RESENHA #58: À SAUDADE DO INESPERADO

 

AUTORA: Heidi Heilig
SINOPSE: Nix é uma viajante do tempo. Ela e seu pai, Slate, velejam a bordo do Temptation, um navio pirata repleto de tesouros. Ao longo do caminho eles encontram amigos, uma tripulação de refugiados do tempo e até mesmo um charmoso ladrão que pode significar muito mais para Nix. Tudo que Slate precisa é um mapa certo para viajar a qualquer tempo e lugar, real ou imaginário: seja para a China no século 19; terras vindas direto das Mil e Uma Noites ou até mesmo uma mítica versão da África. Apesar das inúmeras possibilidades, o pai de Nix está obcecado com um mapa específico: Honolulu, 1868 – o ano de nascimento de Nix e a última vez em que ele viu sua esposa viva. E, por uma chance de reencontrá-la mais uma vez, Slate está disposto a sacrificar a tudo e a todos. Quando o desejado mapa aparece, Nix vê sua própria existência em perigo e agora deve descobrir o que quer, quem é, e aonde realmente pertence, antes que seu tempo acabe. Para sempre.

Saber que alguma coisa tem fim… facilita o recomeço. Não quero ficar presa à saudade de alguma coisa que eu não esperava perder.

 

Deveríamos estar preparados para as perdas, porque a única certeza que temos na vida é de que iremos ou veremos alguém importante morrer. Contudo, é a única coisa para a qual nunca nos preparamos.

The girl from everywhere é uma narrativa que aborda a perda em inúmeros sentidos – e foi muito interessante observar que em todas as resenhas que li, não havia nenhum comentário a respeito desse ponto tão importante e específico da narrativa que, para mim, foi o centro de tudo, do início ao fim.

A história fala como a perda arruinou “tudo o que poderia ser, mas não” foi para família de Nix, a protagonista da narrativa. Órfã por parte de mãe, a menina vê seu pai – ano após ano – definhando pela perda de sua amada, com a qual nem sequer pôde casar, que morreu ao dar luz a sua filha. No entanto, ao contrário de tantos outros pais da literatura que passam pelo mesmo processo, Slate tem uma possível solução para os seus problemas.

Ele é um navegador do tempo, logo, ele pode retornar ao passado e tentar salvá-la para construir uma família, no Havaí, com a mulher da sua vida e sua preciosa filha, dando a esta o que ela nunca teve: estabilidade, uma família feliz e, como ele próprio comenta, um pai melhor.

Nesse processo, há uma perda contínua que vai e volta: a própria figura paterna. O interessante dessa narrativa cheia de perdas é que literalmente todos os personagens perderam algo, deixando um vazio que precisam preencher. Nix, por exemplo, constantemente perde o elo com seu pai por conta de seu vício e sua obsessão. Enquanto ele quer dar o melhor para ela com um objetivo abstrato em mente, a única coisa de que a menina gostaria era da presença dele no aqui e no agora.

No entanto, divididos entre pontos de vistas diferentes, vemos os personagens se encaminharem por uma aventura que nunca acaba, porque nunca alcança o fim – até que um mapa da época certa e do lugar certo aparece. Mas como toda boa aventura, não é tão simples assim, mesmo que, para eles, tenham se passado tempo demais.

Outros personagens também coabitam com perdas que alcançam o leitor, mas não o emocionam necessariamente, isso porque a autora não focou em mostrá-los, mesmo que sejam parte essencial da família de Nix. Bee e Rotgut, duas pessoas também perdidas no tempo e parte da tripulação de Slate, também tiveram suas perdas e tudo isso é retratado no livro, porém, a pouca força dos personagens se deve ao toque excessivo por parte da autora nas relações amorosas da protagonista.

Eu confesso que, particularmente, não suporto triângulos amorosos, porque – geralmente – isso não acontece na vida real. Quando gostamos de uma pessoa, raras vezes gostamos de outra na mesma proporção para termos nossas dúvidas, ainda mais quando esse alguém é tão importante quanto respirar.

No entanto, ocorre algo muito interessante nesse livro. Mesmo que haja um exagero de cenas – ainda que claramente dê para perceber que não é a ênfase da narrativa, pois ela é voltada para a relação de Nix e Slate – românticas entre a protagonista e Kashmir; e entre ela e Blake Hart, há uma explicação de porquê isso acontece.

Esse foi um ponto que me interessou muito, ainda que tenha me incomodado também já que essas cenas poderiam ser reduzidas ou cortadas. Digo isso porque é nítido que ela não nutre um sentimento romântico por um deles, mas uma força que a atrai para a possibilidade.

Quando vivemos em mudança constante e não nos sentimos pertencendo a nenhum lugar, acredito que desejemos essa estabilidade comum. Nós somos seres humanos, nós somos seres rotineiros, precisamos de uma rotina e entender o nosso mundo – o que nos cerca –; e um deles é capaz de demonstrar o que poderia ser e não foi, algo que o pai de Nix almeja tanto, e esse é o ponto tocante desse triângulo amoroso: não é o sentimento dela por uma pessoa, mas é o desejo de pertencimento que aquela pessoa evoca a um lugar que, por coincidência, se as viagens no Temptation não ocorressem, ela deveria estar.

 Acho que, por esse motivo, vale dar um desconto para a autora quanto ao exagero de cenas românticas, porque – muitas delas – realmente estão dizendo alguma coisa, mesmo que seja um mero sussurro. Contudo, isso não me impede nem um pouco de preferir possíveis aventuras que poderiam ter preenchido as páginas, mas não o fizeram. Como, por exemplo, a viagem que fizeram ao Mil e Uma Noites, que ocorreu antes do início da história – que é divulgada como parte da sinopse e deixa a desejar. Essa realmente foi uma das minhas decepções com a obra, por isso, não espere essa viagem porque ela não acontece.

 Mesmo com alguns personagens importantes, Bee e Rotgut, pouco aparecendo, todos eles são bem construídos e muito marcantes. O desenvolvimento de cada um deles é bem sólido e todos os seus traumas, medos e crenças são muito bem encaixados; o último ponto sendo o mais desafiador entre eles porque todos pertencem a lugares completamente diferentes uns dos outros e todos eles possuem lendas e ideologias próprias. Como é uma duologia, eu espero que a autora trabalhe melhor esse aspecto, dos personagens esquecidos, no segundo volume.

Em contrapartida, um dos melhores elogios que posso dar a obra é o brilhantismo narrativo de encaixar veracidade, ficção e linearidade temporal. A autora soube muito bem alocar as viagens no tempo, sem errar na formulação, e modular os tempos históricos ao seu favor, pois misturou as lendas e mitos – principalmente havaianos, o que é uma raridade e outro ganho da trama – com acontecimentos históricos (verídicos, isso mesmo). Ela realmente conseguiu ministrar esse detalhamento tão bem que, por ele, vale a pena ler o livro e buscar a continuação.

O único problema é que a edição da Morro Branco, editora que trouxe a narrativa de Heidi Heilig para o Brasil, ainda que possua uma diagramação bonita e uma capa bem mais interessante do que a original, na minha concepção, pecou muito na revisão, pois é possível encontrar diversos erros de português e de digitação no decorrer da leitura. Inclusive, fiquei interessada em buscar o livro na língua original, porque a escrita, por vezes, pareceu truncada e pouco fluída – confesso não ter certeza se é algo pertencente à escrita original.

Numa conclusão geral, acredito que essa é uma trama que poderia – tanto quanto a história da protagonista – ter sido algo muito diferente, sendo ou não mais interessante do que foi apresentado, porém, o que existe aqui é o que pode trazer a saudade do que não se espera perder e é sobre essa saudade e esse pertencimento que o valor filosófico da trama ganha tom.

Um tom agridoce, como o próprio amor que a saudade evoca.

 

REFERÊNCIAS 

HEILIG, Heidi. O Mapa do Tempo. The Girl From Everywhere. Tradução de Débora Isodoro. 1ª edição. São Paulo: Editora Morro Branco, 2017.