RESENHA #61: O AMOR NÃO É CEGO

 

AUTORA: Leisa Rayven

SINOPSE: Os casais mais sexy, hilários e apaixonantes de Leisa Rayven estão de volta em três contos inesquecíveis: Cassie e Ethan estão noivos e apaixonados como nunca. Eles estão indo passar o Natal na casa dos Holt e, apesar de Cassie insistir em cozinhar para a ocasião, todo o resto parece perfeito. Isso até que um fantasma do passado regressa para fazê-los questionar: o amor deles é mesmo maior do que tudo?

Elissa e Liam estão há meses sem se ver, cada um trabalhando em um canto do mundo. Mas Liam está preparando uma surpresa incrível (e sexy!) para sua noiva. Eles vão partir em uma viagem de férias, mas Elissa ainda não sabe o destino. Chegando lá, os dois terão muito mais surpresas do que esperavam… 

Josh e Angel também estão longe um do outro por causa do trabalho, e ele não sabe lidar com o ciúme de vê-la contracenando com outro homem. Sua insegurança faz com que Josh invista mais em seu corpo, e ele exibirá sua nova aparência na épica festa à fantasia de Ano-Novo de Marco, onde estará todo o pessoal da Grove. Até a meia-noite chegar, ele perceberá, vestido de super-herói, que tem superpoderes que nem imaginava.

Você é meu primeiro amor, meu último amor e todos os meus amores entre um e outro.

 

Por mais ingênuo que possa soar, eu realmente acredito no amor como um digno vencedor de batalhas. Não obstante a vida e seus diversos obstáculos, continuo a enxergar uma realidade na qual é possível escolher amar e ser amado. Sigo crendo em um sentimento que é capaz não de curar por si só, mas de prover a esperança que permita a alguém lutar – uma perspectiva de algo para além do que dói e do que fere. Justamente por todas essas coisas, eu ainda sou apaixonada pelas histórias românticas; e, das autoras do gênero, Leisa Rayven vem se provando como uma das minhas favoritas.

No Brasil, a última de suas publicações foi Histórias de Meu Romeu. Composto por três histórias diferentes, mas interligadas, a nova obra de Leisa é, na verdade, um reencontro com nossos casais favoritos, apresentados na trilogia Starcrossed (Meu Romeu; Minha Julieta; e Coração Perverso). Inclusive, o livro foi lançado justamente como um spin off da trilogia.

Embora a editora tenha optado por chamar cada uma dessas histórias de “conto”, eu considero que, por sua extensão e escrita, elas são antes novelas do que, de fato, contos; por isso, é como tal que as tratarei. Quando optar pela classificação da editora, utilizarei aspas.

Cronologicamente, a parte um, correspondente à primeira novela, situa-se pouco antes do casamento de Cassie e Ethan, o casal protagonista do primeiro livro, Meu Romeu, e de sua sequência, Minha Julieta. Já as partes dois e três, que correspondem às outras duas novelas, transcorrem logo após os acontecimentos de Coração Perverso, com Liam e Liss já juntos, assim como Josh e Angel, ambos casais formados ao longo do livro de conclusão da trilogia.

Na primeira história, “Desejos de Natal”, reencontramos Cassandra e Ethan, apaixonados e entregues como nunca, vivendo o relacionamento com o qual sempre sonharam e que fora adiado por seis anos. Não conseguem enxergar um tempo em que foram mais felizes.

Tudo corria bem, o Natal estava chegando e, exceto pela perspectiva de precisar comer a caçarola de feijão verde tóxica de Cassie, Ethan não tinha do que reclamar. No entanto, durante uma tarde de compras, ele reencontra uma pessoa cujo rosto gostaria de jamais rever. E, se ele não a queria por perto, Cassie preferia que ela jamais tivesse existido. Agora, o casal precisará lutar contra suas mais íntimas inseguranças, desfazendo as últimas barreiras que os separa da felicidade sólida e completa.

Embora não tenha sido a minha história favorita do livro, Cassie e Ethan moram em um cantinho especial no meu coração. O caminho que tiveram de enfrentar até ficarem juntos foi longo e, por vezes, doloroso. Na altura dos acontecimentos de “Desejos de Natal”, ambos já estão em tratamento psicológico com a Dra. Kate há bastante tempo. Justamente por isso, achei que, apesar de se tratar de um spin off, o livro é, de alguma forma, essencial para o desenvolvimento do relacionamento dos dois. Explico.

Muitas vezes, a psicologia é apresentada como a solução dos problemas. Bom, todos que já tiveram a oportunidade de passar pelo processo da terapia sabem que isso não é verdade. Lidar com quaisquer problemas é uma luta diária. Nesse sentido, o “conto” é um claro exemplo, pois nela vemos uma Cassie e um Ethan que, a despeito de toda a evolução, ainda possuem seus próprios demônios; e, a despeito de todo caminho andado, ainda têm bastante chão a percorrer – mas, agora, juntos.

Além disso, a novela representa a finalização de um ciclo iniciado ainda na adolescência de Ethan. Quem já teve a oportunidade de ler Meu Romeu e Minha Julieta, deve saber exatamente de qual grande questão estou falando. Pois bem, nosso bad romeo finalmente tem a chance de confrontar o maior de seus traumas frente a frente, e isso é essencial para o estreitamento dos laços que o unem a Cassie.

Na segunda história, “A Lista de Safadezas”, conhecemos um lado de Liam – e, principalmente, de Elissa – sobre o qual não fazíamos a menor ideia. Separados há meses por causa de uma gravação que o nosso famoso ator está filmando na Mongólia, eles mal podem esperar para se reencontrarem em uma romântica – e proibida para menores de 18 anos – viagem. O destino? O sr. Quinn se recusa a revelar e, graças a esse suspense, Liss quer matá-lo e beijá-lo ao mesmo tempo.

Com a promessa de paz e sossego, parece que nada pode dar errado. Sem fotógrafos, sem escândalos, sem perseguições. Apenas um casal normal curtindo férias normais, até que um pequeno acesso de cabeça-quente pode botar tudo a perder.

A segunda novela é, na minha opinião, o ponto mais fraco do livro. No entanto, ainda assim, eu gostei bastante dela porque toca um ponto essencial dentro de um relacionamento saudável: a importância do consentimento. Independente das decisões que Liam e Lissa tomem, eles sempre levam em consideração a vontade de ambos, e eu acho isso essencial. Pode parecer exagero da minha parte, mas digo isso porque, na minha experiência lendo romances adultos, não é raro encontrar livros nos quais o relacionamento retratado era completamente abusivo. Aliás, tive essa desagradável surpresa até mesmo com Young Adults, que são destinados a um público mais jovem – portanto, com opiniões e personalidade ainda em processo de formação –, representando um perigo ainda maior.

Durante o “conto” todo, houve apenas uma cena que foi em direção contrária a esse princípio e que, por isso, incomodou-me bastante. Apesar de ter procurado relevá-la, sinto-me na obrigação de dizer que ela está presente. Não creio que ela configure um gatilho em qualquer sentido, no entanto, ainda assim deixo ressaltado que pode incomodar algumas pessoas durante a leitura.

Outro aspecto que me agradou foi o tratamento (bastante realista) de como é namorar alguém famoso. As decisões profissionais afetam a vida pessoal, mas muitas vezes há um descuido em relação à forma como isso é abordado nas histórias. Nesse sentido, Leisa trabalhou bem o inferno que pode ser estar sob os holofotes o tempo todo. É claro que, para alguns, talvez a repercussão e o comportamento do casal frente aos fatos possa soar “amenizada”. Contudo, acho que já representa um passo grande em relação à necessidade de ver “o outro lado da fama”.

Na última parte, reencontramos Josh e Angel. Essa novela foi, de longe, a minha favorita. A começar pelo fato de que, pela primeira vez, temos nosso nerd favorito como narrador ao longo de todos os acontecimentos. É uma oportunidade única de enxergar dentro de sua mente e conhecer suas maiores inseguranças.

A história se passa na noite do dia 31 de dezembro, começando com Josh se arrumando para a festa de virada do ano. Marco decidiu dar uma festa a fantasia. Em qualquer ano anterior, Josh se vestiria de Capitão Kirk e tudo estaria resolvido; porém, nesse ano, ele decidiu que era sua chance de tentar algo novo. Não só porque ele vinha malhando, não só porque estava com medo de Angel deixá-lo, mas porque se sentia diferente. Sentia que merecia ser super uma vez na vida.

Para mim, essa história foi sensacional, porque além de trabalhar questões importantíssimas como ciúme destrutivo, a importância de confiar em si e no outro, a essencialidade do diálogo em uma relação, ainda é uma lição a respeito de segundas chances e recomeços – e sobre como, às vezes, o caminho para ser feliz é, simplesmente, seguir em frente. Acima de tudo, é uma oportunidade única de reencontrar personagens que conhecemos ao longo dos três romances e que, até então, não tinham conseguido seus finais felizes.

O ponto fraco do livro todo, na minha opinião, fica no exagero do que chamarei de “linguagem erótica”. Ao longo das novelas, há uma insistência excessiva em relação ao sexo. Sempre que se faz referência ao amor, há logo em seguida um comentário a respeito da necessidade, da urgência, da consumação do ato sexual. Embora eu tenha plena consciência de que essa é uma parte integrante – e saudável – das relações, a insistência no tópico faz parecer, em alguns momentos, que esse é o único motivo pelo qual os casais estão juntos. Faz parecer que amar é desejar, ponto. Todos sabemos – ou deveríamos – que o que une duas ou mais pessoas em um relacionamento é algo além da atração, envolve carinho, respeito e, acima de tudo, amizade. No sentido de trabalhar esse último aspecto, senti que a autora de Histórias de Meu Romeu se perdeu um pouco.

Não obstante esse ponto e, também, a cena presente na segunda história, o livro é uma oportunidade de rever mais uma vez os personagens que já conhecemos tão bem, de deixar-se cativar por seus relacionamentos, de ver novos casais se formando… Enfim, de (re)conhecer o amor de perto. Por se tratar do último livro de uma quadrilogia, é claro que ele será mais especial para aqueles que já conhecem os casais. Além disso, há questões que só farão sentido para quem acompanhou as suas trajetórias.

No entanto, há uma reflexão apresentada ao longo do livro que, para mim, é a que mais faz o todo valer à pena: O amor não é cego. Na verdade, ele

 

Faz com que você enxergue as pessoas com clareza perfeita e cristalina. Não torna os defeitos invisíveis. E, sim, pinta tudo em alta definição 3-D e exige que você os ame assim mesmo.

 

E essa é uma verdade que vai para muito além das páginas que compõem esse livro.

 

REFERÊNCIAS

RAYVEN, Leisa. Histórias de Meu Romeu. Rio de Janeiro: Globo Alt, 2017.