RESENHA #68: QUEM É O MONSTRO?

 

AUTOR: Patrick Ness

SINOPSE: Conor é um garoto de 13 anos e está com muitos problemas na vida. A mãe dele está muito doente, passando por tratamentos rigorosos. Os colegas da escola agem como se ele fosse invisível, exceto por Harry e seus amigos que o provocam diariamente. A avó de Conor, que não é como as outras avós, está chegando para uma longa estadia. E, além do pesadelo terrível que o faz acordar em desespero todas as noites, às 00h07 ele recebe a visita de um monstro que conta histórias sem sentido. O monstro vive na Terra há muito tempo, é grandioso e selvagem, mas Conor não teme a aparência dele. Na verdade, ele teme o que o monstro quer, uma coisa muito frágil e perigosa. O monstro quer a verdade. Baseado na ideia de Siobhan Dowd, Sete minutos depois da meia-noite é um livro em que fantasia e realidade se misturam. Ele nos fala dos sentimentos de perda, medo e solidão e também da coragem e da compaixão necessárias para ultrapassá-los.

Quem pode dizer que a vida real é que não é um sonho?

 

Simples não é sinônimo de menos.

Durante o decorrer da literatura, seja nacional, best-seller, contemporânea ou canônica, encontramos modelos sobre o que é bom, o que é belo e o que é ou deve ser prestigiado. Quantos escritores não recorrem a cursos ou estudam toda uma vida, buscando compreender o que faz algo ser bom?

Não somente escritores passam por esse processo, como críticos literários ou especialistas das mais diversas formas de fazer arte. E, às vezes, podemos chegar à conclusão de que não existe um modelo, nem um padrão. Tal como não existe livro perfeito, não existe modelo.

E se existisse, definitivamente, deixaria de sê-lo.

O que é interessante nisso tudo é que prestigiamos muito a complexidade de uma narrativa, o quanto ela carrega e transporta, tanto dentro do texto quanto o próprio texto. Focamos nessa busca incessante, às vezes, deixamos de lado o simples. Mas lembram que não há modelo?

Por que deixamos o simples de fora?

Essa é uma questão que eu realmente não sei responder, como tantas outras, no entanto, eu devo dizer que a simplicidade é a chave de Sete minutos depois da meia-noite ou Chamado do Monstro, como também é conhecido, ser tão incrível. O texto infantil, passei a considerar pela forma tão inocente que a história vai sendo narrada, diz muito, sem parecer exagerado, sem tentar forçar uma comoção no leitor e, principalmente, usando o câncer, uma doença tão terrível que diversos livros abordam para trazer lágrimas aos olhos, não como ferramenta para nos fazer sofrer, mas como mais uma coisa que acontece na vida. O que é verdadeiramente medonho na obra é o que é de mais medonho para todo e qualquer ser humano: a morte, em consequência, a perda.

Dessa forma, Ness, confesso, surpreendeu-me muito, porque ele não usou artifícios para me comover, ele simplesmente me comoveu com o usual, com o banal e ordinário da vida cotidiana. O fato de Conor, um menino de treze anos, que está passando por uma transição de criança para adolescente sem saber em qual mundo se encaixa, temer a perda e senti-la, mesmo que ainda não tenha ocorrido, é fantástico.

Não digo que o termo fantástico esteja intrinsecamente conectado a algo positivo, mas o fato de ele conseguir ter a sensibilidade de narrar a perda em uma transição psíquica que se multiplica, definitivamente, é. A narrativa em si é fantástica pelos elementos maravilhosos que nela são inseridos, mas é também fora do usual uma criança ver a morte tão jovem, ao menos, nos padrões sociais comuns em que sua mãe deveria acompanhar seus passos até o meio da jornada. Esse fora do padrão também é fantástico.

Assim sendo, o livro retrata de diversas maneiras esse fantástico e ele é uma metáfora muito bem elaborada. Até o final da narrativa, podemos dividir o monstro – e sem uma resposta concreta – entre real, psicológico e fantasioso. E não precisamos dessa resposta, porque ela faz parte da beleza de não sabermos o que é a morte e no que ela se transforma.

É não só sensível, como muito poético.

O monstro se divide em vários: o monstro bom, o mau, o que habita em Conor, o que existe fora dele. Todos eles são monstros. As pessoas que o cercam, as pessoas que o ignoram, ele mesmo. O chamado do monstro é intrínseco porque o ser humano é naturalmente um monstro e vive monstruosidades.     

Esse ponto é muito interessante, porque a história naturaliza o cansaço de ver alguém que se ama sofrendo, naturaliza a ideia de “querer que tudo acabe, mesmo que não queira necessariamente”. Nós podemos parecer monstruosos em muitos momentos durante o decorrer de nossa vida, a partir da percepção dos outros ou da nossa própria, e está tudo bem. Confesso que isso toca – e muito –, ainda mais quando é só um menino em transição sem saber o que fazer e tendo como único elo seguro a sua mãe.

Outro fator importante é a presença da mãe. Ao contrário dos contos de fadas que excluem a presença materna, essa narrativa traz esse teor palpável porque é sobre a perda da mãe. Além disso, essa figura é marcada por ser tanto aquela que nos gera como, por muitas vezes, o nosso porto seguro – como é apresentado na história de Patrick Ness.

O simbolismo da nomenclatura mãe está presente em muitas formas, principalmente porque há um distanciamento físico e psíquico da figura paterna em relação ao personagem. Ele não possui um vínculo estável com nenhum outro personagem, só com ela – e com o monstro que surge e habita dentro dele ao mesmo tempo.

Há diversos outros simbolismos, como o teixo, que é uma árvore simbolicamente fúnebre e o número sete que é visto como a totalidade do universo em transformação e de mundos que se integram.

Os próprios detalhes da trama contam-nos sobre o que ela é, como os números, as árvores e as pessoas. Os personagens que sofrem e os que personagens que agridem.

O incrível disso tudo é que o maior sentimento, antes mesmo da perda, durante toda a história é a raiva, porque as conexões do luto estão intrinsecamente conectadas com os nossos sentimentos mais fortes, mais irados, porque, ainda que queiramos, não podemos lutar contra a morte, então, só nos resta sentir raiva.  

Sentimos raiva dos outros, mas, antes de tudo, de nós mesmos, ainda mais em uma situação tão desgastante quanto a luta contra o câncer, porque nós desejamos que aquela pessoa melhore, mesmo sabendo que não vai acontecer e isso realmente dói, dói tanto que não há como descrever.

Por conta disso, a abordagem utilizada nessa obra me fez ficar maravilhada, porque a ideia não é demonstrar ou confrontar nossa dor, mas sim o que sentimos de mais intenso e profundo: a nossa raiva.

O nosso monstro particular.

 

REFERÊNCIAS

NESS, Patrick. Sete minutos depois da meia-noite. Tradução de Paulo Polzonoff Junior. São Paulo: Novo Conceito, 2016.