RESENHA #76: SENDO SEMPRE AYA

 

AUTORA: Aya Kito

SINOPSE: Aya era apenas uma menina quando os primeiro sintomas da doença começaram a aparecer. Em sua inocência Aya às vezes retratava a doença como um vilão que ela devia vencer e resistir, em outras se questionava sobre os motivos de ter sido “escolhida”.Mas, mais que um retrato das ideais de Aya, 1 Litro de Lágrimas mostra todas as dores de um portador de necessidades especiais, além da cultura japonesa em seus aspectos mais básicos, o instinto de sobrevivência e o desejo de viver da menina.Uma comovente história de alguém que lutou até o final por cada minuto. Uma verdadeira lição de vida.

Aya Kito entrou em minha vida quando eu tinha pouco mais de dezesseis anos. Na época, eu estava à procura de um dorama e, ao me deparar com o nome 1 Litro de Lágrimas, fiquei curiosa. Quando dei play no primeiro episódio, eu não fazia ideia do quanto a história da garota de quinze anos que sofria de degeneração espinocerebelar mudaria a minha vida.

Apesar de ter tomado conhecimento a respeito da existência do livro já em 2012, quando assisti a sua adaptação homônima, só consegui comprá-lo duas semanas atrás. Não por falta de vontade, mas porque nunca estava disponível para a venda no Brasil – um tremendo erro, na minha opinião, pois o mundo deveria conhecer a história da pequena Ayazinha. Apesar dos contratempos, acredito que o diário chegou a mim na época certa. Não sei se sete anos atrás eu poderia abraçar esse relato de vida, luta e superação como consegui agora, aos vinte e dois anos, em 2019. Porque 1 Litro de Lágrimas é uma aula de empatia, e nem sempre estamos prontos para algo assim.

A degeneração espinocerebelar é uma doença hereditária que afeta as células nervosas do tronco cerebral, cerebelo e medula espinhal. Gradativamente, essas células vão sendo destruídas, provocando ataxia, ou seja, fazendo com que o paciente afetado perca o controle dos movimentos voluntários de seu próprio corpo. Assim, ações corriqueiras, como andar, engolir e falar, vão se tornando cada vez mais difíceis, até que se tornem realmente impossíveis, privando o doente de qualquer autonomia. No estágio mais avançado da doença, qualquer mínima coisa, como um engasgo, torna-se um problema gigante, pois o paciente pode morrer sufocado.  

Essa é, de longe, uma das doenças mais cruéis de que já ouvi falar. Além de não possuir cura, destrói aos poucos o corpo, conservando a mente intacta. Isso significa que, até o fim, o paciente permanece consciente de que não só está perdendo o controle de todos os movimentos do seu corpo, como não há nada que ninguém possa fazer a respeito.

Se isso ainda soa terrível atualmente, numa realidade em que essa patologia já é estudada com mais afinco, imagine em 1976, ano em que Aya foi diagnosticada, período em que a neurologia ainda dava os seus primeiros passos nas pesquisas relativas à doença e a possíveis tratamentos.

A verdade é que não há nada mais devastador do que receber uma sentença de morte quando se está começando a viver a vida, ainda mais com a paixão com que Aya a vivia. Por isso, a leitura de 1 Litro de Lágrimas é dolorosa. No entanto, é o tipo de dor necessária; porque, embora a dona do relato esteja doente, essa não é uma história apenas sobre a doença. É uma ode à esperança, ao amor e à gentileza que existe no coração humano. Não é sobre o fim, que, a certa altura, já estávamos conscientes de que seria a morte; mas sobre como, no curto período que lhe restou, Aya Kito conseguiu deixar sua marca no mundo, de forma que, ainda hoje, trinta e um anos depois de sua morte, seu diário e sua vida continuam a tocar as pessoas.

Acima de tudo, 1 Litro de Lágrimas é um livro sobre mulheres fortes. Durante os relatos de Aya, percebemos a importância que a figura de sua mãe teve durante a sua luta contra a doença. Juntas, Aya e Shioka Kito lutaram uma batalha impossível contra a morte. Toda vez que a viam chegando, esforçavam-se o dobro para afastá-la. Quando Aya já não andava mais e precisava se arrastar pelo chão, Shioka arrastava-se junto com ela. Se a filha precisou derramar um litro de lágrimas, como sugere o nome do livro, juntas elas somaram dois.

A médica responsável por seu caso, Hiroko Yamamoto, também foi peça chave para que a garota não desistisse de viver. Porque Hiroko a inspirava. Dava-lhe a confiança que ela já tinha perdido para que a jovem encontrasse outros modos de ter esperança. Sem nunca mentir a respeito do destino de Aya, Yamamoto conseguiu motivá-la a nunca desistir.

A verdade é que a luta de Ayazinha, como a médica gostava de chamá-la, nunca foi solitária. Sempre havia anjos em seu caminho, como sua cuidadora (outra mulher essencial em sua longa batalha), sua professora, suas irmãs, suas amigas, sua tia e mesmo seu pai e irmãos, que, apesar de bem mais ausentes, ainda lhe prestaram apoio e buscaram mantê-la incluída na família, para que ela se sentisse amada. Sempre Aya, jamais um estorvo.

A edição lançada pela editora New Pop não é composta apenas pelo diário de Aya, que, apesar de ter morrido com vinte e cinco anos, conseguiu relatar de próprio punho apenas até os vinte, quando suas mãos ainda a obedeciam. O capítulo final, relativo aos vinte e um anos, é assinado por Shioko, também responsável pelo segundo epílogo e pelo posfácio. Já Hiroko Yamamoto, a médica, assina o primeiro dos epílogos, no qual dá mais detalhes a respeito do caso de Aya, de sua relação com a menina, além de relatar os avanços nas pesquisas relativas à doença que a afetava.

1 Litro de Lágrimas não é um relato utópico. É cru. Mostra o sofrimento de Aya em sua forma mais cabal. Haverá momentos em que lê-lo será como espetar-se em pequenas farpas. No entanto, traz um desejo tão pungente pela vida que não há como fechar suas páginas sem sentir-se tocado. Porque, mesmo que trinta e um anos tenham se passado, é como se estivesse acontecendo agora. A dor é palpável.

Aya Kito poderia estar ao lado de qualquer um de nós. Poderia ser um de nós. Colocar-se no lugar do outro da forma como seu diário nos instiga a fazer é o exercício mais profundo de empatia que um ser humano pode fazer. A empatia é o que nos torna humanos, e é uma das coisas que mais nos ensina a literatura.

1 Litro de Lágrimas é um relato à humanidade – em todos os sentidos que essa expressão pode trazer.

 

REFERÊNCIA

KITO, Aya. 1 Litro de Lágrimas – Diário da Garota Aya. São Paulo: NewPOP Editora, 2013.