RESENHA #46: A INFÂNCIA E O TEMPO

AUTOR: Mark Twain
SINOPSE: Tom Sawyer vive com sua tia Polly e o seu meio-irmão irmão Sid na cidade de São Petersburgo, no estado do Missouri, junto ao rio Mississipi. Tom e Huckleberry Finn, o filho do bêbado da cidade, envolvem-se nas mais destemidas aventuras que fazem as delícias do leitor.

Mark Twain, no prefácio, revela aos seus leitores que a obra é destinada as crianças, no entanto, também aos adultos, porque essencialmente é uma narrativa que relembra a infância e ela é o cerne de todo o desenvolvimento da trama. Tom Sawyer pode ter vivido no século XIX, mas as suas características primordiais permanecem com toda e qualquer criança efusiva.

O título As Aventuras de Tom Sawyer é explícito e não há mensagens subliminares por detrás dele, visto que é uma série de histórias sobre um menino chamado Thomas Sawyer, conhecido por seus amigos como Tom. Contudo, há muito o que dizer sobre essas aventuras.

O que definimos como a infância? Qual é a característica primordial de uma criança? O que podemos revelar sobre seus aspectos mais intrínsecos? Essas três perguntas estão e são inseridas por Twain no decorrer de sua obra da mesma forma que Barrie faz com Peter Pan e, acredito fielmente, que esse é o assunto mais autêntico e mais intrínseco abordado, justamente porque existe uma comparação implícita a todo momento entre a inocência e a ganância.

Somos levados a uma sociedade extremamente religiosa e preconceituosa, características marcadas no Mississipi no tempo em que transcorre a narrativa, observamos frequentemente afirmações levianas sobre raças, crenças e ideologias, a partir da boca de crianças que, no entanto, mostram-se moldadas para reproduzir esse preconceito e não, pensá-lo propriamente. Talvez, por esse motivo, eu acredite que ainda seja possível refletir essa narrativa como uma leitura viável para crianças – mais velhas – com o apoio de um adulto, visto que é interessante demonstrar a diferença de épocas.

Nós nos questionamos a respeito de produções literárias que trazem falas preconceituosas, como ocorre com Monteiro Lobato e com essa obra de Twain, por exemplo, no entanto, não pensamos no potencial disso. O fato de narrativas abordarem e reproduzirem esse preconceito demonstra como éramos, como ainda somos preconceituosos e o quanto ainda precisamos melhorar. Demonstrar a uma criança a evolução de pensamento e aceitação a partir da literatura é também trazê-la para uma esfera muito maior do que simplesmente o presente, é mostrá-la o inaceitável e porque ainda precisamos lutar, crescer e evoluir como indivíduos empáticos.

Por ser uma obra antiga, datada de 1876, veremos constantemente citações problemáticas em relação a índios, mulheres e negros, principalmente, sobre os últimos. Contudo, há atributos nessa narrativa que não podemos ignorar e que vão sendo trabalhados para o público daquele tempo e para o do nosso tempo.

A forma como as crianças precisavam imaginar, a forma como elaboram as suas brincadeiras, como se magoam e como se alegram rapidamente, todas essas características são parte de quem fomos na infância, o que demonstra que o tempo e a sociedade podem ser diferentes, mas a criança – essencialmente – não.

Por causa disso, podemos perceber durante a leitura que o livro trata sobre a infância como principal tema da narrativa. Ela enquanto momento de imaginar, sonhar e desejar, sem desonestidade, embora haja múltiplas mentiras durante o decorrer das aventuras de Tom. Os meninos desejam ser piratas, exploradores e ladrões, sem pensar nas riquezas ou nas maldades por trás dessas ações, ao menos, não verdadeiramente, tanto que o personagem Robin Hood, o herói dos pobres e o ladrão dos ricos, é citado mais de uma vez.

Além disso, ao contrário das crianças de hoje em dia, elas não tinham acesso a tecnologias avançadas e voltadas para o público infantil. Dessa forma, precisavam pensar suas brincadeiras e criar suas próprias aventuras, como podemos ver diversas vezes durante a história. Não que as crianças da atualidade não o façam, porém, adaptadas às tecnologias, não precisam se esforçar tanto para elaborar aventuras, já que possuem acesso a televisão, celulares e afins, o que torna essa característica dentro da história um ponto de partida interessante de se analisar.

Outro fator interessante dentro da obra a respeito do desenvolvimento da infância e dos acontecimentos externos daquele tempo é o teórico, pois Twain escreveu baseado em fatos da vida cotidiana, tanto seus quanto de amigos, o que nos demonstra verdadeiramente como era aquela infância e não, o que pressupúnhamos como infância daquela época nos Estados Unidos.

Mas o que demarca a infância na obra de Twain, brilhantemente, é a inocência em múltiplos sentidos, a qual pode ser percebida também em Peter Pan, a partir do próprio Peter, a representação máxima da infância. E, além dessa honestidade específica e infantil daquele que esquece rápido os acontecimentos dolorosos e logo parte para aventuras, há também maldade.

Algo que eu gosto de ver, quando retratam a infância de forma coerente e bem-feita, é que crianças não são inatamente boas e inocentes, às vezes, pelo contrário, são cruéis.

Contudo, o que eu percebo ao ler a obra de Twain é que essa maldade não é provida por uma noção real de que ela é maldosa, mas uma falta de empatia e a noção da presença do outro como ser que tem sentimentos. Tom pensa diversas vezes nas maldades que fizeram com ele, mas poucos são os momentos que pensa no que fez de mal para os outros, inclusive, uma das cenas mais ilustrativas quanto a isso é o momento em que ele – após ter desaparecido por dias em uma ilha – se sente emocionado pela forma com que falam dele e não revela a sua tia desesperada e chorosa que está bem, porque não seria glorioso.

Há algo na infância que contrasta com a fase adulta: as regras sociais, por meio das quais o indivíduo vai aprendendo e sendo moldado através relações que se constroem a sua volta. Uma criança levada é apenas uma criança levada, porque ela não entende as regras da sociedade e está sendo preparada para compreendê-la pouco a pouco, no entanto, após a transição para a fase adulta, há no indivíduo conhecimento social e, por consequência, a percepção do outro.

No entanto, o egoísmo humano persiste, muitas vezes, ultrapassa o egoísmo infantil, moldado pela falta de percepção de ideias ao seu redor, como ocorre com o índio Joe, um homem formado. O adulto e a criança são colocados em cheque nesse livro e talvez seja por isso que Twain fazia tanta questão da leitura dos adultos, para perceber a infância, o tempo e a si mesmos.

 

REFERÊNCIAS

TWAIN, Mark. As aventuras de Tom Swayer. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2017.