RESENHA #64: A SUPERFÍCIE DO ESPELHO

 

AUTORA: Christelle Dabos

SINOPSE: Honesta e cabeça-dura, Ophélie não se importa com as aparências. Mas, por baixo de seus óculos de aros largos e cachecol desgastado, a garota esconde poderes únicos: ela pode ler o passado dos objetos e atravessar espelhos. A vida tranquila que leva em Anima se transforma quando Ophélie é prometida em casamento à Thorn, herdeiro de um distante e poderoso clã. Agora, ela terá que deixar para trás tudo o que conhece e seguir seu noivo até Cidade Celeste, a capital flutuante de uma gelada arca conhecida como Polo. Ali, o perigo espreita em cada esquina, e não se pode confiar em ninguém. Sem se dar conta, Ophélie torna-se um peão em um jogo político mortal, capaz de mudar tudo para sempre.

Eu li esse livro em apenas uma noite, embora isso seja de praxe pela minha contínua ansiedade com obras ficcionais no geral, algo me moveu a ler esse livro em específico o mais rápido que pude: eu temia o que iria ocorrer, mas estava louca para saber.

Os Noivos do Inverno, o primeiro volume chamado A Passa-Espelhos, é uma história, a princípio, muito confusa. Os detalhes narrativos são muitos e, às vezes, extremamente dispersos, certos momentos tive que reler alguns trechos para ver se tinha deixado ou não um detalhe passar. Como em um espelho, num momento em que buscamos nossas imperfeições, somente nos focando nos detalhes que poderemos encontrá-las. A obra francesa de Dabos funciona exatamente da mesma forma.

Olhar no espelho, dentro desse livro, é ver a si mesmo. Mergulhar nesse espelho, é se aceitar completamente. Essa metáfora a respeito de nos vermos como queremos ao invés de vermos como nós somos soa extremamente natural em um universo como o nosso – e até no deles, inclusive –, em que a aparência importa mais do que o que somos.

O livro inteiro é metafórico e, ao mesmo tempo, muito bem delineado com(o) um universo extremamente bem construído. Em uma distopia, há duas sociedades completamente diferentes da outra, com o utópico comunismo e o capitalismo como bases ideológicas primordiais. Aqui, encontramos uma sociedade sem classes sociais em que todos são primos ou irmãos, chamada Anima, e um lugar como o nosso só que arraigado de magia – e não menos ilusão – nomeado de Polo. Esses dois lugares são regidos por espíritos familiares que contracenam o tempo inteiro, pois a ideologia local se mistura com a personalidade de ambos, por mais que eles apareçam pouco, são extremamente presentes.

Além de um universo bem construído, embora um tanto confuso a princípio, há algo de muito clichê na obra que é a construção dos dois personagens que dão voz ao título: os noivos. Ophélie é extremamente interessante, porém um clichê ambulante, da menina que não sabe nada de dotes femininos e que enreda – minimamente – corações, é extremamente desengonçada, estabanada, ao ponto de quebrar xícaras para cima e para baixo. Ela tem um desenvolvimento bem baixo para a quantidade de situações pelas quais passa no decorrer da trama, devo dizer que passei bastante raiva por causa disso. Creio – e espero – que no próximo volume eu veja mais da personalidade que ela passou a apresentar no final.

Nos estereótipos ambulantes, também temos Thorn, ele é extremamente mal-educado, frio e grosseiro, seguindo a lógica dos personagens durões que não demonstram sentimentos, mas parecem sentir algo pela protagonista no decorrer da trama, vemos pouco a pouco sua raiva e acompanhamos a sua exasperação no desenvolvimento, o que faz dele interessante nos segundos finais do livro.

Confesso que gosto dos clichês, entretanto, eu espero que nos próximos volumes todo o desenvolvimento alcançado, que foi pouco, seja continuado e ainda mais explorado.

Ao contrário dos protagonistas, fiquei encantada com os personagens secundários, mesmo no clichê. Ambas as tias são opostas complementares entre conservadorismo e libertinagem, doçura e maldade, completando uma a outra. A avó é uma caixa de surpresas de qualidade e o Raposa é um brinde e deleite durante a leitura, mas nada é mais metafórico e fantástico do que o Archibald.

Eu disse que esse livro era metafórico, porém, a personificação do livro inteiro está totalmente nesse personagem: Archibald. Ele é um embaixador em um lugar no qual a mentira e a ilusão são portas de entrada, no entanto, nunca mente e suas vestes sempre são puídas, isso porque está sempre tentando denunciar como aquele universo é podre. O fantástico de tudo é que ele é um libertino que está sempre em busca de algo a mais, sem nunca encontrar, porque o que ambiciona é alguém ou a própria verdade. Mas como alcançá-la em um lugar no qual só a mentira tem vez? Entre todos os arquétipos, esse definitivamente é o mais sublime.

Antes de mais nada, devo dizer que embora o título seja “noivos do inverno”, a última coisa que me passou pela cabeça foi romance. Isso porque não há um desenvolvimento romântico, e sim de universo e expansão dele. O livro, embora tenha até um número razoável de páginas, não tem muito desenvolvimento de enredo, poucas coisas acontecem no presente, na verdade, ainda que se diga muito sobre o passado. Logo, o que senti foi uma porta de entrada ou uma leve entrada e estou esperando conhecer mais a partir do prato principal, espero, através do segundo exemplar.

Eu realmente gostei muito desse livro, principalmente porque ele não enfatiza um romance piegas e muito menos em um mundo novo simplesmente, há, na construção desse universo, críticas sociais interessantíssimas, como à desigualdade e à violência contra as classes mais baixas. Há a denúncia através do olhar de quem, propriamente, nunca havia experienciado tal coisa.

Esse livro é mais do que a maioria dos Young Adults pode nos transmitir, embora tenha algumas falhas que precisam ser consertadas no próximo e que necessite urgentemente concluir algum arco ou questionamento (visto que não fez isso com nenhum).

Para concluir, devo dizer que achei primorosa a edição da Editora Morro Branco, o livro tem uma arte de capa bonita e a diagramação não deixa nem um pouco a desejar. Se eu encontrei um erro ou dois, na hora da leitura, foi muito – ou eu estava ansiosa demais, como bem já mencionei. Fiquei extremamente feliz com esse aspecto por meio do qual, pouco a pouco, percebo a melhora gradativa da editora.

Após conhecer as aventuras que o espelho de Noivos do Inverno pode me proporcionar, olhando a superfície do que me foi apresentado, esperarei ansiosa para mergulhar atrás de Ophélie. E espero não me arrepender disso.

 

REFERÊNCIAS

DABOS, Christelle. Noivos do Inverno. A Passa-Espelhos. Volume 1. Tradução de Sofia Soter. São Paulo: Editora Morro Branco, 2018.