RESENHA #54: O LIVRO DOS DETALHES INVISÍVEIS

 

 

AUTORA: Genevieve Cogman

SINOPSE: Irene é uma espiã profissional da misteriosa Biblioteca, uma organização que existe fora do tempo e espaço e que coleciona livros e manuscritos de diferentes realidades. Junto com seu enigmático assistente Kai, ela é enviada para uma Londres alternativa com a missão de recuperar um perigoso livro. Mas quando chegam, ele já foi roubado. As principais facções do submundo londrino estão prontas para lutar até a morte para achá-lo, e a missão de Irene é dificultada pelo fato de que o mundo está infestado pelo Caos – as leis da natureza foram distorcidas para permitir a existência de criaturas sobrenaturais e mágicas imprevisíveis. Enquanto seu novo assistente guarda seus próprios segredos, Irene logo se vê envolvida em uma aventura repleta de ladrões, assassinos e sociedades secretas, onde a própria realidade está em perigo e falhar não é uma opção.

É bom quando pelo menos uma pequena fantasia vira realidade. E é ainda melhor quando é merecida.

 

Quantas vezes já ouvimos ou dissemos que gostaríamos de entrar na história de um livro? Hogwarts e o mundo mágico de Harry Potter, por exemplo? Eu tenho certeza que diversas vezes. Muitos dos leitores mais assíduos, definitivamente, já desejaram poder embarcar em uma aventura em algum lugar específico de uma obra.

O universo elaborado por Genevieve Cogman, em A Biblioteca Invisível, é exatamente esse tipo de lugar em que você deseja entrar e não sair mais. Confesso que, ao contrário da maioria das pessoas que conheço e de amigos muitos próximos, eu nunca tive vontade de ir para a Idade Média ou ir para qualquer lugar extremamente perigoso com magia, raios laser, etc – e onde geralmente você não tem acesso a um banheiro decente com um chuveiro quente.

No entanto, pela primeira vez, que eu me recorde, uma narrativa me fez desejar estar em um lugar perigoso e diferente do meu. Não necessariamente perigoso, se estiver dentro da Biblioteca. Esse ambiente repleto de livros é o mundo em que eu estaria feliz. De verdade. Isso pode parecer muito louco – ou me faz parecer muito louca e aficionada por livros –, mas eu realmente desejei entrar no livro, na história e em tudo que Cogman me apresentou durante a narrativa (nem tudo, claro, continuo com a minha autopreservação intacta).

A trama trabalha esse lugar e muitos outros, embora a ênfase esteja no que dá título à história: a Biblioteca Invisível. Entre mundos e fora do tempo, encontramos uma grande biblioteca que coleciona e preserva livros, além de tudo, possui bibliotecários incríveis como empregados que são capazes de usar Linguagem e espionar, roubar, etc – o senso de ética foge um ponto dos nossos padrões cotidianos.

Na verdade, tudo nesse livro foge aos padrões quando se trata de elaboração de universo.

Um grande problema da maioria dos leitores que nunca leram obras de cunho kafkiano é que precisam de explicação para tudo. Entretanto, esse não é o intuito da obra. Não existe explicação para tudo porque isso seria irreal. Pode parecer confuso o que eu estou dizendo, mas vamos aprofundar essa ideia.

O que sabemos sobre o mundo? Nós temos a filosofia, que é aquela matéria que pergunta e pergunta, mas nunca tem uma resposta concreta. Como na filosofia, o mundo funciona da mesma maneira: perguntamos, perguntamos e não temos resposta para tudo – talvez quando morrermos, mas aí já não podemos contar para ninguém.

Logo, por que precisamos entender e saber tudo a respeito de um universo elaborado em um livro? Se queremos uma história palpável e real, não precisamos de todas as respostas, mas formular as perguntas e que essas perguntas sejam coerentes, como ocorre conosco no cotidiano. Afinal, ninguém até hoje sabe porque Gregor Samsa virou uma barata, mas todo o enredo de Kafka mostra que aquilo é possível. Não estou dizendo que devemos deixar incoerências passarem, mas sim para abraçarmos o que é natural dos mundos e que não possuem explicação imediata ou nenhuma.

Um dos maiores problemas dos leitores da A Biblioteca Invisível, pelo que eu pude ver, é que, por ser um livro do gênero Young Adult (tradução literal: jovem adulto) de fantasia, ou seja, uma narrativa elaborada para jovens que ainda não experienciaram tanto sobre o mundo e leituras mais densas, seus leitores se focam muito em formas pré-moldadas de fantasia infanto-juvenil (até porque acabaram de saltar desse universo, o que é natural).

O que me pareceu muito interessante na obra de Cogman é que realmente foi apresentado na trama uma mistura desses dois mundos, é possível encontrar elementos do gênero infantil, a exemplo da própria narrativa leve e simples digna de Agatha Christie, bem como formulações mais elaboradas, filosofias em movimento e momentos densos dignas de tramas mais filosóficas e adultas.

Em quesito de criação de mundo e de referências, tudo foi muito bem feito e encaixado até o momento, com perguntas próprias para uma continuação e referências literárias constantes, pois a obra é, antes de tudo, sobre livros e dedicada àqueles que amam histórias.

Tanto quanto Irene, protagonista da narrativa, e todos os outros personagens, podemos vislumbrar o amor pelas obras. Em uma expectativa de luta do bem contra o mal dedicado aos contos de fadas, encontramos essa dualidade esgarçada pela realidade.

Aparentemente, a narrativa trará um maniqueísmo digno de histórias literárias a que se dedica, como é o caso da obra principal da história Contos dos Irmãos Grimm, que Kai, Irene e Bradamant perseguem e buscam para a Biblioteca. Além disso, essa perspectiva pode ser tomada por conta do equilíbrio entre Caos e Ordem, no entanto, não se deixe enganar, pois apresenta muito mais.

O sentido de certo e errado possui três perspectivas na trama: dos feéricos, uma espécie de fada que ganha seus próprios atributos na narrativa; dos dragões e dos humanos (bibliotecários, principalmente). Logo, as margens entre caos, ordem e o interlúdio entre eles, o certo e o errado não são limitados a bem e ao mal, mas a partir de visões diferentes de mundo, ou seja, o que é certo e o que é errado depende de quem está olhando, esse é um aspecto que me pareceu digno de aplausos.

Obviamente que, nesse interim, encontramos um personagem que personifica o mal, contudo, até o fim das páginas, nós sabemos superficialmente suas razões e, para leitores mais atentos, é perceptível que há algo nelas muito plausível.

Tão plausível quanto os personagens. Cada um deles tem forma própria, sentimentos e motivações e, além de não se repetirem entre si, há uma voz inerente que fala por eles e somos capazes de reconhecê-los. Irene é uma protagonista forte que possui fraquezas aparentes, Bradamant é uma antagonista que possui ambições e invejas, mas que é leal a quem serve. Kai é divertido e corajoso, ainda que claramente perigoso. Entre esse círculo de aliados com mais espaço na trama, temos Vale que, além de ser o mais comum entre todos é o mais fantástico, pois é aquele que descobre passo a passo o que a Biblioteca representa ao lado do leitor e, ainda mais, o detetive inspirado em referências como Sherlock e Poirot (ainda que todos só lembrem do personagem de Conan Doyle, talvez seja o sotaque inglês).

Cogman demonstra como é fã desse gênero literário durante o decorrer das páginas não somente pelas referências, mas também porque toda a narrativa é sobre esse desenrolar de mistério, ação e aventura, sem enfatizar romances como a maioria das histórias – ainda que o contenha.

Em minha percepção, muitas narrativas se focam tanto em demonstrar o romance que esquecem o que importa e Cogman acerta e muito no meu gosto literário quando coloca o romance em um plano terciário, porque nossa vida não deve ser feita a partir da ideia de encontrar alguém a que estamos ligados pela paixão, mas por aqueles que estão ligados a nós por sentimentos mais fortes do que isso, como a amizade e o amor em qualquer forma.

O interessante é que Cogman põe uma cena nesse livro que induz sobre essa questão da sexualidade e do possível romance, e muitos podem achá-la desnecessária, mas ela não está ali por acaso. A cena está ali para demonstrar o quanto o nosso trabalho e o que acreditamos deve vir antes de qualquer romance casual, coisa que a maioria dos livros faz o contrário e isso foi maravilhoso.

Esse livro é sobre livros, mas também é um livro dos detalhes. Os pequenos espaços da obra são preenchidos por informações que podem ser muito importantes, porém passam despercebidos pela maioria dos leitores que não notaram e esse me pareceu também um problema de alguns dos leitores de A Biblioteca.

Confesso que entre todos os detalhes, os de Linguagem foram os que mais me surpreenderam. Como alguns devem saber, eu sou formada em Letras e trabalho com etimologia, a obra de Cogman mostra como a língua evolui sem necessariamente nos dizer, mas demonstrando a partir da Linguagem, além de clarear e mostrar a força das palavras.

A palavra tem força, nós podemos magoar por causa dela, ficar felizes ou tristes. Essa força inerente ao sentimento, que é o mais concreto que possuímos, vai além de qualquer abstração material do mundo e a autora consegue demonstrar isso usando a própria Linguagem como arma, porque a palavra é uma arma – para o bem ou para o mal.

Em relação à edição, a capa e a diagramação são impecáveis, porém há erros de construção frasal e também dos mais básicos de revisão, acredito que seria muito interessante que a editora pudesse verificar para edições futuras. Ao contrário de The Girl From Everywhere, história também disponibilizada pela Editora Morro Branco, eu me envolvi tanto com a trama que os erros foram vistos, mas basicamente ignorados, porque eu estava buscando os detalhes narrativos dessa obra encantadora e cheia de pedaços invisíveis, presentificados nas referências literárias.

 

 REFERÊNCIAS

COGMAN, Genevieve. A Biblioteca Invisível. Tradução de Regiane Winarski. São Paulo: Editora Morro Branco, 2016.