RESENHA #47: OS CLICHÊS-NÃO-CLICHÊS

 

AUTORA: Kody Keplinger
SINOPSE: Bianca Piper não é a garota mais bonita da escola, mas tem um grupo leal de amigas, é inteligente e não se importa com o que os outros pensam dela (ou ela acha). Ela também é muito esperta para cair na conversa mole de Wesley Rush – o cara bonito, rico e popular da escola – que a apelida de DUFF, sigla em inglês para Designated Ugly Fat Friend, a menos atraente do seu grupo de amigas. Porém a vida de Bianca fora da escola não vai bem e, desesperada por uma distração, ela acaba beijando Wesley. Pior de tudo: ela gosta. Como válvula de escape, Bianca se envolve em uma relação de inimizade colorida com ele. Enquanto o mundo ao seu redor começa a desmoronar, Bianca descobre, aterrorizada, que está se apaixonando pelo garoto que ela odiava mais do que tudo.

Nunca foi o meu papel julgar
KODY KEPLINGER

 

Considerando o quanto eu amei DUFF, é estranha a dificuldade que sinto ao tentar expor em palavras tudo o que eu senti durante a leitura agora que ela está terminada. Isso talvez tenha muito a ver com a intensidade com a qual a história me toca toda vez que a leio (e essa já é, atenção, a terceira vez). Existem livros que despem a alma a tal ponto que nos sentimos nus depois de fechar as suas páginas. Após isso, recolocar as roupas é difícil – e a escrita, para mim, é justamente esse processo de se revestir.

Bianca Piper é uma adolescente como qualquer outra, ela tem duas melhores amigas maravilhosas, um pai incrível e um futuro inteiro pela frente.  É claro que nem tudo são flores. Jess e Casey, as amigas em questão, adoram festas, o que ela odeia, e a obrigam a passar um tempo maior do que o desejado no Nest, um clube noturno para adolescentes, cujos maiores atrativos para Bianca são as cocas light e a amizade de Joe, o bartender. Sua mãe não volta para casa há meses, usando a desculpa de estar em turnês para divulgar o seu livro, embora seja óbvio que esse não é o verdadeiro motivo. O divórcio de seus pais é iminente, eles só não o botaram em palavras – ou papéis – ainda.

Não bastando tudo isso, agora Wesley tinha feito o favor de abrir sua boca grande, que, infelizmente, fazia mais do que beijar bem – não que ela pensasse nele nesses termos. Ainda. Acontece que, numa noite no Nest, ele a chama de Duff. Designated Ugly Fat Friend (em tradução livre: amigo – ou amiga – feio e gordo da vez) é uma sigla usada para designar a pessoa menos atraente em um grupo de amigos. Ou seja, resumindo, Wesley diz que, comparada a Jess e Casey, Bianca certamente não é a primeira opção de nenhum cara. Agora, ela não sabe o que odeia mais: ele, por ter dito tamanha idiotice; ou ela mesma, por se importar.

Wesley Rush representa tudo que Bianca odeia e, ao mesmo tempo, tudo de que ela precisa no momento. Ele é um rico pegador mimado? Certamente. Foi ele que a chamou de Duff pela primeira vez? Correto. Ela o detesta por tudo isso? Sem sombra de dúvidas. Mas, depois de uma noite conturbada que a levou a tomar uma decisão estúpida, Wesley também mostra ser o único capaz de calar seus pensamentos incessantes e suas preocupações com um beijo.

É justamente por isso que ela embarca em um relacionamento secreto e aparentemente sem futuro, apenas para ter alguns momentos de paz em meio ao inferno para o qual está caminhando sua vida: Wesley se torna sua fuga. 

Mas até onde consegue ir uma pessoa que foge de seus próprios sentimentos?

DUFF é o tipo de livro que parte de uma premissa, à primeira vista, simples, porém acaba enveredando por assuntos bastante complicados. A mocinha certinha e o galinha é, com certeza, um dos maiores clichês românticos. Contudo, Bianca e Wesley não são clichês porque eles vão para além do que pressupõem seus estereótipos. A forma com que eles lidam com sexo, beleza, rótulos, expectativas sociais e, principalmente, um com o outro é simplesmente cativante. Eles evoluem juntos e é apaixonante acompanhar esse processo. Faz com que nos sintamos parte de algo importante demais.

Wesley Rush foi, sem dúvidas, a cereja do bolo. Eu estou acostumada a ver o típico galinha que reproduz sempre o mesmo velho discurso de “todas as outras garotas antes de você não importaram”, então, quando conheci Wesley, fiquei chocada. Ele é honesto e consciente quanto a todas as suas escolhas, o que é, de variadas formas, incrível. Independente do motivo pelo qual faz o que faz, não há arrependimentos, desculpas e, principalmente, não há desprezo para com nenhuma das meninas. Além disso, ele aprende com os erros cometidos e sabe ouvir os bons conselhos. Por tudo isso, sua mudança conforme se apaixona soa natural.

Já Bianca Piper… O que dizer de Bianca Piper? Ela parece uma garota comum, mas é muito mais do que isso. É a representação de força e fraqueza em uma só pessoa, como, afinal, todos somos de certa forma. Age de forma madura e, ao mesmo tempo, não abandona a implicância infantil. Tem seus medos e cautelas, o que não a impede de ser completamente estúpida às vezes. Tem uma visão ampla para muitas coisas, mas se cega para tantas outras. É inteligente, petulante e… Incrível. É difícil eu gostar de uma protagonista como gosto dela. Porque Bianca é real. Tem manias e chatices como pessoas reais. Sofre, decepciona-se e ama como pessoas reais. Tem problemas de autoestima como pessoas reais. Se Wesley é a cereja, Bianca é quem dá toda a consistência ao bolo.

Jess e Casey são um cupcake a parte. Não só são amigas incríveis para Bianca, como são pessoas incríveis por si só. A inocência de Jess é cativante, a forma com que ela enxerga o mundo, com um olhar colorido, é meiga demais. Ela é a pincelada de otimismo em tudo de ruim. Enquanto isso, a Casey é exatamente aquele tipo de amiga com que se pode contar para qualquer coisa: para um conselho, uma carona na madruga ou esconder um corpo. Ela está disposta a ir ao fim do mundo para ajudar quem ama. A amizade é algo que costumo prezar muito em todos os livros que leio e, quando ela se mostra relevante, o livro já ganha milhares de pontos comigo, porque, na vida, muitas vezes são os amigos que te seguram de pé; e vemos isso claramente em DUFF.

Um ponto que me agradou extremamente no enredo foi que, quando apareceu um segundo cara, sinalizando na direção de um possível triângulo amoroso, ele era simplesmente um amor de pessoa. Eu já estou cansada de ler romances nos quais o triângulo amoroso se desfaz não porque a personagem ama um só entre os dois, mas porque um deles se mostra um completo imbecil. Isso não acontece em DUFF. Sei que, à primeira vista, essa informação pode soar como um (cruel) spoiler. Contudo, tente considerar como um adiantamento de todos os clichês-não-clichês que Kody Keplinger maravilhosamente nos proporciona ao longo do livro.

Eu disse no início que esse livro despia a alma. Apesar de tudo que apontei, o motivo para eu ter afirmado isso é outro: é porque Keplinger coloca, ao longo da história, questões que tocam profundamente. Rótulos são uma praga que, de alguma forma, estendeu-se dos produtos às pessoas, fazendo-nos confundir onde acaba um e começa o outro. Em DUFF, isso ganha tanto um aprofundamento quanto uma re-perspectivação. Aprendemos a nos ver de outro modo; e, com isso, aprendemos a ver todas os outros de forma diferente também.

Há algo em que acredito profundamente e, por isso, costumo repetir com frequência: a relevância de um livro está na capacidade que ele tem de falar diretamente a você. DUFF, em todas as três leituras que eu fiz, disse-me tantas coisas diferentes, provocou-me tantos pensamentos e mudanças na forma de enxergar as pessoas que me sinto na obrigação de espalhá-lo pelo mundo. Pode ser que isso aconteça só comigo? Claro que pode. Cada leitura é uma leitura, cada ser é um ser. No entanto, isso não pode me impedir de tentar. Porque se uma única pessoa se sentir abraçada como eu me sinto todas as vezes que fecho as páginas desse livro, eu já estarei feliz.

 

REFERÊNCIAS

KEPLINGER, Kody. DUFF. Rio de Janeiro: Globo Alt, 2016.