RESENHA #55: A IMPORTÂNCIA DO TRAÇO

AUTORA: Florence Mèredieu

SINOPSE: Neste estudo revelador de Florence de Meredieu, docente da Universidade de Paris na área disciplinar de artes plásticas, ela faz uma exposição crítica dos métodos utilizados na análise do grafismo, esforçando-se por indicar as perspectivas às quais devem ser restituídos os desenhos das crianças, se quiser que sejam, não reduzidos às categorias adultas mas abordados em seu caráter diferencial e irredutível. Como tal, é um livro de grande interesse à todas as pessoas que tenham sua atenção voltada para o mundo da criança: sejam elas professores em geral e particularmente de Arte-Educação, psicólogos, estudantes de Estética, artes plásticas, comunicação etc.

Durante o decorrer da história, nós “evoluímos” a nossa percepção de mundo, isto é, não somente num panorama subjetivo, em que a criança envelhece, mas também a partir da sociedade – coletivo – que vai adquirindo experiências. Ao menos, é o que pressupõe a teoria de aprender com os erros, evoluir e acertar, porque a cada passo somos mais civilizados, mais capazes, mais ativos perante a realidade. Obviamente, utilizar o termo evoluir traz uma ideia de que outrora éramos menos do que somos hoje.

De acordo com Mèredieu e o livro dela sobre o desenho infantil, veremos essa concepção cair por terra.

Outrora, na Idade Média, como aponta diversos especialistas como Ariès, a criança nada mais era do que um pequeno adulto. A sua construção como indivíduo, e podemos vislumbrar isso a partir dos contos de fadas, nada mais era do que a inapta inexperiência. Quantas vezes, por exemplo, questionamos a nós mesmos sobre a violência abordada nos contos de fadas que não se adequa a uma criança hoje?

Ao dizermos que contos de fadas não são para crianças – ao menos, os originais – pressupomos que a criança do hoje difere muito da que ela foi ontem; de fato, há essa distinção que, pouco a pouco, é abordada nesse livro e, devo dizer, não sendo especialista na área, de forma muito eficaz e esclarecedora.

A partir de uma concepção histórica, Mèredieu vai desfazendo estigmas e preconceitos em relação a arte da criança, uma arte que vai sendo desmantelada pela construção social e, principalmente, pela escola, que tenta esmagar a criatividade e o artista que há dentro de nós.   

Como ela mesma nomeia no primeiro capítulo, o desenho infantil é um universo ainda em descobrimento, repleto de noções e composições que ainda precisam ser mais consideradas e estudadas, visto que vivemos em uma sociedade em que a composição infantil não é tão levada a sério. Usando especialistas como Piaget e Rousseau, a autora não mede esforços para conectar informações precisas e praticamente cirúrgicas quanto a noções de grafismo, funções motoras, historicidade, etc.

Esse é um livro que além de informar sobre a arte da infância, também reitera sobre a história por detrás dela e de como é precária, visto que antigamente a criança não tinha acesso ao papel com facilidade, nem ao carvão. Então, pressupõe-se que sua arte era feita na areia, lugares em que não permaneceria.

 

A criança só podia produzir com os recursos necessários, pois os produtos eram caros – papel era para uso rentável -, o suporte era a areia. Sobre ancestrais, só hipóteses.

 

Com o passar dos anos, a criança deixa de ser um adulto inexperiente e passa a carregar a própria identidade, dessa forma, os estudos da área começaram a surgir e, pouco a pouco, ganhar contornos adequados, sem, antes de tudo, lembrar que embora agora exista a concepção de infância, ainda há a influencia do meio em que se vive:

 

O meio em que a criança se desenvolve é o universo adulto, e esse universo age sobre ela da mesma maneira que todo contexto social, condicionando-a ou alienando-a. 

 

Não podemos esquecer que sofremos influência, somos envolvidos pelo o que nossa sociedade acredita como certo, antes de mais nada, sobre o que nossos pais nos dizem a respeito do mundo. Na infância, ainda não passamos pela fase de transição entre o mundo ditado pelo que nossos responsáveis nos dizem e o que ele de fato pode ser para nós.

A nossa ênfase, no entanto, é uma condição motora, em que o traçar de um desenho é um movimento de prazer e de lazer. Além disso, é o momento em que há o extremo da originalidade, ainda que ditado pelo mundo que se abre a nossa volta.

Devo ressaltar que um dos pontos mais interessantes do livro, além da relação entre sonho e desenho, é a relação entre escrita e desenho. O desenho se torna, para a criança, uma forma de comunicação, em que ela ainda não entende as noções de signo e significante, mas as expressa no papel. Dessa forma, como a própria autora pontua: “o limite entre o desenho e a escrita é flutuante”, uma concepção que, ao meu ver, é brilhante e coerente, porque é nesse momento que a criança constrói seu vocabulário e também a sintaxe que o conecta ao mundo.

Esse é um livro que aborda os diversos métodos científicos para construir uma análise quanto ao grafismo e a arte infantil como um todo, sendo assim, ele constrói um conhecimento compartilhado com áreas como psicologia, psicanálise, sociologia, entre outras, fazendo um estudo muito bom e, diria eu, completo a respeito da forma com que visualizamos a criança, tanto por traço como em relação a cada fase etária, e a sua mais sutil e inata maneira de se comunicar: o desenho.

Para exemplificar a completude, tem-se relações sociológicas, no momento em que compara a arte de uma criança francesa e de uma árabe; psicanalíticas, da diferença entre casas e bonecos, por exemplo, quiçá as relações antropomórficas que são exploradas pelo ponto de vista da infância. É um livro altamente recomendado para quem quer trabalhar ou mesmo já trabalha com crianças, visto que é absorvendo as noções do mundo infantil que conseguimos compreender aquele espaço melhor. 

Não podemos nos excluir como influenciadores, mas percebemos que a criança pensa por si mesma e o traço é sua melhor ferramenta para mostrar isso.

 

REFERÊNCIAS

ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. Trad. Dora Flaksman. 2ªedição. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981.

MÈREDIEU, Florence. O Desenho Infantil. Tradução de Alvaro Lorencini e Sandra M. Nitrini. São Paulo: Cultrix, 2006.