RESENHA #59: LEAH EM SEMITOM

AUTORA: Becky Albertalli

SINOPSE: Leah odeia demonstrações públicas de afeto. Odeia clichês adolescentes. Odeia quem odeia Harry Potter. Odeia o novo namorado da mãe. Odeia pessoas fofas e felizes. Ela odeia muitas coisas e não tem o menor problema em expor suas opiniões. Mas, ultimamente, ela tem se sentido estranha, como se algo em sua vida estivesse fora de sintonia. No último ano do colégio, em poucas semanas vai ter que se despedir dos amigos, da mãe, da banda em que toca bateria, de tudo que conhece. E, para completar, seus amigos não fazem ideia de que ela pode estar apaixonada por alguém que até então odiava, uma garota que não sai de sua cabeça. Nesta sequência do sucesso Com amor, Simon, vamos mergulhar na vida e nas dúvidas da melhor amiga de Simon Spier. Em um livro só dela, mas com participações mais do que especiais dos personagens do primeiro livro, vamos acompanhar Leah em sua luta para se encontrar e saber com quem dividir suas verdades e seus sentimentos mais profundos.

Você quer ser a melhor. E tem que parar com isso. Tem que abraçar o fracasso e deixar suas entranhas se acostumarem um pouco com ele.

 

Eu gosto da Leah porque ela tem coragem de desgostar de si mesma. Pode parecer uma forma estranha de se começar a elogiar um livro, considerando-se que o amor próprio é, em teoria, o princípio de qualquer vida feliz; mas Leah não está feliz, assim como grande de parte de nós. Isso a torna tangível.

Quando o novo livro de Albertalli chegou às minhas mãos, sou obrigada a confessar que não dei muito por ele. Por mais que tenha enxergado pontos positivos em Com amor, Simon (e tenha dado alguns suspiros com Simon e Bram), em momento nenhum escondi que ele, nem de longe, tornou-se um dos meus livros favoritos, por isso, quando a parceria com a livraria Leitura me trouxe Leah fora de sintonia, eu não esperava tanto. Eu não esperava Leah.

Antes de falar sobre os acontecimentos em si, no entanto, quero destacar um ponto que me fez querer abraçar Becky: como a escrita da autora evoluiu! Nada de frases truncadas ou excesso de repetições, em lugar disso, temos observações divertidas e comparações dignas de vários post-its. Não sei se isso é apenas consequência de ser Leah a narradora da vez ou se será algo que permanecerá nos próximos projetos da escritora, porém, nesse livro, essas mudanças facilitam enormemente a leitura, tornando-a fluida e fazendo com que, durante ela, o tempo pareça não passar – ou, quem sabe, passar rápido demais.

Com relação ao enredo, algo curioso acontece: não parece ser uma história com uma protagonista, porque isso pressuporia uma personagem central em torno da qual a trama gira, Leah é o contrário: ela orbita os acontecimentos. As coisas acontecem com ela, mas ela não acontece com as coisas. Praticamente todas as decisões e viradas de enredo, exceto o final, são creditadas a outras pessoas. Leah existe da plateia. Ela assiste à vida como se estivesse de fora. Fora de sintonia.

Não raro, vi esse aspecto ser apontado como um dos maiores defeitos do livro, como se, por ela ser apática, não houvesse um enredo. Mas há. O mais engraçado é que, na vida real, não é raro fazermos com a nossa existência o que Leah faz com a dela. Aceitar. Revoltar-se, mas não agir. Quantos de nós não se acomoda, simplesmente, reclamando por mudanças, mas estacando diante da chance de realizá-las?

No entanto, a quem está me lendo, não se engane: Leah tem seus grandes momentos. Instantes em que sua frequência e a do resto do mundo entram em sintonia perfeita, são nesses espaços que ela consegue dizer a coisa certa no momento certo. E, claro, há outros em que ela fracassa miseravelmente, como todo ser humano. Acertar e falhar, sentir-se sozinho e amado, são opostos que, na vida, se atraem – e Leah os sintetiza em si.

Com isso, não estou querendo dizer que o livro de Albertalli não tem defeitos. Há momentos e, principalmente, diálogos, que Becky parece ter acrescentado à história com o único propósito de aproximar seu livro da atualidade e seus leitores, mas que, no entanto, acabam por soar deslocados do restante da história, não desempenhando função alguma no restante do enredo. Por isso, a meu ver, acaba por ser um esforço desnecessário, pois o livro, por si só, pela história que conta, já cumpre esse propósito de aproximação, sem necessitar dessas “informações apêndice”.

Além disso, há um segundo aspecto que é, ao mesmo tempo, um defeito em uma das grandes qualidades. Existem momentos no livro cujo único objetivo parece ser nos dar vislumbres de Bram e Simon. Como uma das maiores fãs do casal, é óbvio que eu amei. Fiquei ávida pelo casamento, inclusive (quem sabe um dia, Becky?). No entanto, esses momentos são apenas “enchimentos” de enredo. Então, a depender da pessoa, podem soar como páginas “perdidas”. Eu, por minha vez, escolho abraçá-los porque realmente, realmente morri de saudade desses dois.

Por fim, senti falta de uma resolução mais digna para alguns personagens. Não sei se eles vão ganhar seus próprios livros um dia (um certo casal novo merecia e muito, aliás), mas senti que o desfecho, depois que Leah encontrou seu final feliz, tornou-se um mero encaixar forçado de peças sobressalentes. Precisava-se de um final, então deu-se um.

Como eu disse, Leah fora de sintonia encanta porque tem um quê de realidade. A vida não é uma foto de Instagram com filtros e uma beleza congelada. Ela é real, tem suas dores, omissões e grandes desafios. Leah é uma das possíveis representações disso. Aceitar-se como é não significa se amar o tempo todo. Desgostar de si mesma também é um ato de coragem, desde que isso não signifique subtrair-se do mundo. Desde que isso não signifique odiar-se o tempo todo. E eu acho que esse livro é um pouco sobre isso. Sobre aprender um meio-termo – ou um semitom.

E, claro, sobre amar e ser amado. Aliás, que casal!

Não falei muito sobre o romance porque ele é uma maravilha a parte. Então só o que posso dizer é que Leah fora de sintonia faz questão de nos relembrar que o B, em LGBTQ+, certamente não significa bolo.

Na verdade, para Leah, Beijar uma garota linda talvez também seja um bom significado.

 

REFERÊNCIA

ALBERTALLI, B. Leah fora de sintonia. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2018.