RESENHA #74: TAL COMO UM DETETIVE

 

AUTOR: Matheus Zucato
SINOPSE: Dois velhos e viúvos fazendeiros, habitantes da pacata cidadezinha mineira de Caminho da Fé decidem encerrar de uma vez por todas uma disputa que estava adormecida há décadas: declarar o dono daquelas terras ao lado sul de suas fazendas.Os filhos, desaparecidos ainda crianças naquele lugar, acreditavam que lá existia alguma coisa má. O livro mostra os relatos que ambos os homens escreviam naqueles dias, os quais estão recheados de batalhas psicológicas, terror, suspense e planos de assassina r um ao outro. Com um final intrigante e surpreendente, o livro não desaponta quem busca uma literatura diferenciada que prenda o leitor às suas páginas, buscando incessantemente pelo desfecho.

Nós, os maduros, temos a mania de desacreditar de todos os fatos que nos são contados, para que não alteremos o comodismo mental que nos acoberta. E o comodismo mental é ventriloquista de nossas atividades terrenas. Sem a mente em estado de sobriedade, não há porte físico que levante um homem da cama.

MATHEUS ZUCATO

 

Quando eu era pequena, adorava ouvir histórias. Os contos de fadas eram meus favoritos, mas eu não dispensava uma boa história de terror. Naquela época, isso me tirava o sono e me rendia os mais bizarros pesadelos, o que, é claro, não me impedia de, na noite seguinte, pedir a minha mãe que me contasse outras. Os anos passaram, mas minha paixão pelo sobrenatural, o desconhecido, o absurdo e o medonho permaneceu. Por isso, quando a sinopse de Os dois fazendeiros caiu em minhas mãos, minhas expectativas não poderiam estar mais altas.

Zucato não decepcionou.

A premissa é simples: Enrico e Brasta, dois fazendeiros cultos e anciãos, disputam a posse de uma terra ao sul de suas fazendas. No entanto, o que essa terra esconde é, para além de um mistério, uma maldição.

Crescendo em torno de sentimentos vis de ganância e orgulho, o mato que cobria aquele terreno escondia mais do que o solo e as criaturas venenosas: abrigava, também, o mal. Por causa daquele espaço hostil, não só seus filhos desapareceram, como, em decorrência desse desaparecimento, suas esposas se suicidaram. Se não fosse uma maldição, de que outro modo poder-se-ia justificar os acontecimentos horríveis que se sucederam nesse lugar e, depois, por causa dele?

Vítimas de tamanha desgraça, Enrico e Brasta juram não mais disputar aquele pedaço de terra, o qual lhes tirou tudo o que tinham. No entanto, a promessa era apenas superficial e o orgulho, sentimento tão maldito quanto o lugar, impede-os de abandonar o assunto de vez. Quando nenhuma outra alternativa para dar fim ao conflito parece viável, matar um ao outro é a única saída que encontram. É nesse ponto que a narrativa tem início.

Embora seja antes uma novela que um romance, Os dois fazendeiros é um livro grande. Digo isso não por sua extensão, uma vez que conta apenas com 53 páginas, mas pela quantidade de coisas que suscita apesar de suas poucas palavras. Uma obra é composta também por não-ditos, pelo que se encontra nos silêncios entre os parágrafos, e a que Zucato construiu é cheia deles.

Na verdade, a quantidade e a qualidade das reflexões que suscita foi o aspecto de que mais gostei no livro. Precisei ler tudo duas vezes antes de iniciar essa resenha e, mesmo agora, ainda sinto ter muito no que pensar. Às vezes, antes de dormir, ainda me flagro criando teorias a respeito de tudo que se passou na narrativa. Isso se deve (não só, mas também) ao fato de que há, além de uma grande quantidade de referências a clássicos da literatura, das quais Senhor das Moscas e A Revolução dos Bichos são apenas dois exemplos, uma simbologia por trás a respeito da vida, da morte, do medo e da dor, cujas possibilidades de interpretação continuam a me alcançar mesmo agora, dias depois de ter finalizado a leitura.

Acredito que, para mergulhar o mais fundo possível na obra de Zucato, é preciso entender e aceitar o fato de que, para essa história, racionalizar demais a leitura pode ser um problema. Há, na obra, um sentimento de incompreensão e assombro que acompanham os acontecimentos insólitos da trama e que a tornam, ao mesmo tempo, incômoda e, paradoxalmente, prazerosa; justamente porque provoca um dos medos mais íntimos do ser humano: o de não saber o que temer, mas temer assim mesmo. Esse sentimento advém do fato de que os eventos, justamente por sua natureza insólita, não encontrarão uma explicação imeditada; e, racionalmente, talvez sequer encontrem uma explicação possível.

Além disso, a estruturação narrativa e, acima de tudo, a escolha de quem são os narradores, faz com que não tenhamos uma visão do todo, o que nos obrigada a deduzir a totalidade tendo em vista as partes que nos são dadas – e isso significa, novamente, abrir mão da necessidade de ter tudo explicado. Isso porque o livro é dividido em três partes, sendo as duas primeiras referentes ao desenrolar dos acontecimentos no passado e no presente, e a terceira, ao desfecho; no primeiro e no segundo momento da trama, os narradores são, respectivamente, Enrico e Brasta – e nenhum dos dois representa exatamente a figura de um narrador confiável. É possível entrever isso em seus relatos que, mais de uma vez, apresentam contradições.

Ter isso em mente é essencial durante a trama porque significa que veremos somente aquilo que eles desejam nos mostrar. Além disso, por ser um livro de memórias de dois homens que pretendem assassinar um ao outro, ambos tentam nos convencer de que o seu lado é o correto, transformando-nos em júri, enquanto eles tornam-se os julgados em busca de isentar-se da condenação.

Por fim, sobre a linguagem adotada, há dois pontos que gostaria de destacar. Há alguns pequenos erros de revisão que, embora não prejudiquem o andamento do enredo, incomodam um pouco. O excesso de rebuscamento, indicativo da origem e posição social de ambos os fazendeiros, por mais que enriqueça a escrita e, consequentemente, a leitura, acaba, em alguns poucos momentos, prejudicando a sua fluidez.

Contudo, nenhum desses dois aspectos invalida a leitura valiosa que Os dois fazendeiros representa. Uma premissa aparentemente simples, ambientada em uma cidadezinha pacata, acaba por tornar-se uma novela de mistério e, mesmo, um jogo de detetive. Afinal, quando o sobrenatural parece uma peça ativa do tabuleiro, quem é o verdadeiro culpado?

 

REFERÊNCIA

ZUCATO, Matheus. Os dois fazendeiros. Rio de Janeiro: Autografia, 2018.