RESENHA #65: TABULEIRO DE XADREZ

 

AUTORA: Marina Carvalho

SINOPSE: ACASO, DESTINO ou LOUCURA? No caso de Rafaela, Pode ser tudo isso junto. Para alguém como ela, nada é impossível. Rafaela sonha desde a adolescência com o garoto que viu uma vez, perto do mar, carregando uma mochila xadrez… A idéia fixa não a impediu, porém, de ser uma menina alegre e muito decidida. Ela quer ser jornalista, e seu sonho está se concretizando: Rafaela Vilas Boas (um nome tão imponente para alguém tão desajeitado) conseguiu um estágio no melhor jornal de Minas Gerais. Mas, como estamos falando de Rafa, alguma coisa tinha que dar errado. O jornal é mesmo incrível, mas seu colega de trabalho, Bernardo, não é a pessoa mais simpática do mundo. Em meio a reportagens arriscadas – e alguns tropeços -, Bernardo acaba percebendo, contra a sua vontade, que Rafaela leva jeito para a coisa… E que eles formam uma dupla de tirar o fôlego. Mas e a mochila? E o garoto, o envelope, as cartas? Um dia a estabanada Rafaela vai ter que se libertar dessa obsessão.

Posso viver mil anos, mas nunca vou esquecê-lo.

 

Não sei muito sobre jogar xadrez, o máximo que aprendi foi com as dicas de um antigo amigo que me disse “Letícia, o cavalo anda em L”. Eu jamais admiti, mas o único motivo de me lembrar disso é porque L é a inicial do meu nome. Entretanto, ontem, ao me deparar com a história de Rafaela e Bernardo, eu só consegui pensar em xadrez. Eu podia apontar mais de uma razão para isso, mas a principal delas é porque, no tabuleiro do jogo, tudo é preto no branco.

Com isso, você pode entender duas coisas: a primeira delas é que, no livro, tudo preza pela verdade e, bom, sou obrigada a concordar com isso; a segunda é que ele – o livro; não o jogo – representa opostos em união, coisa com a qual devo concordar também.

Ademais, preto e branco representam algo dual, e a dualidade é um princípio essencial no livro, a começar pelo fato de que Rafaela, a personagem principal, encontra-se constantemente presa a uma. Enquanto busca viver no presente, aproveitando tudo o que ele lhe proporciona (inclusive o amor), continua presa a uma lembrança do passado sobre um menino com o qual nunca sequer falou, mas de quem se tornou próxima de uma forma que ela jamais imaginava – através de um tipo de diário, onde escreve cartas e bilhetes nunca enviados; todos endereçados ao e falando sobre “o garoto”. Mesmo seus olhos tendo cruzado uma única vez na vida, aos onze anos, Rafaela faz dele seu correspondente fictício unilateral pelos dez anos seguintes.

O garoto de olhos azuis e mochila xadrez, ou, simplesmente, “garoto”, serve de consolo quando tudo vai mal. Coincidentemente, é exatamente por água abaixo que a vida emocional de Rafaela começa a ir quando somos apresentados a ela. Tão logo inicia um estágio que decolará sua carreira, aos 21 anos, Rafa conhece um mentor que jogará suas emoções para cima e para baixo com a mesma facilidade de uma montanha-russa: Bernardo. Lindos eram seus olhos, amargas eram as palavras.

Azul da cor do mar é a sensação de ler algo que você conhece, porém não se cansa de rever. Histórias de amor são um tópico antigo o suficiente para que já tenhamos ouvido e lido várias delas, mas isso não torna conhecê-las menos especial; e Marina Carvalho nos lembra bastante disso em seu livro. Rafaela e Bernardo são o perfeito clichê do amor que nasce do ódio, o que de forma alguma torna menos divertido acompanhar suas brigas sem fim, assim como os pequenos avanços de sua relação, que caminha com a mesma velocidade de uma tartaruga cansada.

O que chega a incomodar, no entanto, é a presença de certas opiniões preconceituosas. Ainda que algumas sejam motivadas por coisas que não o puro pré-julgamento, a sensação que elas deixam é desconfortável. Está presente na dualidade opositiva e estereotipada da boa moça e da mulher “fácil”; nas velhas máximas de que mulheres que fazem sexo no primeiro encontro são “oferecidas”; assim como na antiga e repetida disputa entre mulheres. Bernardo, enquanto se dedica a atormentar Rafaela, é fonte de muitas das opiniões que carregam preconceito, principalmente no que diz respeito à forma de ela de se vestir e agir.

Entretanto, sou obrigada a fazer uma ressalva, que se não justifica, ao menos explica em parte tudo isso. Rafaela, que é a narradora – portanto, o ponto de vista dominante na obra –, é uma menina do interior, criada por pais e irmãos bastante conservadores. Foi educada sob o estereótipo da boa moça com o objetivo claro de segui-lo. Então, apesar de não ser agradável, seu preconceito é, de algum modo, motivado. A respeito de Bernardo, não sei dizer quanto de suas ideias eram graças a sua antipatia por Rafaela e quanto eram realmente a sua opinião; mas o resultado não foi dos mais agradáveis.

Os personagens me provocaram sensações ambíguas o tempo inteiro, de forma que meu personagem favorito (por favor, se não gosta de nenhum tipo de spoiler, por menos que seja, apenas pule até a próxima linha) foi Dom, o pug de Rafaela. Isso porque, além do que já falei, ainda há o fato de que muitos dos diálogos e atitudes tomadas por todas as partes – protagonistas, parentes, amigos, colegas de trabalho – me incomodaram, mesmo quando as entendi. No entanto, quem de fato me incomodou pela extrema (ainda que semimotivada) ingenuidade foi Rafaela. Isso, é claro, além da típica falta de coordenação que parece acometer toda mocinha de livros clichês.

Na verdade, outro personagem que também conquistou minha imensa simpatia apesar de aparecer pouco foi Gustavo, o irmão mais velho de Rafa. Ele era o exemplo perfeito de irmão que eu gostaria de ter. Paciente, amoroso e acolhedor. Preocupado sem ser abusivo. Enfim, o tipo de pessoa que me vem à mente junto da clássica frase da Lilo: “Ohana quer dizer família. Família quer dizer nunca abandonar ou esquecer”.

Por tudo isso, Azul da cor do mar é um livro que eu recomendo com ressalvas. Para aproveitar de verdade a leitura, é preciso relevar de verdade certas coisas. Sabe a velha frase “perdoa minhas burradas e não desiste de mim?”. Pois ela é a cara de Rafaela, sem tirar nem por. As opiniões preconceituosas vão espetar como uma farpa pequena na qual você pisou sem ver e que, é claro, você vai querer tirar. Contudo, sabendo que isso não é possível, os caminhos serão dois: insistir ou abandonar. Eu insisti e, de coração, acho que valeu a pena. Porque esse livro é, sobretudo, sobre amor. Um amor tão destinado que parecia mesmo escrito nas estrelas.

Ou trilhado nos caminhos de um par de olhos azuis da cor do mar.

 

REFERÊNCIAS

CARVALHO, Marina. Azul da cor do mar. São Paulo: Editora Novas Páginas, 2014.