RESENHA #53: ÀS BRUTAS VIVÊNCIAS

 

AUTORA: Jorge Amado

SINOPSE: Desde o seu lançamento, em 1937, Capitães da Areia causou escândalo: inúmeros exemplares do livro foram queimados em praça pública, por determinação do Estado Novo. Ao longo de sete décadas a narrativa não perdeu o viço nem atualidade, pelo contrário: a vida urbana dos meninos pobres e infratores ganhou contornos trágicos e urgentes. Várias gerações de brasileiros sofreram o impacto e a sedução desses meninos que moram num trapiche abandonado no areal do cais de Salvador, vivendo à margem das convenções sociais. Verdadeiro romance de formação, o livro nos torna íntimos de suas pequenas criaturas, cada uma delas com suas carências e ambições; do líder Pedro Bala ao relogioso Pirulito, do ressentido e cruel Sem-Pernas ao aprendiz de cafetão Gato, do sensato Professor ao rústico sertanejo Volta Seca. Com a força envolvente de sua prosa, Jorge Amado nos aproxima desses garotos e nos contagia com seu intenso desejo de liberdade.

 

Faz mais de oitenta anos que um livro extremamente atual foi publicado pela primeira vez, embora aquele tempo – há muito – tenha passado, a atualidade da obra, por primorosa literaturidade que possa ser exaltada, prossegue contemporânea como se tivesse sido escrita não faz menos de dois dias.

Poderia ter sido hoje de manhã.

Justamente por essa presença marcada no nosso dia-a-dia, a narrativa Capitães da Areia, do famoso escritor Jorge Amado, permanece sendo pedida em vestibulares e escolas, porque ela nos mostra a realidade que muitas vezes preferimos negar do que enfrentar, pois, ao admiti-la, nós nos veremos privilegiados e o que mais gostamos de fazer é reclamar do que temos, sempre valorizando a grama vizinha.

Embora eu não seja adepta à obrigatoriedade de leitura, pois isso faz com que haja a perda do interesse, acredito que existem narrativas específicas que todo leitor deveria um dia conhecer para entender a si mesmo ou a estrutura social que vive: Capitães da Areia, sem dúvida, entra nessa lista, justamente porque é uma trama rica e extremamente necessária para conhecermos o Brasil e o povo que aqui habita.

A trama se passa em Salvador, uma cidade que não pertence ao Sudeste – área na qual existem mais possibilidades comerciais e editoriais – e conta a história de um grupo de meninos que roubavam para sobreviver, alguns queriam um pouco mais do que tinham, outros, tais como Pirulito, queriam só matar a fome.

Jorge Amado, como é bem conhecido, fazia parte do partido comunista, no entanto, por mais que sua ideologia esteja conectada à igualdade e à abolição da propriedade privada, dentro de sua obra não se fala sobre comunismo propriamente, mas nela é possível vislumbrar a razão pela qual ele gostava da ideia.

O autor viu a dura realidade de jovens abandonados ou sem família que viviam nas ruas, viviam em trapiches, armazéns abandonados; muito provavelmente por isso – em uma época que a literatura se voltava ao regionalismo e ao neorrealismo – escreveu essa tão aclamada trama, a crítica social não só lhe era cara para fazer as demais pessoas a sua volta verem o que ocorria como também era necessária para explicar as suas posições ideológicas que são debatidas durante a leitura.

Confesso que não sou partidária ao comunismo, no entanto, eu consigo compreender o que Amado relata durante o seu livro, os debates que coloca em cheque e por quais motivos o seu raciocínio faz completo sentido. Ele não posiciona as crianças como vítimas – por muitas vezes, elas podem ser, de fato, criminosas em um teor trágico –, mas as coloca na posição de vítimas sociais, o que é muito diferente.

Em debates políticos, a maioria das pessoas não conseguem compreender essa diferença. O fato de alguém cometer um crime não pode e não creio que seja justificado por alguém, em qualquer instância, no entanto, o fato da sociedade tê-la auxiliado a tomar aquela conduta, sim. Podemos considerar como o famoso explica, mas não justifica.

No entanto, é muito simplório nos debruçarmos sobre um tema de tamanha complexidade e o reduzirmos a uma mera frase, pois, da mesma forma que Amado demonstra no decorrer da trama, que se divide em múltiplas subtramas, o quão complexo é aquele problema na e da sociedade brasileira, devemos fazer o mesmo ao ler a história e analisá-la.

Há um jogo muito interessante, e que demonstra bem a complexidade abordada pelo autor, a respeito da individualidade dos meninos, cada um deles é um estereótipo completamente diferente do outro, mas que existe no Brasil. Há o malandro galanteador (Gato), o devoto a religião (Pirulito), o que exalta heróis contra os seus vilões (Volta Seca), o talento descoberto (Professor), o revolucionário (Pedro Bala), etc. Contudo, mesmo esses personagens tão estereotipados, ainda, por si mesmos, são complexos; não porque suas histórias sejam extremamente elaboradas, mas justamente pelos trejeitos e as lacunas em branco deixadas que nos dizem sem nada ser expresso.

Outro aspecto que deve ser ressaltado nas personalidades criadas por Amado para representar esses estereótipos é a questão da maturidade. Embora sejam crianças que vivam como homens, algo que é reafirmado diversas vezes durante a leitura, ainda são crianças. Isso é retomado mais de uma, duas, três situações. O momento mais sublime é quando o autor compara os capitães da areia a um menino de família rica, em que as vivências separam brutalmente os dois lados.

Existe um contraste entre o adulto e a criança na obra que não é elaborado pela maturidade (algo que é ressaltado quando são crianças de estados sociais e econômicos diferentes), pois muitas daquelas crianças viveram experiências que eu, uma adulta, nunca vivi e nem quero viver. O contraste, em verdade, é feito pela ingenuidade. A ingenuidade é o que faz elas, embora com vidas devastadoras, ainda se mantenham crianças, o desejo pelo carrossel, por exemplo, é um dos capítulos mais tristes e profundos sobre o tema.

Ressaltar tudo isso, dentro de Capitães da Areia, é necessário para compreender a genialidade de uma obra que foi amplamente vendida e considerada, por muitos críticos, de menor valor por causa disso. Ressaltar esses aspectos é demonstrar que o livro não é um tratado comunista – em uma sociedade que teme só o pronunciar da palavra, mesmo que não saiba seu real significado –, mas uma trama que mostra o desejo que essas crianças – menos favorecidas pelas adversidades da vida – tenham oportunidades de serem o que sonham, como Professor conseguiu viver do seu talento.

Em relação a narrativa, existe uma transitividade muito importante dentro da escrita – como de perspectiva quanto estrutura – e que diz muito sobre a evolução dos personagens. O primeiro aspecto é o princípio e o final do texto, ambos citam jornais. O livro começa com um jornal prestigiado pela elite em que se elogia policiais e diretores de reformatórios enquanto repudia meninos ladrões, mas se cala quando há uma crítica ao sistema governamental; no final, em contraste, ressalta-se que:

 

Anos depois os jornais de classe, pequenos jornais, dos quais vários não tinham existência legal e se imprimiam em tipografias clandestinas, jornais que circulavam nas fábricas, passados de mão em mão, e que eram lidos à luz de fifós, publicavam sempre notícias sobre um militante proletário, o camarada Pedro Bala.

 

Por sua vez, embora seja um spoiler, o final fala sobre Pedro Bala como alguém prestigiado e é interessante perceber a mudança de perspectiva (jornal de elite à proletário), escrita (o texto direto para um mais poético) e estrutura (a aparição da matéria para a menção dela), porque há certo romantismo na realidade empregada por Amado no decorrer da história, em que um menino marginal vai se tornando um herói, numa subversão de valores e são esses os valores que são empregados à medida em que a escrita vai se alterando.

Contudo, mais uma vez, acho importante ressaltar que embora os meninos sejam colocados em posição de heróis, eles continuam sendo humanos e influenciados pelo seu tempo, cometendo erros dos mais terríveis, principalmente, quando se trata das figuras femininas que, mais ainda, eram desrespeitadas e desvalorizadas. Até mesmo Dora, uma personagem importantíssima que só aparece após a metade do livro, ela que ganhará alcunhas múltiplas, embora a principal – ao meu ver – seja mãe, o que mais uma vez demonstra a necessidade daqueles meninos tão independentes e inconsequentes de uma estrutura familiar, do amor mais básico.

Por não o ter, buscam subterfúgios em refúgios carnais até confortos espirituais, enquanto há aqueles tão traumatizados que não alcançam isso de nenhuma maneira. Dentro do livro, em uma escrita onisciente – porém mais presente do que a própria onipresença –, Amado mostra que até meninos de rua são capazes de aceitar outros com cores, estilos, tamanhos diferentes; enquanto o clero (com exceção do Padre Pedro), por mais religiosos que sejam, os ricos, por mais que tenham propriedades e luxos, não conseguem.

Não sei se posso dizer que foi graças a Jorge Amado, ou se foi há muito tempo, mas eu (re)vi ressaltado que a escolaridade não qualifica respeito ao próximo e nem diagnostica e combate preconceitos, as doenças sociais que se espalham e se institucionalizam.    

 

REFERÊNCIAS

AMADO, Jorge. Capitães da Areia. 1ª ed. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2008.