RESENHA #69: VINHO DA VIDA

AUTOR: André Aciman

SINOPSE: Os sentimentos de Paul, tão intensos na adolescência, continuam a atormentá-lo na vida adulta: no sul da Itália, ainda jovem, quando se apaixonou pelo marceneiro de seus pais; em Nova York, onde acredita estar sendo traído pela namorada e se interessa pelo parceiro de tênis nas quadras do Central Park; em um campus coberto de neve em New England. Não importa onde ou quando, suas relações são caóticas, transitórias e marcadas pela força do desejo. Variações Enigma explora a impossibilidade de restringir uma pessoa a uma única linha melódica. Dessa forma, André Aciman mapeia os recônditos da paixão e revela a impiedosa e intrincada psique humana. Assim como em Me chame pelo seu nome, sua linguagem delicada, pungente e sincera lança uma luz sensorial sobre as facetas do desejo.

Aprenda a ver o que nem sempre é visível e talvez se torne alguém.

 

Edward William Elgar foi um músico inglês que viveu entre os anos de 1857 e 1934. Em 1899, ele lançou uma de suas composições mais notáveis, a qual era composta por 14 peças musicais curtas, cada uma atuando como um retrato de suas relações mais próximas, desde a sua esposa até seus amigos mais íntimos. O nome pelo qual a obra ficou popularmente conhecida? Enigma Variations ou, em português, Variações Enigma.

Embora o nome de Elgar não apareça uma vez sequer no livro de André Aciman, dadas as semelhanças, não me parece nada absurdo supor que o escritor conhecia o compositor e, mais do que isso, inspirou-se na obra musical para compor a literária. Não é só o nome que liga o livro à composição musical, mas também o conteúdo, pois o livro em questão trabalha igualmente as relações pessoais do protagonista – as amorosas, mais especificamente; e, além disso, a ideia de enigma, presente na obra de Elgar, é extremamente relevante na trama homônima. Na verdade, ambas trazem a ideia de um enigma sem resolução, fazendo com que ele permaneça como tal mesmo depois de lidas as últimas páginas ou ouvidas as últimas notas.

Contudo, especificamente sobre o livro, o que é mais relevante em Variações Enigma não é a resposta para as perguntas “Qual é o enigma e quais são suas variações?”, mas as outras questões que são postas enquanto nos debatemos com essas duas primeiras. Talvez o ponto principal é que não exista uma resposta correta, mas várias plausíveis. Depende do leitor, depende do olhar sobre o livro.

A obra de Aciman me conquistou e, ao mesmo tempo, repeliu. De fato, durante a leitura, senti como se comesse um doce em camadas: só poderia opinar sobre o gosto do todo depois de ter experimentado cada parte. No entanto, enquanto sobremesas costumam gerar apenas prazer, Variações Enigma dá vazão a um misto de sentimentos, desde os mais singelos até os mais crus, indo da familiaridade ao desconforto em questão de frases.

Acho que a origem dessa ambiguidade da obra – que repele e atrai – está no fato de que o livro fala de amores, mas não dos que deram certo. Paul é um homem de amores estelares. Honestamente, acho que Paul é um homem cuja mente cultiva não só relacionamentos românticos, como uma vida estelar. Embora aqui pareça destoante, o conceito de estelar é central para o enredo, sendo apresentado pelo próprio narrador a certa altura do livro, quando diz:

 

Nietzsche escreveu que amigos distantes podem se tornar inimigos declarados, mas de alguma forma misteriosa permanecem amigos, embora em uma esfera completamente diferente. Ele chamou isso de amizades estelares. 

 

Ou seja, é como se houvesse, para cada vida, cursos alternativos nos quais os acontecimentos são outros, diversos daqueles que vivenciamos na nossa existência atual. Justamente por aplicar tanto esse conceito em sua obra, Variações Enigma pode tornar-se uma narração cansativa para alguns, uma vez que contém uma alta dose de não-acontecidos – ou seja, divagações, pura e simplesmente.

Grande parte do enredo se passa na mente de Paul, não fora dela. O nível grande de subjetividade é o que, aliás, dá origem a três qualidades que, para mim, são as principais do livro: as descrições, poéticas e, ao mesmo tempo, cruas, seguindo os sentimentos e o estado de espírito do protagonista; o fato de possuir um ponto de vista único, o do narrador, dando aos leitores o gosto da surpresa, seja quando Paul se depara com uma informação até então desconhecida ou quando, de forma proposital, revela-a tardiamente aos leitores, dando origem a reviravoltas de enredo ao longo do livro e, mais especificamente, ao final de cada capítulo; por fim, o ar de quebra-cabeças que o livro ganha, uma vez que o narrador é um mistério para si mesmo, e, enquanto tenta se decifrar, leva-nos junto em sua jornada, constituindo-se, ele mesmo, como um enigma.

Paul é uma tela em branco, a qual, aos poucos, vamos preenchendo com palavras. Podemos vislumbrar nele uma ânsia por um sentimento vertiginoso, um afã por um amor intenso que nunca chega – e que, quando chega, dá errado antes mesmo de começar. Todos os seus amores foram pautados por Nanni, o primeiro de todos. Paul se apaixonou por ele aos doze anos, idade associada à puberdade e, mesmo, à transformação da criança em homem – no caso de Paul, também a origem de sua bissexualidade torturada. A intensidade com que todos os sentimentos o atingem, desde os mais nobres até os mais devassos, é algo que devia tê-lo abandonado conforme crescia, mas jamais o deixa. Além disso, o fato de ser um amor por princípio malfadado também nunca abandona seus sentimentos.

É por isso que, mais ao início, eu disse que Variações Enigma é um livro sobre amores impossíveis por princípio ou que, em algum ponto, deram errado. Porque tudo que se torna concreto perde seu ar estelar. Na mente de Paul, tudo tem a intensidade da imaginação e pode ser do jeito que o protagonista quiser. Uma vez que se torne concreto, vira pano de fundo para capítulos seguintes, nos quais outros amores estelares surgirão.

Paul é um homem do que poderia ser, não do que é.

Acho que talvez essa seja o ponto central da obra de Aciman: falar de algo tão intenso que só é passível de existência na cognição humana, onde tudo se molda de acordo com o que desejamos. É um livro que fala da ideia do amor, da ideia da paixão, da vertigem de sentir antes que sejamos correspondidos. É uma história sobre um sentimento amoroso quase unilateral, cuja origem é o próprio Paul e nele se encerra, sem encontrar alvo fixo, uma vez que os amados são muitos, mas o amante é um só e, em todos os casos, é intenso.

Quem sabe, vinho da vida, aspecto tão debatido durante o enredo, não seja mesmo isso: a ideia de provar da intensidade que vive mente humana. Sentir o amor antes mesmo que ele se torne um sentimento. Amar com a vertigem do “talvez”, porque o concreto é uma resposta, mas o abstrato, o imaginado, o que poderia ser… Isso será sempre uma coisa só:

Um enigma.

 

REFERÊNCIA

ACIMAN, André. Variações Enigma. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2018.