RESENHA #71: A SUTIL ARTE DE SE REINVENTAR

 

AUTOR: Mark Manson

SINOPSE: Chega de tentar buscar um sucesso que só existe na sua cabeça. Chega de se torturar para pensar positivo enquanto sua vida vai ladeira abaixo. Chega de se sentir inferior por não ver o lado bom de estar no fundo do poço. Coaching, autoajuda, desenvolvimento pessoal, mentalização positiva — sem querer desprezar o valor de nada disso, a grande verdade é que às vezes nos sentimos quase sufocados diante da pressão infinita por parecermos otimistas o tempo todo. É um pecado social se deixar abater quando as coisas não vão bem. Ninguém pode fracassar simplesmente, sem aprender nada com isso. Não dá mais. É insuportável. E é aí que entra a revolucionária e sutil arte de ligar o foda-se. Mark Manson usa toda a sua sagacidade de escritor e seu olhar crítico para propor um novo caminho rumo a uma vida melhor, mais coerente com a realidade e consciente dos nossos limites. E ele faz isso da melhor maneira. Como um verdadeiro amigo, Mark se senta ao seu lado e diz, olhando nos seus olhos: você não é tão especial. Ele conta umas piadas aqui, dá uns exemplos inusitados ali, joga umas verdades na sua cara e pronto, você já se sente muito mais alerta e capaz de enfrentar esse mundo cão. Para os céticos e os descrentes, mas também para os amantes do gênero, enfim uma abordagem franca e inteligente que vai ajudar você a descobrir o que é realmente importante na sua vida, e f*da-se o resto. Livre-se agora da felicidade maquiada e superficial e abrace esta arte verdadeiramente transformadora.

Tudo vem com um sacrifício embutido, ou seja, o que nos faz bem vai inevitavelmente nos fazer mal também.

 

Embora seja considerado um livro de autoajuda por alguns dos seus leitores, acredito que a obra de Mark Manson seja, na verdade, um texto filosófico em formato simples e de fácil acesso para todas as idades.

Sua premissa é muito objetiva: ligar o foda-se porque a vida é uma bosta e você, provavelmente, também. Exatamente assim, sem mais e nem menos do que nos mostrar o que é a vida. A questão maior de sua filosofia, dentro desse livro de não-ficção, é fazer com que o pensamento considerado, na contemporaneidade, negativo se torne o que ele era desde antes – normal.

Isso: normal.

Nós vivemos em um estado constante de pressão psicológica por todos os lados, obcecados com o sucesso em todos os âmbitos e nos comparando com as demais pessoas a nossa volta. Essa forma de pensar, agir e fazer as coisas é característica de nossa geração conectada na internet vinte e quatro horas por dia, como o próprio autor deixa bem claro.

O acesso à informação constante, seja científica ou da vida alheia, faz com que estejamos o tempo todo conectados com coisas e ideias exteriores que, no final das contas, não valorizam o que somos, o que queremos e por qual razão queremos aquilo ou outra coisa.

Também sendo uma síndrome do capitalismo – o consumo constante de bens materiais que sequer nos fazem falta, mas a propaganda diz o contrário –, a geração atual vive em uma bolha, a qual eu gostaria de chamar de relações vazias. Nós estamos todos os dias conectados a informações, muitas não nos acrescentam absolutamente nada, vivendo dramas que não fazem sentido porque fingimos ser quem não somos, porque as outras pessoas estão vendo.

O fato de outros humanos assistirem-nos constantemente faz com que o indivíduo, no caso, qualquer um de nós, tenha medo de se expor como é, tornando-se alguém que não representa a si mesmo e, nesse ciclo vicioso, cria uma relação instável a partir de uma falsidade desmedida, logo, vivendo uma relação vazia porque ninguém está dentro dela de verdade.

Essa falsidade não somente se caracteriza em opiniões, como também em desejos ou em histórias mal formuladas para parecer mais belo, mais inteligente ou mais bem-sucedido diante de sua audiência; tudo para parecer uma coisa que você não simboliza e que não existe. É a situação desesperada das pessoas que vivem sem realmente viver no século XXI.

Mas por que fazemos isso? Manson tenta explicar de uma maneira bastante desconstruída e descontraída a partir de histórias pessoais e de personalidades famosas, além de alguns estudos científicos, filosóficos, psicanalíticos e psicológicos que corroboram, em certa medida, as informações que estão colocadas nas páginas do livro.

Basicamente, o que o autor faz é contar-nos a filosofia do pessimismo de Nietzsche e Schopenhauer de maneira divertida e, para muitos, até um pouco mais interessante, e mostrar-nos que mesmo a vida sendo uma merda, se soubermos priorizar as coisas, tudo vai ficar bem.

A melhor qualidade desse livro, na minha humilde opinião, é que além de não tentar vender métodos baratos e soluções impossíveis para a nossa autoestima e bem-estar, o autor nos diz o que é possível fazer se você realmente quiser. O fato de você ler essa obra, como ele deixa claro, não fará você ser feliz e nem nada do gênero, porém, deixará, em contrapartida, você extremamente consciente de que, se as coisas estão dando errado, não deve ser culpa divina, mas sua.

Contudo, existiram alguns pontos nos quais eu discordei do autor e faz sentido, ao longo do livro, a existência dessas discrepâncias. Primeiro, fica bem nítido que o autor nunca teve qualquer dificuldade financeira, logo, algumas informações que ele expõe acabam fugindo um pouco da realidade das pessoas.

Para exemplificar essa opinião, eu vou citar um dos primeiros exemplos do livro. Manson diz que uma idosa no mercado reclama de uma promoção de trinta cents porque não tem mais com o que se preocupar. Contudo, quando ele faz isso, ele está pressupondo como é a vida dessa senhora, de que aquele dinheiro não fará falta no final do mês, além disso, o ato de prejulgar é um dos problemas que ele mais aborda no livro nas entrelinhas.

O que torna hipócrita é que ele começou o livro fazendo isso.

Não que ele tenha feito para percebermos ou para ser uma pegadinha, na verdade, parece que ele quis dar uma lição inicial que, no decorrer das páginas, é parcialmente desmitificada. Contudo, ele volta a repetir essa ideia de pressuposição mais à frente, sem perceber. Obviamente, voltado – agora – para o lado financeiro.

A questão é que um dos problemas da nossa sociedade é pressupor e prejulgar. Nós, antes mesmo de sabermos da verdade, assinalamos realidades como se fôssemos camponeses em uma caça às bruxas. Admitimos vilões, instauramos pensamentos e olhamos as fotos dos amigos sorrindo, achando coisas que não necessariamente são verdade.

Ninguém é completamente honesto, educado, gentil, interessante, feliz, bonito, charmoso ou qualquer coisa do gênero. Todos temos defeitos, problemas e tristezas. Todos somos vilões e mocinhos em alguns cenários da vida. E você sabia que está tudo bem? Porque isso faz parte da natureza humana, pois a maioria das pessoas não vai ser Buda, Gandhi ou Jesus. A questão maior é que, ao pressupormos ideias, somos infelizes porque julgamos realidades que, muito provavelmente, sequer existem.

O ato da idosa reclamar de uma promoção pode sim significar que ela não tivesse mais o que fazer, como também pode ser que aquele dinheiro faça falta. A questão é: e o que o indivíduo – que pré-julga – tem a ver com isso? O ato de “ligar o foda-se” também não deveria ser uma lição de que devemos nos importar menos com o que os outros fazem, dizem ou acham e mais com o que pensamos, achamos e valorizamos?

Em alguns momentos, dentro dessa obra, essa noção me parece muito confusa, porque há tempo de desapego e outro, de julgamento, o que me soou extremamente contraditório, mas, de toda forma, também humano – afinal, somos todos contradições ambulantes.

Há mais dois fatores e argumentos que me incomodaram durante a leitura. O primeiro deles é o fato de que Manson coloca que nossa vida só é feliz resolvendo problemas. Somos felizes quando resolvemos problemas sim, quem não fica feliz de solucionar um pepino que não queria? Entretanto, somos felizes realizando objetivos, sonhos e desejos. O meu maior problema com essa assimilação é que o autor parece colocar essas duas ideias como se fossem uma só, pois, na concepção proposta por ele, realizar desejos e sonhos é o mesmo que enfrentar obstáculos, caracterizados como problemas a serem resolvidos, já que para concretizar algo, você precisa enfrentar as dificuldades disso.

Contudo, quem já alcançou sonhos, objetivos ou realizou desejos sabe que as cargas de felicidade dessas duas esferas são muito distantes uma da outra. Por vezes, em uma experiência pessoal, quando resolvo problemas, eu não sinto felicidade, mas alívio, porque um obstáculo foi superado.

Sentir alívio e sentir felicidade são, na minha concepção, coisas diferentes demais para serem colocadas como o mesmo e, por conta disso, acredito que esse seja mais um fator que o autor, em sua filosofia, pecou: nem tudo na nossa vida, para estar bem, precisa ser sinônimo de felicidade.

O último ponto das minhas discordâncias está na esfera da crítica dele a respeito do discurso que todos somos especiais. Em uma argumentação até plausível, o autor diz que todos nós somos normais porque, se todos fôssemos especiais, logo, ninguém seria especial. No entanto, achei também falha essa explicação e muito simplória para a carga de emoções, habilidades e vivências humanas.

Não somos preto no branco, marcados com um símbolo de “especial” em nossa testa e não me parece que qualquer uma das pessoas que o autor cita pense dessa forma. O fato de sermos especiais, na argumentação das personalidades que o autor comenta em tom de ironia, não é de sermos especiais por sermos especiais, mas porque somos indivíduos particulares com vivências únicas e experiências que nos alimentam de maneira singular, além de talentos e habilidades que nos remetem.

Nós somos especiais, porque cada um de nós é diferente do outro, como a digital que levamos nos nossos dedos. Entendo que o autor tenta ironizar isso para mostrar que nem todos somos bem-sucedidos em nossa vida amorosa, trabalho ou qualquer outra área, contudo, ele mesmo questiona a ideia de “o que é ser bem-sucedido?”. Logo, como ele contraria a ideia de sermos especiais para alavancar um debate sobre particularidades de cada um?

Com exceção desses pontos, o resto do texto de Mark Manson é muito coerente e também pessoal, contando histórias próprias que significam muito não só para ele, mas para o leitor que precisa ver que a vida pode ser o que ele quiser, basta entender que a responsabilidade de nossos atos e nossas reações é absolutamente nossa.

 

REFERÊNCIAS

MANSON, Mark. A sutil arte de ligar o f*da-se. Tradução de Joana Faro. 1ª ed. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2017.