RESENHA #73: A VOZ DAS SEM PALAVRAS

 

AUTORA: Christina Dalcher

SINOPSE: O governo decreta que as mulheres só podem falar 100 palavras por dia. A Dra. Jean McClellan está em negação. Ela não acredita que isso esteja acontecendo de verdade. Esse é só o começo… Em pouco tempo, as mulheres também são impedidas de trabalhar e os professores não ensinam mais as meninas a ler e escrever. Antes, cada pessoa falava em média 16 mil palavras por dia, mas agora as mulheres só têm 100 palavras para se fazer ouvir. …mas não é o fim. Lutando por si mesma, sua filha e todas as mulheres silenciadas, Jean vai reivindicar sua voz.

Sem luta, nossos direitos podem sumir.

Essa é, definitivamente, a premissa que permeia Vox, livro da escritora Christina Dalcher, obra tal que me faz lembrar – e muito – não só de livros célebres como O Conto da Aia, de Margaret Atwood, como também da nossa própria realidade. Isso porque as tramas e subtramas são tão palpáveis que chegam à alma e nos fazem lembrar de que a liberdade de nos expressarmos e sermos quem quisermos é um direito.

É um direito nosso, mas que é passível ao desaparecimento – como qualquer coisa que está dentro do tempo.

Vox, em latim, é a palavra de terceira declinação, no nominativo singular (ou seja, o caso expressa sujeito ou predicativo do sujeito), e se traduz, em língua portuguesa, por “voz”. Para quem não sabe, o latim é uma língua sintética, ou seja, a maioria de suas palavras muda de acordo com a função sintática na frase. Assim sendo, se a autora quisesse expressar a palavra voz como um objeto, ela teria utilizado – como título de sua obra – vocem.

No entanto, a autora preferiu utilizar a forma que representa, na língua portuguesa, a expressão na posição de sujeito ou de predicativo do sujeito, fazendo-o – ao meu ver – de maneira proposital, isso porque toda a narrativa (até a metade do livro, na verdade) enfatiza o fato de mulheres terem perdido a sua voz. Aquilo que as faz ser, aquilo que as representa melhor: isto é, elas mesmas e o que pensam.

O mais incrível desse livro é como ele demonstra, assustadoramente, a importância da linguagem e da expressão. As mulheres foram reprimidas justamente para não apresentarem os seus pontos de vistas, sendo caladas da maneira mais eficaz que se encontrou, com braceletes que, caso falassem mais do que o limite permitido – cem palavras – seria acionado para eletrocutadas em voltagens relacionadas as suas infrações linguísticas.

Pode parecer insano e fora da realidade, entretanto, durante a leitura, tudo era tão verossímil com a nossa realidade, tão atual (também pelas referências e pela ausência de opinião nas urnas), que eu realmente me senti tocada, incomodada e invadida, ao ponto de eu precisar, por mais que eu já fale muito, dizer ainda mais.

Outros pontos, durante a história, fazem referências claras e diretas à linguagem e a sua importância, entretanto, citar além disso seria spoiler. Por muitas vezes, por causa da formação da autora, iremos encontrar nessa obra, aspectos muito importantes sobre linguística e, principalmente, cognitivismo. Algo que, por ser parte da minha área de formação, fez com que eu ficasse encantada.

Também há a miscigenação exacerbada de religião e política, aspecto que – a meu ver – a história demonstra não funcionar. Entretanto, é uma ideia constante e plausível (basta olharmos a nossa volta), como ministrar os dois ao mesmo tempo só agrega conservadorismo a pessoas que, dentro de um sistema de liberdade de opiniões, não necessariamente querem se encaixar nos padrões impostos por essa mistura.

Assim, a autora traz à tona dois aspectos que entram em oposição por causa desse sistema (e pela lógica do mundo), um em detrimento do outro: liberdade e vigilância. Nós, aqui no Brasil, sentimos na pele a violência cotidiana, muito mais do que os Estados Unidos, país de origem da obra. Com isso, tendemos a compreender o quanto precisamos de certa vigilância em horários e lugares demarcados (hoje em dia, até onde não possui demarcação), no entanto, isso não quer dizer – concomitantemente – retirar a liberdade do indivíduo de ser quem quer que ele seja se isso não fere a ninguém.

Durante a obra, como também ocorre em O Conto da Aia, por exemplo, ser gay ou ter ideias políticas contrárias ao do governo podem te levar à morte. Nessa medida, o conservadorismo ultrapassa o sistema democrático e de livre escolha do indivíduo, impondo-lhe, dessa forma, uma ditadura.

Regime que algumas pessoas acham que deveria voltar.

Entretanto, por mais que a temática seja interessante e aja, página a página, palpabilidade tanto em relação a como agimos de maneira passiva quando nossos direitos estão sumindo quanto a em que o sistema está se transformando, o livro – no geral – tem muitos defeitos.

Acredito eu que o maior defeito dessa obra foi a preguiça da autora. Afirmar isso pode parecer um tanto exagerado, mas é possível notar no final que não há mais vontade de continuar o escrito. É uma trama que começa bem amarrada, com um nível de realidade suficiente para sermos levados a acreditar na possibilidade daquilo e também com um propósito de comunicar o fato de que nos falta voz.

Contudo, a partir da metade do livro mais ou menos, o enredo principal se perde. Ainda que seja uma história em que uma mulher ganha expressão a cada página que lemos e sua voz metafórica ganhe mais força, ainda assim, o enredo se perde em relacionamentos românticos, em cenas de ação de fácil resolução, entre outros aspectos.  

Não é que eu não recomende e nem que eu não tenha gostado da trama, visto que a primeira metade vale realmente a pena. Entretanto, seria um absurdo da minha parte dizer que o livro ultrapassa o limite do bom, pois não vai além justamente pelo final raso, resolução fraca e sentimentos vagos de personagens que pouco nos cativam.

A escrita é fluida, mas nada além disso. Há alguns erros durante a leitura que não passam despercebidos, porém, são muito mais plausíveis do que as inconsistências finais do enredo. É uma obra que vale a pena sim, mas da qual, por causa dos problemas narrativos, pode ser que muitas pessoas não gostem. E, entre gostar ou não, ambas são opções válidas, porque você ainda tem voz, ao contrário das sem palavras.

 

REFERÊNCIAS

ATWOOD, M. O Conto de Aia; tradução de Ana Deiró. Rio de Janeiro: Rocco, 2017.

DALCHER, Christina. Vox. Tradução de Alves Calado. São Paulo: Arqueiro, 2018.