RESENHA #60: À VIOLÊNCIA EM CONTOS

AUTORA: Mariana Enriquez
SINOPSE: Macabro, perturbador e emocionante, As coisas que perdemos no fogo reúne contos que usam o medo e o terror para explorar várias dimensões da vida contemporânea. Em um primeiro olhar, as doze narrativas do livro parecem surreais. No entanto, depois de poucas frases, elas se mostram estranhamente familiares: é o cotidiano transformado em pesadelo.

A violência se abateu no mundo. Ou o mundo foi sempre tão cheio de violência? O livro de Mariana Enriquez, escritora e jornalista argentina, fala exatamente sobre esse aspecto do mundo civilizado, ruralizado e fantástico: a violência que coabita com o que somos e com o que vemos o tempo todo.

Confesso que ao contrário da maioria dos críticos, por mais que eu compreendesse as críticas de Enriquez, por mais que o texto fosse denso e a leitura fosse fluida, esse foi um livro que – infelizmente – não me surpreendeu e nem me deixou empolgada ou agoniada, foi um livro de crítica social bom, que, sem demagogia, demonstrou como a violência nos cerca, seja ela de cunho fantástico, da natureza humana ou não; mostrou como a figura feminina é vista e rebaixada, como se fosse submissa, frágil ou inclinada à aceitação a violência – enquanto a obra apresenta, definitivamente, o contrário. No entanto, ainda assim foi um livro bom, nem ruim e nem maravilhoso. Simplesmente, um livro bom.

É uma leitura que vale a pena, no entanto, na minha concepção, o primeiro conto teve justamente o que faltou no resto de toda a coletânea (até o último conto retomá-lo), o pouco de mistério e sobrenatural necessários à medida de King, com uma pitada bem maior de crítica social e terror psicológico de Bolaño e o final arrebatador de Cortázar, que nos deixa ansiosos e, ao mesmo tempo, curiosos. Confesso que o conto O menino sujo foi realmente muito bom, fazendo com que todas as minhas expectativas acerca do conjunto subissem muito e, talvez, o meu problema para com o livro tenha sido justamente esse: esperar mais do que ele podia me proporcionar justamente pelo posicionamento das narrativas.

É um livro que não cansa, a escrita é leve – por mais que a temática seja densa – e pode te prender por horas nas linhas que vão te instigando mais ou menos. Há uma concepção e estudo históricos muito bem elaborados, demonstrando o lado jornalístico da autora, que vão de acordo com a realidade argentina e representam-na muito mais do que os pontos turísticos, o que combina muito com a composição de A Vida Secreta de Londres, organizado por Zarate, também argentino.

A coletânea conta com doze contos que, pouco a pouco, mesclam realidade e fantasia, sobrenatural e natural, fugindo do mero entretenimento e permeando sempre a reflexão acerca da sociedade, de como nos tratamos, de como somos tratados e de que forma essa mescla afeta a nossa vida, principalmente, de que forma essa mescla se torna violência.

Entre os doze contos, somente um é narrado por uma figura masculina, enfatizando um assassino e eu me questionei se esse posicionamento não era proposital, justamente porque todos os personagens masculinos da autora sempre caminham para a violência, pouco a pouco, sejam eles subordinados a ela ou praticantes e, a maioria representam os que praticam, uma tentativa símile da realidade.

Os personagens masculinos, ainda que tenham sido tratados com aspectos vilanescos ou rudes demais dentro das narrativas, os poucos que possuem foco, possuem caracterizações muito densas e repletas de camadas, como as mulheres e crianças (meninos ou meninas) apresentadas. Contudo, ainda assim, senti falta de uma harmonização, pareceu-me muito que ela retratava mais problemas pessoais em relação a relacionamentos frustrados do que possíveis relações saudáveis que passam por problemas cabíveis de serem contornados. Nenhum relacionamento apresentado na obra era saudável e isso me soou, mesmo no meio da turbulência, do caos e do terror apresentado, inverossímil. Sei que é uma escolha plausível e também possível da autora, até porque é uma coletânea centrada na violência, principalmente, a sofrida pelas figuras frágeis da sociedade (crianças e mulheres), mas ainda assim, soou-me incoerente porque uma das coisas que mais tememos é perdermos quem amamos e, em todos os relacionamentos apresentados, não há isso.

Entre o primeiro e o décimo segundo, há um abismo entre contos bons, regulares e, na minha humilde opinião, descartáveis, mesmo que todos eles apresentem críticas boas e realmente válidas. O último foi, aliado ao primeiro, um dos contos mais interessantes da coletânea, isso porque faz uma associação direta com a história da figura feminina no mundo e como as mulheres são tratadas e vistas no presente, associando a fogueira, a bruxaria e como fomos reduzidas a cinzas.

Sem sombra de dúvida, mesmo que eu tenha preferido o primeiro conto, é a melhor crítica do livro. Porque As coisas que perdemos no fogo, conto homônimo do livro, é um conto – como toda a obra – que mostra a nossa realidade como mulheres que constantemente são simbolizadas pela perda e pelo fogo. A ideia, ao que me parece, é associar a perda sofrida por tanto tempo (seja através da aparência pelo tempo; das oportunidades pela família; do trabalho pelos filhos; da liberdade pelos romances) e como renascemos e nos purificamos, caso nós mesmas nos joguemos no fogo ou joguemos aquilo que nos prende, faz com que nos percamos.

Perder as coisas no fogo não quer dizer algo ruim, nem que deva ser algo obrigatório. Só que, infelizmente, faz parte de ser mulher.

 

REFERÊNCIAS

ENRIQUEZ, Mariana. As coisas que perdemos no fogo. Tradução de José Geraldo Couto. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2017.