RESENHA #48: DESEJO (D)E RECONHECIMENTO

AUTORA: Cressida Cowell
SINOPSE: Esta é a história de Xar, um menino feiticeiro cujos poderes ainda não despertaram, e de Desejo, uma menina guerreira cujo maior sonho é ser reconhecida pela mãe. XAr e Desejo foram ensinados a odiar um ao outro, mas terão que superar as diferenças e enfrentar um mal que pode destruir seus lares.

Sabemos que, a todo momento, somos influenciados pelo meio em que vivemos, no entanto, torna-se muito difícil perceber essa gradativa influência se não tivermos outro olhar sobre a nossa perspectiva. Cressida Cowell brinca com isso e, quando digo brincar, quero dizer, praticamente, fazer arte e diversão ao mesmo tempo.

Para quem não sabe, eu sou apaixonada por livros voltados para o público infantil e infanto-juvenil, pois o fato de ser para crianças não quer dizer que não tenha aprofundamentos aqui e acolá, além disso, é difícil para qualquer pessoa mais velha sair da esfera pertencente aos adultos e trazer a magia da infância, pensar como se tivesse dez anos de novo.

O que não quer dizer que seja menos importante do que clássicos da literatura, por exemplo, pois é nessa fase da vida que a criança ganha as suas primeiras influências e vai percebendo melhor o mundo a sua volta. Dessa forma, acredito que falar e ler livros infantis deva ser um hábito mais constante nas nossas vidas, porque precisamos nos conectar com o que fomos e ver o quanto nos reconhecemos nessas experiências.

Além de tudo isso, podemos perceber como a ideia de infância vem evoluindo com o tempo desde sua criação, visto que a literatura acompanha esse processo, como com os contos de fadas de Perrault até os dias atuais.

Por causa disso, eu não pude deixar Cressida Cowell passar pela minha mão e sem ler. Embora eu não tenha lido a série Como Treinar seu Dragão (o que sinto quase como uma falha de caráter), eu queria experienciar a obra da autora e devo confessar que a decepção passou longe.

Como não li a série de livros, somente posso me basear nos filmes da DreamWorks e eu consigo ver que Cowell mudou o seu universo, mas não a temática. Continuamos percebendo crianças que precisam de reconhecimento e são deslocadas do mundo em que vivem. Como Soluço (Hiccup) que precisava que seu pai o aceitasse do jeito que ele era: magricelo e incapaz de matar dragões.

Em No Tempo dos Feiticeiros, temos Xár. Ele é um feiticeiro incapaz de fazer magia e isso soa incômodo para toda a família, ao ponto de duvidarem da capacidade de seu pai, o Rei Encanzo, de reinar. Por isso e outros fatores, o menino faz o que pode para chamar a atenção.

O que eu gostei muito no personagem, embora eu não tenha gostado do Xár, é a forma que Cowell o desenvolveu. Ele é bem plausível, visto que é filho do rei, logo, é mimado, egocêntrico e a sua reafirmação constante de capacidade é, na verdade, a falta dela. A autoestima do personagem é absolutamente baixa, porém, ele continua se reafirmando porque acredita que ninguém faz isso por ele.

Muitas crianças passam por isso (inclusive, eu fui uma) e é muito bom perceber a fidedignidade na obra da autora em relação a esse pensamento infantil – que alguns levam para a fase adulta. Xár é bem chato, inclusive, não posso deixar de dizer que eu quis bater nele por muito tempo durante a narrativa.

O que compensa a irritabilidade com que Xár lida com tudo é Desejo. Desejo também é deslocada do meio em que está, sendo de uma família guerreira e a sétima filha da rainha Sicórax. Ela é alegre, divertida, espirituosa e, apesar de sua aparência, uma menina muito forte.

Ambos os personagens precisam da aceitação de seus pais, pois são símbolos de poder e força (o interessante que não são só para eles, mas para o mundo a volta também, o que é uma característica aparentemente comum em Cowell, como o pai de Soluço era o líder da tribo). Essa aceitação dos pais, na verdade, é o nosso desejo de reconhecimento em relação ao outro, aqueles que mais nos importam; pois, só dessa forma os dois podem aceitar a si mesmos. Inclusive, isso ocorre porque, nessa idade, a visão de mundo que a criança tem está intrinsecamente conectada a visão que o pai possui, tanto que isso é reforçado na narrativa com as reações de Desejo descobrindo os segredos de sua mãe.

Outro fator interessante nesse livro é que alguns nomes de personagens podem ser encontrados em A Tempestade de William Shakespeare, como Calíbano (Caliban), Sicórax (Sycorax), o que demonstra que a autora usa referências literárias, mesmo sem parecer isso.

Definitivamente, eu não posso deixar de recomendar esse livro para crianças, principalmente, porque a leitura é fácil, animada e bem simples, até com um ar infantil. Embora possua quatrocentas páginas, por conta das ilustrações, é possível terminar de ler antes do dia acabar e ficar ansioso pelo próximo volume que, infelizmente, só tem em inglês. Mas caso a criança esteja aprendendo a ler nessa língua (na original da obra), esse é um livro – ao que me parece – muito tranquilo e um excelente material para estudar de maneira divertida.

Outro ponto que devo comentar é a edição em português, que foi muito bem-feita e é fiel à original (The Wizards of Once), o que faz toda a diferença em um livro de Cowell. A capa é a mesma, tendo Calíbano, o corvo, como centro porque ele é aquele que pressagia. Os efeitos nas letras, e até no símbolo da Intrínseca, são idênticos à edição de origem e, por dentro, o livro se manteve fiel, com todas as ilustrações e detalhes (até onde pude perceber).

O interessante é que, por ser um livro infanto-juvenil, as imagens prendem a atenção e, quando você percebe, o livro já acabou. Por isso, também é ótimo para crianças que vão treinar a leitura da imagem e do texto em prosa (ou para aquelas que não são muito chegadas em ler), pois há a combinação dos dois para que haja uma fluidez ainda maior.

Essa é uma aventura em que o desejo de reconhecimento é muito forte e a aceitação de si mesmo chama muita atenção. Com um texto divertido, Cowell reinventa-se para criar mais uma coleção de livros, que pode ser tão longa quanto Como Treinar o seu Dragão.

 

REFERÊNCIAS

COWELL, Cressida. No Tempo dos Feiticeiros. 1ª edição. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2018.