devido a trajetória da autora e a novas releitura, é hoje considerado um relato pungente sobre o processo de enlouquecimento de uma mulher devido à maneira infantilizada e machista com que era tratada pela família e pela sociedade. 

 

A primeira ideia que vem a mente das pessoas quando pensam na cor amarela é a depressão ou a loucura, visto que temos, no Brasil – influenciado pelos Estados Unidos –, uma campanha de prevenção ao suicídio chamada Setembro Amarelo. Para outros, fãs do decadentismo, a acepção do amarelo como cor da loucura se pressupõe a partir de narrativas como O Retrato de Dorian Gray (1890) e, em seu ápice de conivência com essa ideia, O Rei de Amarelo (1895).

Entretanto, o fato do papel de parede ser amarelo não me parece relacionado diretamente à loucura, pois, se formos pensar na simbologia dessa cor, Chevalier e Gheerbrant, autores do Dicionário de Símbolos, fazem associações um tanto diversas das pressuposições dos leitores do decadentismo, período histórico exato da publicação do texto de Gilman, já que foi lançado em janeiro de 1892.

De acordo com o dicionário, o amarelo é a cor divina e a cor humana, isto se deve ao fato de que ela representa dois polos distintos (positivo e negativo; divino e humano). O amarelo na mesma medida em que representa a eternidade, juventude, energia, vida, calor e sabedoria, também é capaz de ser símbolo da traição, velhice, declínio, adultério, enganação, inveja e covardia – sem serem simbologias excludentes por si mesmas.

Mas por que passou a representar a loucura, se, de acordo com os autores, na cultura chinesa até a mexicana, a formulação ideológica era outra? Essa foi uma das questões que me coloquei graças a leitura de O papel de parede amarelo e que, para mim, tem um sentido tão profundo que não podemos negar o principal de tudo: a transição.

A maior dificuldade do homem, até hoje, é aceitar a decadência – ao lado da morte – e, se o amarelo é capaz de representar tanto a vida quanto a morte, o ouro e a juventude, ao mesmo tempo, o declínio e a velhice, na minha concepção, quer dizer que a cor se relaciona muito mais ao nosso senso humano de perda do que de fato à loucura. Dessa forma, isso quer dizer que a loucura – a representação dentro da cor – se deve justamente à não-aceitação dessa transição de perda (declínio) de algo que tínhamos outrora ou algo que sabemos que deveríamos ter e não conseguimos aceitar não obter.

Para a protagonista desse conto, ela perde a liberdade, a independência e é tratada como uma criança, tal qual o papel de parede amarelo que reveste as paredes de seu quarto.

Além do ponto negativo explícito dentro da narrativa a respeito do amarelo, graças a ideia do que é um papel de parede, tendemos a perceber que os pontos positivos também são de extrema importância, visto que o papel de parede é a casca que reveste e é a aparência desejada da juventude, da energia e da vida. O papel de parede amarelo é um contraponto, ao mesmo tempo, positivo e negativo da protagonista, que está perdida entre a sua histeria – como são diagnosticadas exclusivamente as mulheres naquele tempo e pode ser visto a partir das lascas e tentativas de arrancar o papel de parede – e a sua sanidade, o que está firme e forte na parede.  

O conto todo é um processo, inclusive, extremamente interessante de se observar, já que múltiplas ideias podem ser retiradas desse conto psicológico e terrível, trabalhando a figura feminina como centro de isolamento e também de opressão num contexto familiar, o que torna tudo mais doloroso.

Como é um texto do século XIX, podemos perceber as diretrizes socioculturais daquele período através das páginas escritas por Gilman e de que maneira funcionava o tratamento para mulheres. Por exemplo, por mais que o marido seja amável e respeitoso, a forma de tratá-la é nociva, já que ele minimiza os seus sentimentos ao invés de tentar buscar ajuda para as sensações e emoções apresentados pela protagonista, entretanto, dentro do contexto histórico, o homem representa o centro de poder e, por ser médico, a ciência e a racionalidade estão aliadas à sua opinião. O que prejudica ainda mais a posição feminina que, mesmo sabendo sobre os seus problemas, suas perdas e as tentativas de pedir ajuda, é ineficaz diante da posição superior ocupada pelo marido e outros familiares, tipo o irmão.

Esse é um conto de tanto aprofundamento psicológico e simbologias que é difícil tomar somente um posicionamento diante dele, interpretá-lo de somente uma forma. A leitura dele é curta, rápida e impactante, inclusive, a produção de Gilman é considerada biográfica já que a própria autora passou por algo semelhante ao escrito. Além de tudo, a formulação narrativa da obra a partir da ideia de diário também me leva a crer na leitura de transição e perda ao ponto de levá-la à loucura e, nesse declínio revestido de pontos positivos para negativos, perder a si mesma, desenvolvendo assim uma psicose.

Há leituras muito interessantes a respeito, por exemplo, da representação do papel de parede ser infantil como também uma depressão pós-parto da protagonista, algo que eu particularmente não vi, mas uma interpretação plausível e elaborada por alguns especialistas em Gilman.  

Particularmente, o que mais me surpreendeu durante a leitura desse conto é a metaforização da casa em relação à personagem. A casa é revestida por um papel de parede amarelo, ou, mais precisamente, o quarto (ambiente no qual se repousa, dorme e se fica mais vulnerável), sendo assim, nós podemos dizer que as mulheres, naquele período, talvez ainda agora, sejam ambíguas. Nós somos revestidas pelo que acreditam representar nossas ideias e nossa liberdade, mas isso não é necessariamente verdade.

Isso pode realmente nos levar a loucura.

 

REFERÊNCIAS

CHAMBERS, Robert. W. O Rei de Amarelo. Tradução de Edmundo Barreiros; revisão comentada de Carlos Orsi. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2014.

CHEVALIER, Jean. GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio, 2017.

GILMAN, Charlotte Perkins. O papel de parede amarelo. Tradução de Diogo Henriques. 2ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2016.