RESENHA #63: UMA GUERRA ÀS AVESSAS

AUTORA: Omar El Akkad
SINOPSE: Uma história poderosa sobre um personagem poderoso. Uma distopia na tradição de The Handmaid’s Tale… um romance magnífico e uma heroína que nos mostra uma possível visão do futuro… Esta história não é de guerra. É de ruína. O ano é 2074 quando uma Guerra por combustíveis explode nos Estados Unidos, após uma desastrosa mistura de uma política conservadora e autoritária e a mudança climática ignorada pelos líderes mundiais. Sarat Chestnut, nascida em Louisiana, é só uma menina de seis anos quando o terror da guerra invade a sua casa. Tudo o que a envolve – a disputa pelos combustíveis, a cidade destruída e os drones que voam pelo céu – é um prelúdio para um horror maior: a morte de seu pai e a marcha do que sobrou de sua família para um campo de concentração. Mas é neste lugar, influenciada por um estranho funcionário local, que Sarat se transforma em um instrumento mortal de guerra. Sarat se tornará a peça chave que moldará o futuro do planeta, não sem antes destruir a vida de muitas outras pessoas. Uma guerra americana é a história de uma nação contada por uma perspectiva extremamente particular de uma família, e das emoções e decisões desesperadas que se toma quando a prioridade é sobreviver.

Você luta na guerra com armas, você luta na paz com histórias.

 

As invasões estadunidenses ao Oriente Médio em busca de combustíveis fósseis sempre foram óbvias para qualquer bom entendedor que sabe da ganância por poder, riquezas e petróleo. Se acreditamos em teorias da conspiração ou não, é o menos importante, o que precisamos perceber é: a violência e a brutalidade que os povos de lá vivem e sofrem podem, um dia, vir para cá.

E nós poderíamos julgá-los por contribuir com isso em algum futuro próximo?

A obra ficcional futurística e distópica de Omar El Akkad não lembra nem um pouco a ficção, pois há tanta verdade quanto sofrimento em cada uma de suas palavras cruas, nós podemos sentir na ponta da língua enquanto elas transcorrem diante de nossos olhos.

Inclusive, eu acredito que, antes de tudo, é preciso saber que Uma Guerra Americana é muito mais uma reportagem de um fato não ocorrido – ainda, pelo menos ainda não – do que mera ficção de entretenimento. Isso provavelmente ocorre porque El Akkad é um jornalista de renome antes mesmo de um escritor, já que esse é o seu primeiro romance.

A narrativa aborda como personagem principal Sarat Chestnut, muito embora o narrador seja outra pessoa que somente nas páginas finais descobriremos quem é, uma revelação interessante até.

Contudo, o recurso utilizado pelo autor de voltar ao passado e contar desde o princípio com detalhes minuciosos, por mais que a história seja muito bem elaborada e cheia de aspectos primorosos, torna o livro um pouco maçante, às vezes, confesso que sentia que o tempo na narrativa, por não passar numa medida plausível, estagnava.

O que mais me incomodou, inclusive, nesse aspecto, é que o narrador perde muito mais tempo com a infância feliz – justamente por causa da escolha do autor de mostrar a transição da personagem – do que a sua mudança real e, de fato, a mais chamativa das ações da protagonista. Enquanto gastamos páginas e páginas observando a relação de Sarat com os demais, não temos nem um terço disso com seu aprendizado com Gaines, as atitudes dela em relação a guerra e até os seus momentos presa. Isso, de fato, incomodou um pouco na leitura e fez que ela se arrastasse mais do que o necessário.

Entretanto, eu não posso negar o brilhantismo dessa obra em questão simplesmente porque prefiro mais ficção do que textos jornalísticos – há entrevistas e relatos no final de cada capítulo –, além disso, eu consigo entender os motivos que fizeram o autor encaminhar a narrativa dessa forma e tudo isso é culpa da escolha do narrador e da própria Sarat, que prefere comentar sobre seu passado numa tentativa de justificar a si mesma e suas atitudes do que nos contar as experiências mais complexas.

Além disso, há mais um motivo: o que importa para El Akkad não é de fato os movimentos de Sarat na guerra, mas a sua transição por causa dela. O fato é que a guerra, por mais que tenha táticas e livros incríveis a seu respeito, só nos mostra dor, desastre e perda. Em uma composição magistral de personagem principal, o autor vai encaixando, como num quebra-cabeça, pedaço por pedaço de quem se torna e por que alguém se torna uma arma de guerra, uma terrorista.

Dessa vez, não temos um árabe fazendo o papel de homem bomba, e sim mulheres americanas que se transformam em armas para o governo. Há uma inversão proposital entre o Oriente Médio – que se torna um Império na época da narrativa – e os Estados Unidos (divido em dois), principalmente, na questão política e governamental (o que, em uma fala, o escritor consegue captar muito bem).

Assim sendo, nós podemos perceber o que o autor pretende nos mostrar com a sua obra: nós somos as próprias armas que tememos, somos aqueles que destroem a natureza por um pouco de luxo, destroem o outro por inveja ou ganância, somos seres que, nos piores momentos, cometemos as mais bizarras atrocidades.

Somos um veneno. No entanto, esse não é um veneno natural, de acordo com El Akkad, e sim plantado por aqueles que outrora foram envenenados, em um ciclo sem fim proporcionado pelos vitoriosos ou derrotados de uma guerra anterior. Sempre há uma guerra anterior.

Além da transição de Sarat, podemos observar outros conceitos por detrás do que o autor apresenta como guerra: o mentor suspeito que precisa de armas para destruir seus inimigos; os amores proibidos e escondidos nos fundos dos bares; e as relações familiares que nos sustentam ao ponto de podermos quebrar sem elas. Há muitas mortes e violência no decorrer da obra, no entanto, confesso que, por mais que eu tenha sentido o sofrimento dos personagens, eu não compartilhei da mesma sensação, isso se deve à escrita que não nos deixa submersos, justamente pela secura da narração e a tentativa muito maior de nos abrir os olhos, um aspecto claro da profissão original do autor.

Entre os muitos pontos possíveis a serem explorados e examinados dentro de Uma Guerra Americana, na minha percepção, há um não só interessante como também marcante: a escolha do autor pelo estereótipo de personagem mais rejeitado do mundo. Sarat muda muita coisa, no entanto, poucos acreditariam em sua capacidade por ser mulher, negra, órfã e homossexual. Ela consegue englobar todas as características de minorias, ao lado de uma aparência sempre caracterizada como inferior à de sua irmã gêmea, que nasceu com o cabelo liso e a pele mais clara.

Entretanto, por mais que eu goste da composição e da inclusão de tantos detalhes que a rebaixariam no nosso cotidiano preconceituoso – ainda que na obra e na vida isso a eleve –, confesso que detesto a demarcação de que uma mulher por não ser feminina, deve ser necessariamente lésbica. Eu, de fato, não consigo entender o motivo pelo qual a masculinidade sempre está atrelada quando vemos uma mulher como sinônimo de força e poder, principalmente, quando abordamos assuntos de guerra. Ademais, a própria aparência de Sarat, maior do que a maioria dos homens em altura, dá a entender a mesma coisa, soma-se assim a ideia de que o autor parecia querer fazer um menino como protagonista e não, uma menina. Isso, definitivamente, incomodou a mim um pouco.

Contudo, mesmo assim, a obra continua sendo primorosa em construção narrativa, de personagens e tudo que uma boa história de guerra pode nos oferecer, pois nos ensina uma importante lição política:

Em momentos de paz, são as histórias que nos contam que moldam o nosso destino, marcando-o para sempre e sem nunca parar, como um rio que nunca percorre duas vezes o mesmo lugar.    

 

REFERÊNCIAS  

AKKAD, Omar El. Uma Guerra Americana. Tradução de Érico Assis. 1ª ed. Rio de Janeiro: Haper Collins, 2018.