RESENHA #51: INSPIRADAS PELA OUSADIA

AUTOR: Pénélope Bagieu

SINOPSE: Margaret, atriz “aterrorizante”, especializada nos papéis mais perversos de Hollywood; Agnodice, ginecologista da Grécia Antiga que teve de se disfarçar de homem para exercer a profissão; Lozen, mulher Apache, guerreira e xamã… Pénélope Bagieu traça, com humor e sagacidade, quinze retratos de mulheres excepcionais que enfrentaram a pressão social de seu tempo e se tornaram donas de seus próprios destinos.

Devo começar com uma confissão: para mim, personagem do século XXI, soa estranho que tenhamos demorado tanto tempo para conseguirmos direitos básicos como a possibilidade de votar, trabalhar e ter o próprio dinheiro. Soa esquisito, até absurdo, porque sou de um tempo e uma geração que não aceita mais que a nossa opinião não seja ouvida, sou de uma geração que, a cada dia, luta para que todas as mulheres possam ser o que desejarem ser: empresárias famosas ou donas de casas bem-sucedidas.

No entanto, eu sou de uma geração que teve sim empoderamento feminino na infância, porque eu conheci Mulan (1998), a adaptação cinematográfica da Disney, conheci Jasmine, de Aladdin (1992), também tive o privilégio de ver uma Esmeralda ainda mais forte do que na obra original de Victor Hugo (O Corcunda de Notre Dame, 1996), entre outras personagens que me inspiraram – e creio que tenham inspirado outras meninas tais como eu, fascinadas com as animações da Disney. No entanto, eu ainda posso contá-las nos dedos, mesmo Mégara, de Hércules (1997), tão decidida e progressista, acaba, como lição final, sendo salva pelo herói. E, por muitas vezes, as mulheres aparecem sendo salvas e não sendo aquelas que salvam.

Claro que, na adaptação de Hércules, ele é o protagonista, mas, mesmo assim, há personagens femininas incríveis que são pares românticos dos heróis e essa acaba sendo, na maioria das vezes, a principal função delas nas narrativas, o que não é bom. Não somos coadjuvantes de nossas histórias, nem das histórias daqueles com quem vamos nos casar ou que vamos parir! Somos protagonistas de nossas narrativas e, de uns tempos para cá, isso foi finalmente reconhecido, tanto que temos livros e mais livros narrando histórias sobre personagens femininas incríveis que lutam dentro de distopias, fantasias e suspenses.

Portanto, eu pressuponho – e isso antes de ler a graphic novel de Bagieu – que o fato de não termos representatividade na nossa infância afeta como reagiremos no futuro, sendo algo importante e imprescindível para qualquer minoria. Óbvio que isso não impedirá que cresçamos, tais como as personagens desse livro, e queiramos mais. Contudo, é muito mais fácil querermos abraçar o mundo se alguém já fez isso e foi bem-sucedida; se temos um modelo.  

A graphic novel, para quem não sabe, é nomeado em português como romance gráfico, pois se refere a uma narrativa (ou várias narrativas) que são ilustradas; possuem início, meio e fim, ao contrário dos quadrinhos convencionais; e seu material de impressão geralmente é diferenciado e se assemelha muito mais a um livro do que realmente a um quadrinho, como é o caso de Ousadas, volume 01. O que, precisamos ressaltar é o fato de ser o primeiro volume, logo, terá mais dessa série incrível, inclusive, o segundo volume já foi lançado na França, o país de origem da obra e da autora.

Antes de elogiar muito a iniciativa, que começou a partir desse blog, preciso ressaltar – mais uma vez – a importância dessas tramas, como elas foram desenvolvidas e, principalmente, para quem foram.

Eu não recomendo esse livro para crianças menores de doze anos, tanto meninas quanto meninos, visto que há muitas ideias nas narrativas em questão que necessitam de um pouco mais de conhecimento de mundo para serem compreendidas, como a ideia de guerra, por exemplo. Parte do impacto do livro é gerado também pela compreensão de que essas mulheres foram apagadas da história, embora não devessem ser.

Como no livro Histórias de Ninar para Meninas Rebeldes, as tramas de Bagieu são sobre mulheres reais, contudo, creio que a autora francesa destaque personagens ainda mais apagadas do mundo (não sendo essa a única publicação da autora sobre esse assunto), poucas dentre as quinze apresentadas, eu – que estudo um pouco de história mundial – conhecia. Isso realmente me chocou.

O choque foi por perceber o quanto a história da luta da mulher se perdeu num processo contínuo de apagamento, mesmo quando estávamos mais do que ativas e lutando pelos nossos direitos. Essa graphic novel é um apelo para mostrar a nossa história, para não apagarmos as personagens femininas tão importantes que fizeram parte dela.

Para crianças maiores de doze anos, meninas ou meninos, acredito que a leitura dessa obra é praticamente obrigatória. São narrativas de cunho real e palpável, há sobre adultério e como elas sofreram com isso; violência doméstica, além dos motivos para tratar bem um ser humano; assédio, algo que devemos ensinar as nossas crianças – independente do gênero – a não cometer (como qualquer outra ilegalidade ou algo que fira o próximo); entre outros temas que são pesados, mas que a narrativa leve e a arte colorida suavizam.

O tradutor fez um exímio trabalho, focando-se no público juvenil que era o alvo da obra em questão, trouxe um texto realmente leve, com palavras conhecidas e de leitura extremamente acessível. Esse é um ganho incrível para incentivar as crianças a buscarem conhecer a história do mundo, lerem mais e ainda terem informações que poucos adultos possuem – o que é extremamente genial.       

 Voltando a falar da arte, confesso que fiquei encantada com o traço de Bagieu, ele é extremamente leve e colorido. Sua arte não é densa e cheia de detalhes realísticos, porém, mesmo que não seja, é possível captarmos as minúcias das expressões das personagens, quando estão tristes, felizes ou empoderadas, além dos demais personagens que aparecem no decorrer dos quadrinhos.

As tramas se passam em diversos lugares e tempos do mundo, contando com narrativas que provém, desde o IV século a.C., da Grécia até personalidades vivas nos dias de hoje, seja na Austrália, na República Dominicana ou Libéria. Cada uma das personagens presentes figuram a realidade do país que elas viviam no tempo em que estavam presentes, com exceção de Agnodice, que representa somente Atenas daquele tempo, pois na época em que vivia não existia Grécia, mas a cidade-estado Atenas. Há outras figuras de países ocidentais e orientais que colocam em cheque a ideia de nacionalidade e divisão de fronteiras.

Contudo, é interessante ver a importância delas e como o mundo mudou e como, mesmo o mundo sendo do jeito que era, elas prevaleceram. Além disso, também é possível perceber a necessidade de uma fidedignidade com a história das personagens ilustradas, pois – em nenhum momento – a autora tenta fazê-las inocentes ou santas quando não são, pelo contrário, mostra-as nuas (no sentido figurado), com defeitos e qualidades aparecendo a todo momento. Caso sejam intransigentes ou ambiciosas, isso é demonstrado e, inclusive, nota-se como essas características em mulheres são vistas de maneira negativa da forma que em homens, não. 

Por isso, posso afirmar que, de inúmeras formas, esse livro é uma aula de história e uma aula sobre representatividade esquecida.

 

REFERÊNCIAS

BAGIEU, Pénélope. Ousadas. Volume 1.  Tradução de Fernando Scheibe. 1ª ed. Grupo Autêntica. Belo Horizonte: Nemo, 2018.