RESENHA #66: MOVIMENTO FINAL

 

AUTORA: Dani Atkins

SINOPSE: Ally e Charlotte poderiam ter sido grandes amigas se David nunca tivesse entrado em suas vidas. Mas ele entrou e, depois de ser o primeiro grande amor (e também a primeira grande desilusão) de Ally, casou-se com Charlotte.
Oito anos depois do último encontro, o que Ally menos deseja é rever o ex e sua bela esposa. Porém, o destino tem planos diferentes e, ao longo de uma noite decisiva, as duas mulheres se reencontram na sala de espera de um hospital, temendo pela vida de seus maridos. Diante de incertezas que achavam ter vencido, elas precisarão repensar antigas decisões e superar o passado para salvar aqueles que amam.

Você pensa que tem o controle da sua vida, acredita que é você quem toma todas as decisões, e então algo assim acontece e você se dá conta de que é apenas uma minúscula peça em um jogo de xadrez, sendo movida de um lado para outro ao capricho de alguma coisa ou alguém muito maior.

 

Desde a época do Barroco, o concerto é uma apresentação musical dividida em três movimentos. Com a chegada do Romantismo, esse número não se manteve rígido, podendo variar de um até quatro. Entretanto, ao falar de Nossa Música, consigo pensar apenas no número três.

Três movimentos e as cortinas se fecham.

O primeiro é rápido, mas é também o prenúncio da dor que se estenderá por todo o livro. Como um tiro ou uma facada que ainda sangrarão por muitas horas. Nesses capítulos iniciais, acompanharemos o acidente de Joe e o mal súbito de David, assim como a chegada de suas respectivas esposas, Ally e Charlotte, ao hospital St. Elizabeths, para onde ambos foram levados. Os momentos iniciais são ligeiros, mas decisivos, pois é neles que encontramos o primeiro sinal de que o Destino já havia lançado seus dados.

Apesar de a palavra acaso aparecer ao longo da narração, não sei se ele é algo realmente presente no livro. O acaso pode pressupor algo de fortuito, e nada é fortuito na situação toda. O tecido que relaciona e sequencia os acontecimentos é tão bem trançado que o casual não ganha vez. Dentro das paredes do hospital, tudo tem um propósito. Por isso, eu prefiro dispensar essa palavra, que dá abertura à incerteza, e continuar com a palavra Destino, em maiúscula, porque ele traz algo de implacável e irrefreável. Nossa Música é assim.

O segundo movimento é lento e gradual, crescendo aos poucos e pacientemente diante de nossos olhos. Ele se desenvolve todo ao longo de uma mesma madrugada, mas, temporalmente, somos jogados do presente para o passado e vice-versa, conforme Ally e Charlotte se confrontam com as lembranças que gostariam de enterrar. Inimigas de longa data, a última coisa que as duas desejavam era se reencontrar e pior: dividir a sala de espera enquanto seus maridos lutam pela vida em uma mesma UTI. Porém, mais uma vez o Destino desce o martelo e ambas se veem cara a cara com os fantasmas que esperavam jamais rever.

Ainda que lento, esse movimento não é menos caótico. A aflição da espera e a profusão de sentimentos por que ambas são assaltadas, somadas aos retornos ao passado, colocam todos – leitores e personagens – às voltas com uma história que, se não é totalmente original, é completamente angustiante. Entre saber que algo teve um fim e conhecer esse fim de perto existe uma distância imensa. É exatamente essa distância que Atkins nos obriga a percorrer, passo a passo.

O movimento final, que encerra o concerto, é tanto rápido e decisivo quanto remissivo. Vi bastantes reclamações a respeito dele bem antes de ler o livro, mas, quando de fato cheguei a ele, não consegui vê-lo como nada além de uma ilustração de algo que a própria Ally havia reconhecido anteriormente. Por mais que muitas pessoas houvessem enxergado falta de originalidade e excesso de apelo emocional, eu apenas vi… O real.

Não o real que encontramos ao abrir a porta, porque o do dia a dia não é tão claramente traçado pelo Destino, a ponto de enxergarmos onde as linhas se conectam e se distanciam. Aliás, esse é um aspecto que, de fato, pode ser considerado forçado no livro. Sou obrigada a admitir que, se há um Destino, suas tramas não são ou não ficam tão óbvias assim na maioria das vezes. Entretanto, há realidade na dor e na perda; e, mais que isso, há realidade na necessidade de pedir perdão e perdoar. Além do mais, mesmo que não seja um real provável, Nossa Música é uma realidade possível. Não é porque a chance é de uma em um bilhão que ela deixa de existir.

A rapidez com que o terceiro movimento se orquestra deve-se muito mais à fluidez da leitura do que ao número de páginas, embora esse seja, de fato, menor. A verdade é que, uma vez que comecemos a rolar a ladeira, o fim da queda torna-se apenas uma questão de instantes. Posso parecer sádica ao prenunciar tanta tristeza, mas peço que vejam mais como um aviso. “Havia muito tempo eu deixara de acreditar que coisas ruins não acontecem com pessoas boas”, diz Ally, e isso não é nada mais que a verdade. Coisas boas acontecem com pessoas ruins, coisas ruins acontecem com pessoas boas; tudo isso são movimentos do enorme concerto que é a Vida – não a minha, não a sua, a de David ou a de Joe. A Vida como a entidade implacável que faz com que nasçamos e morramos.

Nossa Música é um livro de escrita deliciosa, quase tão delicada quanto a própria música clássica que Ally tanto ama e a qual o livro se assemelha de fato. Atkins tem a sutileza e a causticidade exata para instigar a ferida, deixando-a sangrar enquanto oferece alívio e aprofunda a dor, simultaneamente. Cada volta ao passado é reconfortante pelo que foi e amargurada pelo que não mais é. A transição entre eles, passado e presente, dói como antisséptico sobre a ferida sensível recém-aberta.

Por tudo isso, eu considero que não é o tipo de livro que dá para lermos em qualquer momento da vida. É necessário ter não só calma, mas resistência para encarar as situações pelas quais os quatro protagonistas passam. Claro que isso não é uma regra, afinal, cada um recebe a história de uma forma; mas o ambiente hospitalar, a luta pela vida e a iminência da morte são temas que, em geral, mexem com as pessoas. Mexeu comigo e eu sequer me considerava de um “grupo de risco”. Minha mãe não sabe, mas chorei feito um bebê.

Enfim, após três movimentos, as cortinas se fecham e nos resta a sensação de ter assistido a uma peça musical do Destino. Tão bem orquestrada, tão claramente imbricada e trançada, que, se não fosse obra Dele, o Destino, seria certamente obra de Ally. Após tudo, resta-nos ajudar os coristas a recolher os instrumentos e agradecer pela oportunidade. Afinal, nem todas as obras nos tocam e são tocadas como essa.

 

REFERÊNCIAS

ATKINS, Dani. Nossa Música. Tradução de Raquel Zampil. São Paulo: Arqueiro, 2017.