RESENHA #72: OS SEIS ANTI-HERÓIS

 

AUTORA: Leigh Bardugo

SINOPSE: A Oeste De Ravka, Onde Grishas São Escravizados E Envolvidos Em Jogos De Contrabandistas E Mercadores…fica Ketterdam, capital de Kerch, um lugar agitado onde tudo pode ser conseguido pelo preço certo. Nas ruas e nos becos que fervilham de traições, mercadorias ilegais e assuntos escusos entre gangues, ninguém é melhor negociador que Kaz Brekker, a trapaça em pessoa e o dono do Clube do Corvo. Por isso, Kaz é contratado para liderar um assalto improvável e evitar que uma terrível desfechos são possíveis para esse roubo: uma morte dolorosa ou uma fortuna muito maior que todos os seus sonhos de riqueza. Apostando a própria vida, o dono do Clube do Corvo monta a sua equipe de elite para a missão: a espiã conhecida como Espectro; um fugitivo perito em explosivos e com um misterioso passado de privilégios; um atirador viciado em jogos de azar; uma grisha sangradora que está muito longe de casa; e um prisioneiro que quer se vingar do amor de sua vida. O destino do mundo está nas mãos de seis foras da lei – isso se eles sobreviverem uns aos outros.

Existem muitas coisas que podem fazer um livro ser bom, como, por exemplo, o que a narrativa trabalha, de que maneira ela foi construída ou as críticas e metáforas que foram inseridas na dinâmica textual para nos trazer reflexões ou gerar empatia. A trama de Six of Crows poderia ter – e até tem – uma dessas ideias como cerne de seu texto, entretanto, o que faz dessa história diferente das outras, no ramo dos young adults, são os seus personagens.

Bardugo, a escritora dessa dualogia e também da trilogia grisha – o primeiro lugar em que seu universo foi apresentado ao público (e confesso que eu não li) –, traz nesse enredo algo que me agrada muito em todas as histórias, muito embora sejam poucas as que o apresentem tão bem. Ela, literal e praticamente, cria vida ao inserir personagens complexos que possuem protagonismo sem perder charme. É muito difícil gostar dos heróis nesses universos, porque geralmente são bobos ou precisam de ajuda constante, porém, aqui, vemos personagens muito bem montados entre seus maiores traumas, suas grandes habilidades e seus sensos de justiça deturpados, os quais são desenvolvidos separada e simultaneamente, porque o tempo todo trocam informações, deixando o leitor ciente do que aconteceu e do que os transformou.

O mais interessante é que cada um deles se dispõe à aventura principal do livro por um motivo particular e, de fato, com exceção de dois, posso dizer seguramente que eles não estão tentando salvar ninguém além de si mesmos (no início, a maioria não se importava mesmo com o que poderia acontecer). Na verdade, acho que no fundo nenhum dos personagens quer salvar o mundo grisha, embora suas atitudes os levem a tentar isso quase que sem querer.  

Entretanto, como nem tudo são flores, na minha concepção, o único erro da autora quanto aos personagens principais é a idade com a qual ela os concebeu. Eles são jovens demais para diversas atitudes que tomam – uma questão mais hormonal e de confronto com o mundo do que qualquer outra coisa –, e por mais que tenham um passado tenebroso, torna-se não-crível que a maturidade deles tenha chegado a um ponto além do provável. Alguns personagens, confesso ter ficado chocada ao saber da idade, porque não fez sentido nenhum.

Claro que podemos tentar justificar esse aspecto com as histórias e os rumos da vida, porém, penso que adolescentes de dezessete anos são impulsivos e estão confrontando o mundo o tempo todo, inclusive, isso ocorre na narrativa, mas acaba sendo mal explorado justamente pela maturidade demasiada. Com exceção disso, acredito que a criação dos seis anti-heróis principais se torne praticamente impecável.

Contudo, assim que desbravamos o charme dessa narrativa e compreendemos quais são os seus personagens principais, percebemos que todos os outros acabam deixando muito a desejar. Como eu não li a trilogia anterior, eu não sei se as figuras caricatas que aparecem têm alguma participação mais explicativa na obra primária, mas lendo essa trama, percebi que ela tinha sido feita para que pudéssemos compreender sem conhecer o resto do universo grisha e, por causa disso, não me soa como uma explicação possível ou aceitável que os personagens – em comparação aos principais – pareçam tão frágeis e irreais, até porque Bardugo mostrou um domínio incrível.

A autora possui um universo compartilhado e extremamente rico, cheio de detalhes, como linguagem, cultura e religiosidade que, por mais que fossem mencionados, foram pouco explorados. Aqui e acolá, podia-se vislumbrar as ideias a respeito dos suli, dos shu, dos fjerdanos, etc. Talvez seja ganância da minha parte, justamente porque é todo um lugar novo a explorar, porém, a falta de alguns detalhes trouxe a sensação de pequenas incoerências durante a narrativa, ao meu ver, como a própria relação entre personagens, a exemplo de Kaz e Haskell, que, por vezes, o primeiro parecia considerar o segundo como uma espécie de pai.

A dinâmica entre os personagens principais é muito boa e, graças à escrita fluída, deu uma guinada ótima na narrativa, mesmo nas partes mais lentas do livro. O interessante também é que o recurso utilizado por Bardugo para a narração foi a terceira pessoa, entretanto, focalizando personagens e pontos de vistas diferentes de acordo com o que era proposto pelo capítulo. Esse ponto trouxe dinamicidade e leveza por muitas vezes, equilibrando o passado tenebroso de alguns com o presente calculista e mercenário.

Trabalhando o passado deles e o presente mesquinho, a autora aproveita para criticar a sociedade de Kerch, no entanto, o lugar se assemelha extremamente às diretrizes do mundo real em que uma pessoa nada mais é do que uma mercadoria e todos estão dispostos o tempo todo a tirar vantagem da situação. Ela traz a divindade do capitalismo, nomeando-o e deixando-o organizar a cidade a seu bel prazer, ou melhor, ao prazer dos mercadores, dos exploradores e dos escravistas.

Aumentando essa dinâmica, Bardugo apresenta personagens que sobrevivem não através de sua aparência, pelo contrário, por muitas vezes, a aparência deles os pôs em risco. Cada um dos protagonistas sobrevive por causa de suas habilidades, principalmente Kaz, líder do grupo e também aleijado, cuja capacidade de ver a frente de seus inimigos faz com que seja por vezes arrogante, outras de uma prepotência sublime.

Todos os Seis principais merecem destaque, no entanto, eu gosto muitíssimo da crítica apresentada pela a autora quanto à exploração de mulheres e menores de idade para o tráfico ilegal de pessoas, deixando no final até uma ONG que precisa de ajuda, isso porque Inej – a espiã e a sombra – tem o passado, ao meu ver, mais sombrio dentre cada um deles, mas, mesmo assim, mantém sua bondade através de sua religiosidade.

Dessa forma, Bardugo apresenta pessoas ao invés de personagens porque entende que, independente do passado, cada um de nós se agarra a uma expectativa, um sonho ou uma realidade diversa para sobreviver. Sem se prender somente a tráfico de pessoas e problemas de locomoção, ela traz um contexto de guerra, de vício em jogos e também uma rede de mentiras que se desvelam ora de maneira adequada e sutil, ora abrupta e malfeita.

Six of Crows é um livro que vale a pena, ainda que contenha defeitos na trajetória. Mas ninguém é perfeito, nem nenhum dos seus Seis anti-heróis.

 

REFERÊNCIAS

BARDUGO, Leigh. Six of crows: sangue e mentiras. Tradução de Eric Novello. 1ª ed. Belo Horizonte: Editora Gutenberg, 2016.