RESENHA #75: TOCANDO A MULHER QUE SE TOCA

 

AUTORA: Rupi Kaur

SINOPSE: ‘outros jeitos de usar a boca’ é um livro de poemas sobre a sobrevivência. Sobre a experiência de violência, o abuso, o amor, a perda e a feminilidade. O volume é dividido em quatro partes, e cada uma delas serve a um propósito diferente. Lida com um tipo diferente de dor. Cura uma mágoa diferente. Outros jeitos de usar a boca transporta o leitor por uma jornada pelos momentos mais amargos da vida e encontra uma maneira de tirar delicadeza deles.

Disse que nesta terra a coisa mais próxima de deus
É o corpo de uma mulher é de onde a vida vem
E ouvir um homem adulto dizer algo
Tão poderoso com tão pouca idade
Fez com que eu visse o universo inteiro
Repousando aos pés da minha mãe

 

O que é ser mulher? O que é sentir como mulher? São questões que podem parecer diminutas, mas, gradualmente, dentro da poesia de Kaur, são gigantescas e vão nos consumindo ao ponto de percebermos como são perguntas que devemos fazer a nós mesmas.

Ser mulher dentro de um continente que nos vê como menos do que somos é ruim, mas ser mulher dentro de um continente que prevê você como uma figura exótica é pior ainda. Dentro da poesia de Kaur, há um reflexo constante sobre a presença da figura feminina, a presença da mulher indiana e a presença constante de uma sociedade que julga e aprisiona essa figura.

O que há de mais explícito em Rupi Kaur é o quanto essa persona feminina é consumida o tempo todo pela sociedade, pelo seu modo de se vestir, seu modo de agir, seu modo de pensar, seu modo de amar.

O tempo todo a mulher é julgada pelo que ela é e pelo o que a sociedade espera dela, mesmo dentro das relações em que deveriam existir mais amor e mais compreensão – o que geralmente não ocorre e, muito pelo contrário, vemos um desejo insano pelo cumprimento de valores sociais que não necessariamente nos pertence.

Rupi Kaur critica o mundo. Rupi Kaur critica por nós o mundo. Essa é uma das chaves para compreender a sua poesia, como também há outras que abrem cada vez mais portas. Uma das chaves é a figura feminina; a outra chave é sobre a estrangeira; tem mais uma que fala sobre sexo; mais outra que fala sobre relações amorosas; ainda mais a respeito das relações familiares.

No fundo, o que ela critica e o que é intrínseco: é como agimos, como nos obrigam a agir e como nos mutilamos por causa disso. A ideia de consumar sua poesia em letras minúsculas, a todo tempo, só dividida por pontos, também concorda com sua ideia de que cada palavra-pessoa deve ser igual, ser tratada sem uma legitimação ou pedestal. O mesmo se vale para pessoas de culturas diferentes, Kaur se apropria de sua língua materna para fazer poesia em inglês, visto que ambas as línguas – ainda que o inglês seja mais valorizado – são iguais. As letras minúsculas de sua poesia, provindas de sua origem, são como as pessoas, como as próprias regras e a própria forma de expressão linguística.

Sua poesia também é dividida em quatro partes, as quais estão presentes na vida de toda mulher e, principalmente, nas de mulheres imigrantes como Rupi Kaur. Primeiro, sentimos a dor, a não-aceitação, o mundo que tenta nos moldar de forma diferente do que queremos ser, um mundo que nos impõe regras e não aceita que elas sejam diferentes, é nesse exato momento que percebemos o quanto o mundo não é gentil.

A segunda etapa de sua história – da nossa história – é o amor. Encontramos o amor, a paixão avassaladora. Nós somos levadas pela fúria dos sentidos e pelo orgasmo das sensações, sempre puxadas para um turbilhão de emoções que nos faz sentir mais do que jamais sentimos outrora. Nesse espaço, ainda não notamos que continuamos em um ciclo social, presas em uma armadilha elaborada para todas nós. Por conta da intensiva propaganda sobre as maravilhas do amor, deixamos que ele nos cegue, que a paixão nos faça delirar enquanto aceitamos o que achamos que merecemos e não necessariamente o que deveríamos receber.

O terceiro ponto é de conhecimento universal: a ruptura. Nós rompemos com o amor como também rompemos com o mundo, nossos ideais se miscigenam entre o que é certo para nós e o que é certo para os outros. Muito do que existe como verdade cai por terra, da mesma forma que nossos sentimentos, despedaçados, tentam entender o ontem, o agora e o que nos espera para amanhã. É o tempo que a dor consome mais que a própria dor, é o momento que rompemos com nossas raízes, em busca, por fim, do último tópico da poesia de outros jeitos de usar a boca.

A cura pode chegar a qualquer uma de nós, chega a todas nós. Mas, antes de ser um reencontro com o mundo, é um encontro com o eu. É um encontro com o que há de divino dentro de nós, sem precisarmos – como na epígrafe – que alguém externo nos afirme isso. Não precisamos que um homem, centro de poder da sociedade, diga-nos sobre a nossa capacidade de dar à luz, nossa capacidade de encontrar com a natureza, o que precisamos é que nós nos encontremos por nós mesmas e nada mais. Após a ruptura vem a cura porque rompemos com a tradição quando nos encontramos necessitadas de algo a mais, algo que nos mostre o mundo como mais gentil, mais acolhedor, mais receptivo.

Rupi Kaur, em sua poesia, traz, sem pudores e sem ressalvas, o que precisamos debater. Sua obra poética, muitas das vezes, é suculenta e prazerosa, fazendo com que degustemos seu livro mais rápido do que poderíamos imaginar, sem deixar, em momento algum, de refletir sobre o que é lido, sobre o que é sentido e sobre o que é – literalmente – visto a partir das imagens.

Alguns poemas são extremamente visuais, mostram partes do corpo humano, o corpo por inteiro, o toque sedento, a nossa prisão em formato de árvore. Também mostram o toque do outro, a presença do outro e imagens que se complementam com pequenas frases poéticas.  

Entretanto, devo ressaltar que existem alguns poemas que mais parecem afirmações sobre o cotidiano do que de fato poemas, embora alguns tenham até um teor poético, são constatações a respeito do mundo e não necessariamente poesia. Alguns dos poemas apresentados parecem exigir mais esforço filosófico do que esforço textual e prosódico.

Mesmo assim, o livro como um todo é brilhante, sem deixar de ser importante. Ele é uma mistura de sensações e de verdades que recusamos porque negaram para nós a oportunidade de poder enxergá-las, contudo, graças a sua leitura, podemos fazer mais e ser mais. Rupi Kaur, com outros jeitos de usar a boca (em inglês, Milk and Honey), ensina-nos a florescer mesmo na adversidade.  

 

então floresça de um jeito lindo perigoso
escandaloso floresça suave
do jeito que você preferir
apenas floresça.

 

REFERÊNCIAS 

KAUR, Rupi. Outros jeitos de usar a boca. Tradução de Ana Guadalupe. São Paulo: Planeta, 2017.