RESENHA #57: UM LIVRO DOCE E AMARGO

 

AUTORA: Nina George
SINOPSE: Uma história emocionante sobre amor, perda e o poder dos livros. O livreiro parisiense Jean Perdu sabe exatamente que livro cada cliente deve ler para amenizar os sofrimentos da alma. Em seu barco-livraria, ele vende romances como se fossem remédios. Infelizmente, o único sofrimento que não consegue curar é o seu: a desilusão amorosa que o atormenta há 21 anos, desde que a bela Manon partiu enquanto ele dormia. Tudo o que ela deixou foi uma carta — que Perdu não teve coragem de ler. Até que em um determinado verão, tudo muda e Monsieur Perdu abandona a casa e a embarca em uma jornada que o levará ao coração da Provence e de volta ao mundo dos vivos. Sucesso de público e crítica, repleto de momentos deliciosos e salpicado com uma boa dose de aventura, A livraria mágica de Paris é uma carta de amor aos livros — perfeito para quem acredita no poder que as histórias têm de influenciar nossas vidas.

Eu vendo livros como remédio. Existem livros que servem para um milhão de pessoas; outros, para uma centena apenas. Há até remédios, pardon, livros que são escritos para uma única pessoa.

 

Há livros e livros; a verdade é que ninguém sabe a fórmula certa para o sucesso literário, nem sobre como trazer qualidade e nem se a performance do texto é ideal (embora, como escritores, tentemos sempre; como leitores, queiramos todo o tempo). Às vezes, um livro é amado por todos e você, em seu universo, não consegue apreciá-lo e nem sequer compreende como as pessoas gostam/amam/idolatram. Em mesma medida, existe aquela história que te encanta, e ninguém dá o mesmo valor. No decorrer de nossas leituras podemos tanto quanto passamos por essa experiência, como encontramos livros e livros que nos preenchem, esvaziam, completam, lotam e até extrapolam.

Em minha realidade, encontrei um livro que é tão doce quanto açúcar, mas, ao mesmo tempo, amargo como cacau. Como todo saboroso chocolate, ele parece ser a medida certa dos meus gostos, muito embora seu foco seja medido entre o romance e o arrependimento, principalmente. Ele é um remédio para aqueles que precisam se curar dos temores; talvez, dos temores mais profundos: o arrependimento de não tentar, o arrependimento de errar e, principalmente, o arrependimento por desejar esquecer aquilo que jamais será esquecido. A vida é repleta de falhas, cada ato gera ação e a ação gera o momento – que pode ser perdido.

E são nos momentos que poderiam ser e que não foram – como exclama a poesia – que esse livro foca.

A história gira entorno de Jean Perdu, um homem na casa dos cinquenta anos que vivia de vender livros, no entanto, seu ofício não era comum como dos bibliotecários/livreiros que conhecemos durante nossa vida: ele vendia livros, em seu barco-livraria, como um farmacêutico vende remédios.

Durante a história, e para Perdu, percebemos a importância da literatura, tão importante quanto os remédios são para o corpo, as histórias contidas nos livros são o bálsamo de salvação para a alma. Para a alma certa. No momento necessário. Logo, ele ficou conhecido como o farmacêutico literário e seu barco, como Farmácia Literária.

Contudo, embora o livreiro amenize e cure a alma de seus compradores, ele mesmo não tem essa sorte. Existe um sofrimento que não consegue esquecer, curar: a mulher que amava, vinte anos antes, deixou-o de repente. O que restava dos dois, perdeu-se dentro de um quarto que Perdu fez questão de trancar, a porta coberta por estantes de livros.

O que restou dela foi uma carta. Essa carta que não havia sido lida, ao menos, até aquele verão. A coragem que nunca teve para ler a carta foi substituída pelo incentivo (pressão) de sua mais nova vizinha, presa em traumas amorosos como o próprio protagonista. E, para viver um possível novo amor, Perdu teria de enfrentar o seu amor mais antigo.

O amor por *****; o amor por ele mesmo.

 

Nós podemos decidir amar. Não podemos fazer ninguém nos amar. Não há receita. Há apenas o amor. E nós estamos a sua mercê. Não podemos fazer nada.

 

A história parece ser voltada somente para o romance, mas não é tão simples assim. Perdu sairá em uma aventura junto a um escritor que perdeu a sua Musa, inspiradora de poetas, e encontrará mais de si mesmo no caminho. Como companhias de novos amigos, por exemplo. Como também buscará o misterioso autor do livro que tanto ele ama e ninguém sabe a quem pertence. Como, inclusive, perderá a si mesmo.

Às vezes, a trama fica um pouco cansativa, porém é visível a necessidade desses pequenos percalços que Perdu precisa enfrentar. Ele cai e levanta, perde-se e encontra-se, arrepende-se e apaixona-se. Se eu pudesse dizer sobre o que é essa história com clareza, eu diria que é sobre a vida. A vida de arrependimentos. Uma vida que é perdida e, mesmo que pareça tarde demais, encontrada. Essa história parece ser um fio de esperança e, ainda assim, um aviso.

Não é um best-seller teen, nem mesmo um best-seller comum que se encontra por aí. É um livro denso em certos momentos com a escrita leve, existem citações deliciosas no decorrer do texto e, inclusive, algumas delas são de autoria do livreiro farmacêutico. Existem personagens carismáticos e que se encontram e se perdem. Existem algumas cenas que se tornam cômicas e outras que arrasam o coração.

É um livro para se ler de mente aberta e para mudar o leitor. Você como pessoa; você como leitor. Os amantes de literatura – espero – irão encontrar um espacinho a ser preenchido. 

 

Ler é uma viagem sem fim. Uma viagem longa, até mesmo eterna, na qual nos tornamos mais brandos, mais carinhos e mais humanos.

 

REFERÊNCIAS

GEORGE, Nina. A Livraria Mágica de Paris. Tradução de Pete Rissatti. São Paulo: Record, 2016.