RESENHA #50: A EXPECTATIVA CEGA

 

AUTOR: Josh Malerman

SINOPSE: Basta uma olhadela para desencadear um impulso violento e incontrolável que acabará em suicídio. Ninguém é imune e ninguém sabe o que provoca essa reação nas pessoas. Cinco anos depois do surto ter começado, restaram poucos sobreviventes, entre eles Malorie e dois filhos pequenos. Ela sonha em fugir para um local onde a família possa ficar em segurança, mas a viagem que tem pela frente é assustadora: uma decisão errada e eles morrerão.

O homem é a criatura que ele teme.

JOSH MALERMAN

 

Às vezes, o nosso maior problema é a expectativa; às vezes, é também a nossa maior qualidade. Em um meandro complexo entre verdades, mentiras e meias-verdades, entre jogos de palavras e momentos de tensão, esse é o lugar em que esse livro se faz:

Na expectativa.

Inclusive, devo dizer, essa é a palavra que mais define a ideia do terror e do suspense, o fato de esperarmos alguma coisa acontecer, decididamente, aumenta a tensão e faz com que, ansiosamente, continuemos a ler as páginas de um livro sem conseguir parar; roer as unhas quando vemos um filme do gênero e todo o nosso corpo tensionar, como se estivéssemos correndo um risco.

Quase se colocando no lugar da personagem, o que a priori era uma das intenções da literatura.

Não tenho como negar e nem fugir da minha impressão inicial e até constante, a comparação continua com o clássico português de José Saramago: O Ensaio sobre a Cegueira. Embora as abordagens, a escrita e até o detalhamento sejam absolutamente diferentes – tanto quanto a causa –, ambas as obras querem passar algo sobre o homem e não, sobre o que fez aquilo acontecer.

Alguns leitores vão – e devem até – se decepcionar com a falta de descrições a respeito de morte, sangue e coisas afins, pois há uma ideia acerca disso no resumo do livro, contudo, não é sobre isso que a história trata, logo, focar nisso me parece inverossímil.

A trama, antes de tudo, trabalha o amor primordial e o sacrifício que nem mesmo Freud conseguia explicar, embora muito tivesse tentado: o amor/sacrifício de uma mãe. Esse é o sentimento mais irracional e, ao mesmo tempo, o mais lógico de todos, pois a criança é a extensão daquela criatura tão egoísta e também não é ela, o que torna ainda mais estranho todo esse apego.

Malorie, na minha concepção, consegue sobreviver e se sacrificar até o ponto em que chegou, antes de tudo, porque seus filhos precisam dela para continuar. Isso é o que move a personagem o tempo todo e, nesse ponto, Malerman se torna quase impecável.

O sacrifício de mãe, o amor dela para enxergar o outro, assemelha-se – para mim – à mulher do médico, dentro da obra de Saramago. A diferença, no entanto, nas duas obras, é como Saramago desenvolve a questão do homem e o fato de, literalmente, fazer um ensaio a respeito disso, muito mais do que uma ficção.

Contudo, a ideia de Caixa de Pássaros é ficcionalizar uma narrativa de terror e, nesse ponto, retrata bem e vai encaminhando, com as poucas informações e muito suspense, a narrativa. O fato de ele dizer pouco pareceu intencional, justamente porque quanto menos se diz, mais se quer saber.

O ponto em comum entre as duas obras é a cegueira, ou melhor, como o mundo entra em caos por todos não poderem enxergar. Embora ninguém fique misteriosa e literalmente cego dentro dessa narrativa, a dependência da visão é crucial para existir, para ser e, por causa disso, todos são afetados por essas criaturas que, só por meio do olhar, são capazes de romper e danificar a mente humana até o suicídio.

Tanto quanto em Saramago, o fato de não poder ver está intrinsecamente conectado com a estupidez humana, pois somos muito focados na nossa concepção e na nossa realidade de racionalizar, por isso, enlouquecemos; por isso, nessa narrativa de Malerman, as pessoas enlouquecem.

Entretanto, na minha perspectiva, o maior problema é como isso ocorre, pois não fica muito claro como isso acontece e, sinceramente, parece-me apelativo os animais também enlouquecerem se tudo é voltado para uma concepção racional. Além disso, é interessante perceber que, para causar comoção propositalmente, há um destaque especial em Victor, o cão.

Não que isso seja ruim, mas inegavelmente torna tudo um tanto forçado durante a trama, pois não há uma relação de plausibilidade – uma necessidade humana, como o livro nos demonstra tão bem – entre a maneira que ocorre e os próprios fatos decorridos.

Contudo, com exceção desse aspecto, eu acredito que a história seja muito bem desenvolvida e, inegavelmente, Malorie está entre as personagens femininas mais fortes da literatura e uma das mães mais preocupadas, mesmo que ela própria não se identifique como uma boa mãe por causa dos seus padrões sociais.

Há também muitas metáforas dentro da trama que não podemos deixar passar despercebidas, como o próprio título que ganha duplas e triplas interpretações. Caixa de Pássaros diz respeito a uma caixa literal que aparece e serve como alarme, o grito do desespero da aproximação do perigo, no entanto, serve também para a casa e os personagens aprisionados nela, estes que perderam a sua liberdade e não podem mais observar o céu como anteriormente.

Outros aspectos também saltam os olhos, por exemplo, como as criaturas reagem a presença humana e, por sua vez, o que a presença humana causa ao seu semelhante. Será que deveríamos temer as criaturas – medos velados – ou aqueles iguais a nós, presentes e pertencentes ao nosso cotidiano? Essa é uma questão tão intrínseca dentro da obra que, felizmente, não podemos deixar de nos perguntar.

Essa é uma narrativa que não tem um final revelador ou surpreendente, mas diz muito justamente por isso: não devemos nos importar impreterivelmente com o final, mas com a relevância da jornada, o que ela nos mostrou e o que nos apresentou.

Como leitora de Kafka, confesso que não tive qualquer incômodo com a falta de explicações, porque elas não necessariamente precisam acontecer, podem simplesmente existir; o que me incomodaria – e o que aconteceu aqui – foi uma falta de plausibilidade quanto ao como e ao que é apresentado dentro da história como justificativa.

O livro Caixa de Pássaros é a estreia de um autor que tem muito a aprender, mas que carrega uma bagagem metafórica e social muito densa e importante que, inegavelmente, faz recordar de cânones literários. É uma obra que vale a pena ser lida sem expectativas cegas.

 

 

REFERÊNCIAS

MALERMAN, Josh. Caixa de Pássaros. Tradução de Carolina Selvatici. 1ª ed. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2015.