RESENHA #56: A GAROTA QUE OLHA PARA DENTRO

 

AUTORA: Susanna Kaysen

SINOPSE: Quando a realidade torna-se brutal demais para uma garota de 18 anos, ela é hospitalizada. O ano é 1967 e a realidade é brutal para muitas pessoas. Mesmo assim poucas são consideradas loucas e trancadas por se recusarem a seguir padrões e encarar a realidade. Susanna Kaysen era uma delas. Sua lucidez e percepção do mundo à sua volta era algo que seus pais, amigos e professores não entendiam. E sua vida transformou-se ao colocar os pés pela primeira vez no hospital psiquiátrico McLean, onde, nos dois anos seguintes, Susanna precisou encontrar um novo foco, uma nova interpretação de mundo, um contato com ela mesma. Corpo e mente, em processo de busca, trancada com outras garotas de sua idade. Garotas marcadas pela sociedade, excluídas, consideradas insanas, doentes e descartadas logo no início da vida adulta. Polly, Georgina, Daisy e Lisa. Estão todas ali. O que é a sanidade?

A maioria das pessoas chega aqui aos poucos, abrindo de furo em furo a membrana que separa o aqui do lá fora, até aparecer uma brecha. E quem resiste a uma brecha?

 

Garota, Interrompida chegou às minhas mãos por acaso. Embora já tivesse ouvido falar por alto sobre o filme, não havia dado muita atenção à história, então não tinha como saber que era autobiográfico. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que Susanna Kaysen não só existe, como é escritora e, em 1993, publicou um livro no qual contava a experiência que, entre os anos de 1967 e 1969, vivenciou ao ser internada em um hospital psiquiátrico de renome, o McLean?

Embora tenha sido apontado pela ferramenta de busca como uma biografia, o livro de Kaysen é antes um memorial, um diário de memórias nem sempre ordenadas, no qual aqueles dois anos narrados se transformam em algo palpável e, ao mesmo tempo, inalcançável. Quase como a loucura.

Entre comprar o livro e lê-lo, perdi aí uns bons meses nos quais apenas adiei a leitura, como um trabalho que adiamos até a data limite. Não sei bem o que me impeliu a isso, mas desconfio ter sido, em grande parte, o medo de me decepcionar. Veja bem, a loucura é um tema que sempre me fascinou e a adaptação cinematográfica de Garota, Interrompida foi sempre apontada como um filme forte sobre o tema. Quando descobri a existência do livro, fui pesquisar resenhas, opiniões, enfim, tudo que pudesse achar a seu respeito. E a maioria era decepcionante. Quase todas apontavam que o livro não chegava aos pés de sua adaptação.

Tenho essa terrível mania de querer antecipar as coisas. Isso é bom quando se deseja comprar um carro ou um celular, mas pode ser extremamente danoso quando diz respeito a um livro. Porque, diferente do carro ou do celular, a leitura tem uma carga enorme de subjetividade que a tecnologia ainda não alcança. Um carro vai ser sempre um carro. Mas um livro pode ser milhares de coisas.

Assim foi Garota, Interrompida para mim.

Ainda não assisti ao filme. Quis escrever este texto isenta de comparações, para falar apenas daquilo que o livro me fez sentir e pensar. E, nossa, como ele fez. Uma das formas mais fáceis de transformar a loucura em algo distante é tratá-la por termos científicos. O caminho que Kaysen faz é justamente o inverso; aos poucos, ela a despe de toda a cientificidade, deixando-nos a verdade mais simples: a loucura é a incapacidade de se adequar ao que a maioria considera normal.

Isso era ainda mais claro em 1967, quando a psiquiatria dava os seus primeiros passos como ramo específico da medicina. Pelos olhos de Susanna, temos vislumbres de tudo aquilo de que costumamos apenas ouvir falar: eletrochoques, panos gelados, solitária, pessoas nuas e cobertas com as próprias fezes. Além disso, por meio dos relatórios médicos e das fichas de admissão e alta de Susanna, que aparecem anexados ao longo da obra, vemos como a loucura era vista na época. Hoje em dia, talvez soe absurdo considerar que uma possessão demoníaca ou bruxaria seja a origem de uma esquizofrenia, mas, em 1967, isso era tido como possível.

Com isso, não estou querendo dizer que a área ainda não precise avançar. Precisa sempre e, em alguns aspectos e mesmo lugares, precisa muito. Mas, lendo a obra de Kaysen, percebo o valor que ele tem não só como livro, mas como perspectiva histórica e subjetiva do que era ser louco na cidade de Boston em 1967.

É claro que o livro não pode ser considerado um documento histórico, porque as memórias mentem. Mas, ao mesmo tempo, as memórias marcam, definem quem somos, e têm o seu enorme valor. As lembranças têm suas próprias cores. A ficha médica de Susanna Kaysen, a paciente, não diz quem era a Susanna, a pessoa, que esteve no McLean. Assim como as fichas de Polly, Lisa, Georgina, que com ela lá estiveram, também não diziam. Quem as torna humanas são as palavras de Kaysen. Aí reside a maior força de Garota, Interrompida.

Sei que soa estranho dizer, mas muitas vezes é difícil humanizar a loucura. Porque isso significa trazê-la para perto de nós, e nem todos estamos prontos para aceitar que podemos ser loucos. Afinal, o que separa a loucura da normalidade? Um grito mais alto na hora errada? Vinte comprimidos depois de uma decisão ruim? Um galão de álcool e um fósforo?

O que nos impede de estar lá, do outro lado? Do lado de dentro da loucura?

Por muito tempo, Susanna foi “normal”. E, no entanto, ela acabou lá também. Ela tinha pensamentos humanos que, no entanto, por dois anos, foram os de uma louca confinada. Eles não pararam quando ela saiu. Eles foram impressos em seu livro de memórias e, agora, são acessíveis a todos os leitores que se arriscarem. Susanna tem um mérito que muitos de nós, provavelmente, morreremos sem ter.

Ela teve a coragem de olhar para dentro. De si mesma, da loucura, do hospício. Ela enxergou as ambiguidades, os pretos e brancos da vida. O hospital psiquiátrico que representava sua prisão e, ao mesmo tempo, a sua liberdade. Suas companheiras de pavilhão, tão iguais e tão diferentes. A loucura, tão próxima e tão fora de compreensão.

Quem luta uma batalha, guarda as cicatrizes.

 

As cicatrizes não têm personalidade. Não são como a pele da gente: não mostram a idade ou alguma doença, a palidez ou o bronzeado. Não têm poros, pelos ou rugas. São uma espécie de fronha, que protege e esconde o que houver por baixo. Por isso as criamos. Porque temos algo a esconder.

 

O que Susanna faz é justamente expor o que há por baixo das suas, descobrindo aos poucos o que a ficha médica insiste em esconder. O que há de humano na louca. O que há de Susanna na paciente.

A verdade é que nós nunca estaremos completamente dentro das linhas da normalidade. Mesmo que não ganhemos um laudo médico, todos nós temos as nossas insanidades. Susanna abraçou as suas e mostrou-as ao mundo, dizendo a muitos que não estão sozinhos, que os loucos são mais do que o seu diagnóstico.

Garota, Interrompida é mais do que um livro. É uma aula sobre humanidade

 

REFERÊNCIAS

KAYSEN, Susanna. Garota, Interrompida. Tradução de Márcia Serra. São Paulo: Editora Gente, 2013.