RESENHA #49: MENSAGEM DE (DES)CONFORTO

 

AUTORA: Becky Albertalli

SINOPSE: Simon Spier tem dezesseis anos e é gay, mas não conversa sobre isso com ninguém. Ele não vê problemas em sua orientação sexual, mas rejeita a ideia de ter que ficar dando explicação para as pessoas — afinal, por que só os gays têm que se apresentar ao mundo? Enquanto troca e-mails com um garoto misterioso que se identifica como Blue, Simon vai ter que enfrentar, além de suas dúvidas e inseguranças, uma chantagem inesperada.

As pessoas são mesmo como casas de quartos grandes e janelas pequenas.

E talvez seja mesmo uma coisa boa que a gente

nunca pare de surpreender os outros.

BECKY ALBERTALLI

 

Primeiro de tudo, sinto-me na obrigação de esclarecer uma coisa: eu vi o filme antes de ler o livro e isso mudou tudo. Mudou tudo porque, quando conheci o Simon de papel, não conseguia desvinculá-lo do ator Nick Robinson (Jurassic World), que lhe deu vida na adaptação cinematográfica da obra. Além disso, todo o mistério por trás de quem era Blue, para mim, já não existia. No entanto, essas duas coisas não foram um empecilho para a leitura. Na verdade, por incrível que pareça, o maior empecilho foi o próprio livro.

Eu não gostei da escrita de Becky. Achei as frases curtas demais, o uso de conjunções muito repetitivo e, fora certas passagens legais que mereceram alguns post-its, não encontrei nada realmente capaz de me fazer parar e pensar: “Nossa!”. Precisei tentar quatro vezes antes que a leitura, de fato, fluísse. Ela só fluiu graças aos capítulos dedicados às trocas de e-mails entre Simon e seu web-amor-platônico, Blue, que eram leves, divertidos e pouco truncados.

Apesar disso, eu acho que Com amor, Simon (ou, anteriormente, Simon vs A Agenda Homo Sapiens) vale a pena, porque consegue ser uma história romântica e um puxão de orelha ao mesmo tempo.

A verdade é que, antes de ser escritora, Becky é uma psicóloga. É um pouco como o que ocorre em Memórias Póstumas de Brás Cubas, famosa obra de Machado de Assis, na qual o personagem principal, em certo momento, afirma: “eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor”. Nessa passagem, ele alude, dentre outras coisas, ao fato de que não só se tornou autor apenas depois de morto, mas o fez justamente por ter morrido. O que eu gostaria de dizer com isso, portanto, é que Albertalli parece antes uma psicóloga que escreve do que uma autora formada em psicologia, porque seu forte não é a maneira de usar as palavras, mas a mensagem que traz apesar disso.

O que eu achei verdadeiramente mágico no livro é que ele é um romance LGBTQ+ recheado de clichês românticos. Estava tão acostumada a ver o tema ser tratado por um viés mais dramático que vê-lo abordado de forma mais leve é como tomar um café quente numa manhã de domingo: reconfortante.

Isso não significa a ausência do desconforto – porque ele está lá, seja na figura de Martin, nas inseguranças de Simon ou mesmo no momento em que tudo desmorona –, mas, sim, que ele não é o centro de tudo. Com amor, Simon é um livro sobre um casal homossexual e, ao mesmo tempo, uma história sobre o primeiro amor, sobre aceitação, amizade e descoberta da sexualidade. É uma lição de respeito ao outro e a si próprio. É, enfim, um reforço à necessidade de (re)conhecer as próprias limitações e, quando necessário, superá-las.

Falando agora dos pontos altos do livro, o maior deles, para mim, foi Blue. Mesmo que permaneça anônimo e ausente fisicamente durante grande parte do livro, ele se tornou meu personagem preferido muito rápido. Nesse ponto, sou obrigada a admitir que saber de antemão quem ele era na “vida real” ajudou, porque, conhecendo sua identidade e tudo que ela representa, é quase impossível não o amar. Ele é simplesmente adorável em todos os aspectos. Seus e-mails têm o nível certo de fofura e malícia para envolver não só Simon mas também os leitores.

Como o livro é narrado em primeira pessoa, o ponto de vista de Simon acaba sendo, também, o nosso. Isso contribui muito para que gostemos dos outros personagens – Nick, Abby e Blue, em especial –, mas estranhamente contribuiu pouco para que eu gostasse do próprio Simon. Não que ele seja alguém desgostável, é só que, mesmo que ele seja o narrador durante todo o texto, eu simplesmente não consegui me conectar.

É claro que houve momentos em que torci, lamentei ou sofri pelas circunstâncias, porque ele passa por situações que nenhuma pessoa deveria passar; mas, mesmo nesses momentos, a ligação que eu sentia não era nem de perto tão forte quanto ao vínculo que criei com Blue. No entanto, eu creio que isso tem muito a ver com o quanto conseguimos enxergar de nós nos personagens. No meu caso, eu vi muito mais de mim em Blue do que em Simon.

Dentre as coisas que gostei no livro, uma delas foi a releitura que Becky fez da expressão “sair do armário”. Não vou entrar em detalhes, porque seria spoiler, mas eu realmente achei maravilhosa a forma como ela ressignificou essa expressão tão antiga e, por vezes, pejorativa. Por se tratar de línguas diferentes (e eu não ter podido ler o original), não sei se Becky fez em inglês da maneira como nos chegou em português, de modo que, Regiane Winarski, a responsável pela tradução, também merece o mérito.

Por tudo isso, Com amor, Simon é um livro que vale a leitura. Becky escreveu uma história na medida de um ser humano: é preciso desvendá-la e aceitá-la para além dos defeitos, porque, como nós, ela também as tem. Simon e Blue são um clichê romântico e, ao mesmo tempo, um passo na conquista necessária da visibilidade. Abby é uma menina que respeita seu direito de ser quem é trabalha para que as pessoas a sua volta façam o mesmo. As coisas incorrem no idealizado em alguns momentos? De fato. Mas nós precisamos do ideal. É em busca dele que caminhamos.

Ademais, eu só posso dizer uma coisa: nunca mais verei biscoitos Oreo do mesmo jeito.

 

REFERÊNCIAS

Albertalli, Becky. Com amor, Simon. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2018.