RESENHA #70: OS DOIS LADOS DA MOEDA

AUTOR: Patrick deWitt

SINOPSE: Em Os irmãos Sister, Patrick deWitt faz uma homenagem ao universo clássico do Velho Oeste, transformando o cenário comum em uma inesquecível viagem cômica com personagens marcantes – perdedores, trapaceiros, românticos, confusos – e uma narrativa empolgante. Uma ficção histórica sobre os anos 1850 que mostra dois irmãos unidos pelo sangue, a violência e o amor. O Velho Oeste não foi mais o mesmo depois que eles chegaram. Será que você conseguirá acompanhar o gatilho desses dois irmãos? Cuidado! Você está na mira deles!

Sempre fomos dois, desde o dia em que eu nasci.

 

Quando encontramos cenários diversos do que estamos acostumados, a empolgação quanto a essa nova jornada pode prejudicar a nossa percepção da narrativa, isto é, o fato de mal lermos livros ambientados no Velho Oeste – por mais que existam muitas adaptações cinematográficas –, pode significar que esperemos mais do que realmente teríamos.

Foi exatamente assim que eu me senti ao ler Os Irmãos Sister, o segundo livro da carreira de escritor Patrick deWitt.

Com alguns erros cronológicos, como o fato de citar filmes preto e branco em 1851, quando a primeira exibição foi na França em 1895, o livro nos leva a um lugar o qual conhecemos através mais de adaptações cinematográficas do que de peças teatrais ou literatura geral, talvez seja exatamente por isso que tenha ocorrido a citação equivocada de deWitt, de certa forma para homenagear o que mais pareceu lhe inspirar.

De fato, Os Irmãos Sister parece realmente ter recebido as atenções como um filme, em que Eli – o irmão mais jovem e sonhador, além de ser o narrador da jornada – parece tecer uma trama embebida das questões visuais do faroeste muito mais do que literárias, ou seja, em que a sintaxe do autor não surpreende justamente por ser simples e, às vezes, superficial.

Para quem gosta de textos sem rodeios, metáforas ou comparações, Os Irmãos Sister soa como um paraíso, justamente porque o narrador não se preocupa em criar ideias a partir de uma construção elaborada, na verdade, quando há questionamentos e reflexões, Eli é sempre muito direto, o que não necessariamente é ruim contando que o protagonista é um assassino de aluguel com ambições que fogem ao escopo de sua profissão.

No entanto, para compensar – ao menos, no meu ponto de vista – a falta de tato quanto às reflexões e às possíveis proposições em que a narrativa poderia ter acertado, os diálogos foram criados com extrema delicadeza, sendo plausíveis e muito bem encaixados na medida em que vão sendo produzidos. Uma a uma, compreendemos as noções sociais ditadas naquele lugar e em que medida cada personagem se encaixa em sua posição, numa gama múltipla de estereótipos, o que pode gerar desconforto e alívio em certos momentos da obra.

Mas o que faz Os Irmãos Sister ser interessante?

Por mais que eu sinta que faltou algo durante a execução do texto, há um intercâmbio de posições muito agradável aos meus olhos, o qual segue padrões milenares de inversão de heróis.

Eli, durante boa parte da narrativa, deprecia a si mesmo, utilizando termos vagos e sempre observando a própria aparência em detrimento a do irmão, além disso, vê como parâmetro a sociabilidade do mais velho e a forma como leva a vida. Enquanto Charlie é o centro das atenções de Comodoro e das mulheres, o narrador sente que é inferior e, por consequência, menos amado.

Tanto que qualquer pingo de atenção, torna-se muito em sua concepção. Ele é um personagem desprendido de bens materiais e focado em ambições mais simples, como a tranquilidade, o sossego e uma loja na qual possa viver bem e casado. Ao traçar a personalidade do Sister mais jovem, o outro é literalmente o oposto.

Charlie Sister é fanfarrão, alcóolatra e mulherengo, sempre disposto a uma briga e gosta de seu ofício, por mais que tenha pesadelos durante a noite. A sua violência faz com que seja apreciado e, ao que parece, sua aparência também.

Os irmãos soam muito distantes um do outro, no entanto, essas diferenças – durante o texto – podem intercambiar a partir da necessidade, mostrando uma disposição de valores e ações que fará com que o prestígio e o poder sejam invertidos:

Ao vislumbrarmos quase todo o tempo Charlie como uma espécie de anti-herói errante da modernidade – ou do faroeste – e superior ao irmão, encontramos um sentimentalismo profundo em cada ação de Eli que o diminui como “figura heroica”, mas o faz crescer em nosso conceito a partir do que nos gera pelo que observamos hoje, nos tempos modernos, sobre o que significa heroísmo: a valentia de lutar contra monstros ou não ser um monstro?

 Tal como a disposição entre Aquiles e Heitor, em que um ganha a simpatia enquanto o outro se sobressai como guerreiro, em que Homero, em seguida, inverte os papéis, é possível perceber o mesmo em Os Irmãos Sister, no qual a força de espírito que sustenta Charlie se corrompe e o que sentimos por ele é, nada mais e nem nada menos, do que o que outrora sentíamos por Charlie no início, aliado à sua autodepreciação.

Muito distantes um do outro, tornam-se – pouco a pouco – dois lados da moeda que se invertem. Entretanto, por mais diferentes que sejam, eles continuam juntos, pois o tema central da narrativa, além das reflexões e de uma boa pitada de faroeste, é a concepção do que é e como se dá a amizade entre irmãos, em que medida nos sacrificamos por alguém do nosso sangue. A fraternidade é o centro que flutua entre os dois protagonistas e o próprio enredo, trazendo consigo o que de pior se pode sentir: a solidão quando estamos acompanhados.

Há críticas relevantes e até interessantes na obra, porém, há falhas graves de execução que não podemos deixar passar, principalmente falhas históricas e alguns erros de concordância na tradução. Contudo, toda obra possui suas falhas e, se pudermos, é sempre interessante ver o que de melhor uma trama pode nos trazer: são dois lados de uma moeda, no final das contas.

 

REFERÊNCIAS

DEWITT, Patrick. Os Irmãos Sister. Tradução de Marcelo Barbão. São Paulo: Planeta, 2013.

KOTHE, Flávio R. O herói. São Paulo: Ática, 1987. (Série Princípios).