RESENHA #45: CONTRACORRENTE

 

AUTOR: John Green
SINOPSE: A história acompanha a jornada de Aza Holmes, uma menina de 16 anos que sai em busca de um bilionário misteriosamente desaparecido – quem encontrá-lo receberá uma polpuda recompensa em dinheiro – enquanto lida com o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC).

 

A questão da espiral é que, se a seguimos, ela nunca termina. Só vai afunilando, infinitamente.

JOHN GREEN

 

Ler Tartarugas até lá embaixo é como respirar fundo depois de longos minutos presa debaixo d’água. Eu não sabia a importância de tomar esse fôlego até que, finalmente, alguém me fez perceber que viver constantemente nadando contra a corrente é cansativo, tudo bem me sentir cansada e querer respirar um pouco, isso é normal. Nem sempre somos a melhor versão de nós mesmos, mas o importante de verdade é que tentemos sempre.

Aza Holmes está tentando.

O transtorno obsessivo-compulsivo, ou apenas TOC, afeta cerca de 3% da população mundial. Pode parecer pouco, até você saber que, ao todo, são mais de 228 milhões de pessoas atingidas; e, ainda que tanta gente sofra com isso, o silêncio em torno desse distúrbio parece barulhento demais, óbvio demais. Por isso, quando descobri que John Green publicaria um livro com uma protagonista afetada pelo TOC (algo que, para ele, é muito pessoal, uma vez que ele mesmo tem o transtorno), eu me senti quase na obrigação de comprá-lo – um desencargo de consciência de muitas maneiras diferentes.

O enredo do livro, desconsiderando Aza e o seu TOC, é bem curioso: duas amigas em busca de uma recompensa bem generosa. Tudo que precisam fazer para ganhá-la é encontrar informações inéditas sobre o sumiço de um bilionário chamado Russel Pickett. Por uma enorme coincidência, uma das meninas conheceu o filho do ricaço no passado, e é atrás dele que as duas vão, na esperança de conseguir pistas de que ninguém mais dispunha para, enfim, colocar as mãos no dinheiro.

No entanto, ao acrescentar Aza à receita, o livro passa do curioso ao atípico. Uma coisa é a busca realizada por duas adolescentes que desejam uma recompensa generosa. Outra, muito diferente, é fazer essa busca quando uma das interessadas, a protagonista, passa mais tempo que o saudável presa dentro da própria mente, girando em espirais que se afunilam. Poucas vezes você terá tanto acesso à mente afetada pelo TOC quanto o que Green nos dá. Porque, se Aza cai, caímos com ela. E, se mergulha em suas espirais, mergulhamos junto.

Lendo comentários de outras pessoas sobre o livro, percebi que a reclamação mais constante era sobre a protagonista e o seu egocentrismo, sobre o quanto ela era irritante e, uma em especial que me marcou, sobre o seu desejo de melhorar sem fazer nada.

Acho que a primeira coisa que preciso – de verdade – dizer é que Aza Holmes não é a protagonista do livro. Isso não é uma verdade incontestável, mas faz muito sentido porque, para quem sofre com o TOC, o transtorno é tão protagonista quanto a própria pessoa.

Esse é um dos motivos pelos quais Aza constantemente se pergunta quem é. Como podemos saber quem somos de verdade quando uma parte de nós se joga contra a outra, insistindo que façamos exatamente aquilo que não nos trará bem algum? Como é possível pensar numa unidade do sujeito quando quase sempre não conseguimos desobedecer a pensamentos tão intrusos que sequer sentimos como nossos? É como se uma voz ordenasse, de algum lugar fora da nossa consciência, e fôssemos meros súditos daquilo. É possível de verdade lidar com isso e, ao mesmo tempo, não sentir que perdemos o protagonismo de nós mesmos?

Por isso, para mim, Tartarugas até lá embaixo é um livro de dois personagens principais, uma vez que, se Aza protagoniza e intervém nos acontecimentos, o transtorno também tem um papel fundamental em tudo, pois ele influencia diretamente nela e no que ela faz.

Quanto ao egocentrismo de Aza, essa é uma reclamação recorrente que quem tem o transtorno obsessivo-compulsivo ouve. Inclusive, achei curioso que ela tenha partido de pessoas que acabaram de ler um livro no qual se explica exatamente por que uma pessoa com TOC se volta tanto para dentro de si mesma. Existe uma distância bem grande entre querer ser indiferente aos demais e estar tão preso dentro da própria mente que se torna impossível pensar em qualquer outra coisa. Egocentrismo, para quem tem o transtorno, não é uma escolha, é uma consequência de se estar constantemente aprisionado em uma espiral de pensamentos. Então acho bastante cruel alguém criticar isso como se fosse simplesmente um defeito de caráter da personagem.

Concordo que acompanhar a vida de Holmes (Sherlock, é você?) pode ser bastante irritante em alguns momentos, não porque ela seja, mas porque viver com o transtorno é. Mais do que simplesmente irritante, é agoniante acompanhar uma linha de pensamento que toma um rumo frequentemente irracional e, mesmo assim, quase impossível de ser desobedecido.

O curioso a respeito do TOC é que quem o tem sabe distinguir quando uma necessidade é ou não racional, mas não consegue se impedir de obedecer as que não são. Só que não é apenas isso. Muitas vezes é impossível para a pessoa ignorar um pensamento porque ela não consegue ter certeza de que ele está errado. Porque não parece racional segundo o que conhecemos, mas pode ser que seja de acordo com alguma outra coisa. É o pode ser que descarrila o trem.

No momento em que a conversa chega no “desejar melhorar sem fazer nada”, confesso que meu estômago se aperta um pouco, porque eu entendo quem acha isso (parece mesmo, às vezes); porém, acima de tudo, eu entendo Aza. Não ouvir pensamentos parece muito fácil até que você tenha que realmente ignorá-los. Contudo, a ideia de que um remédio é chave de tudo – ou parte dela – é assustadora porque, se até aquele momento você não soube distinguir bem quem era você no meio daquela onda de obsessões, será que a sua identidade, no fim, também é resultado do TOC? Ou, pior, será que o remédio o transformará em uma terceira pessoa tão diferente que não é nem quem você era antes, nem quem você era sob o efeito do transtorno?

Enxergar pelos olhos de Aza tem diversas consequências, uma delas é que você nunca verá mais dos personagens do que ela vê. Portanto, se ela vê muito de si mesma e menos dos arredores, então, é assim que veremos também. Não só isso, no entanto. Também veremos tudo através das lentes de suas memórias – grande parte envolvendo o falecido pai – e de suas obsessões insistentes. Então, talvez, em algum momento, sintamos que Daisy ou Davis ou Mychal ou qualquer outro personagem são rasos demais; no entanto, essa é a sensação de observar a superfície do mundo e a profundidade de Aza.

Daisy, aliás, é uma personagem com a qual simpatizei muito. Não só por ser amiga de Aza há tanto tempo, mas porque ela acrescenta duas coisas à história que eu sempre prezo: humor ácido e questionamentos ao moralismo. A visão sobre o dinheiro que ela apresenta, apesar de poder soar incômoda diante de certos princípios defendidos inclusive pela própria Aza, é muito real. Ainda quando o enredo caminha por direções improváveis, as colocações de Daisy fazem sentido.

Contudo, o motivo que me fez gostar de verdade da melhor amiga não foi nada do que enumerei até agora. Na verdade, foi a capacidade que ela tem de ser compreensiva e egoísta ao mesmo tempo. Se John Green a tivesse transformado em uma boa samaritana que convive com o transtorno de Aza sem sofrer junto, isso teria sido muito pouco crível, porque conviver com o TOC de outra pessoa causa, sim, sofrimento.

Todos vivemos um pouco dentro de nós mesmos, por isso, é perfeitamente compreensível que Daisy se incomode de ser, de certa forma, deixada de lado; ainda que ela mesma não perceba o quão pouco tenta entender o lado de Aza. Somos egoístas de vez em quando, tomamos decisões estúpidas às vezes. Errar faz parte de ser humano. Daisy, apesar de errar, sabe pedir desculpas e realmente se importa se foi ou não desculpada. É o que diferencia quem apenas errou daqueles que são babacas. Ela certamente não pertence ao segundo grupo.

 Se gostar da melhor amiga foi fácil, eu fiquei dividida quanto a Davis. Não duvido que um cara seja capaz de compreender e aceitar, até certo ponto, uma garota com transtorno obsessivo-compulsivo. O que me deixa em dúvida é se um garoto de dezesseis anos, com um pai recém-sumido e um irmão mais novo problemático para consolar, conseguiria de verdade alcançar o nível de compreensão e aceitação que mostrou em relação a Aza, ainda que não tenha visto a fundo as espirais de pensamento. Pode ser, é claro, que ele tenha precisado amadurecer mais rápido pela situação e justamente por isso compreenda tão bem. No entanto, não consegui deixar de me perguntar.

Apesar disso, não nego que achei bastante bonitas as coisas que ele escreve e observa sobre o mundo – quer sejam algo que um adolescente realmente observaria, quer não. Claro, achei romântica a ideia de que, em meio a tudo o que estava acontecendo, Aza ainda tenha sido capaz de encontrar espaço e esperança para um primeiro amor.

Acho que esse é o principal trunfo do livro: John Green soube equilibrar bem as medidas entre a vida e o transtorno de Aza. Dizendo assim pode parecer estranho, mas é que, se ele não tivesse sabido dosar, duas coisas poderiam ter acontecido: ou pareceria que havia apenas a vida, sem o TOC; ou que havia apenas o TOC, sem a vida. No entanto, o autor tece as coisas de uma forma que compreendemos que, na verdade, há uma vida a ser vivida apesar do TOC. É o que Aza faz. Viver apesar de uma coisa significa que você reconhece a sua existência, mas não se deixa sufocar completamente por ela.

No início, quando comecei a acompanhar o enredo, achei que a busca pela recompensa abafaria todo o resto. Foi uma grata surpresa, então, ver que isso não acontece. Pode ser, como eu já disse, uma premissa curiosa. Claro que não é todo dia que um bilionário desaparece e oferecem uma quantia tão generosa por informações suas. Também não é todo mundo que, por acaso, foi amigo de um filho de bilionário na infância; mas, como a própria Aza passa a perceber, ela não é, nem de longe, como todo mundo. Tanto é que a história se devia para um rumo completamente diferente do que eu esperava.

Além disso, jogar Aza em meio a uma investigação e mostrá-la atordoada – não inspirada – pelo TOC, choca-se diretamente à ideia romantizada que se pode fazer de um transtorno mental, apresentada na televisão constantemente. Aza não é uma detetive melhor por ter o transtorno. Na verdade, o distúrbio a coloca tão dentro de si mesma que é difícil focar somente nos arredores. Nesse ponto, a escolha de enredo faz total sentido.

Entretanto, ainda assim, sou obrigada a reconhecer que as questões envolvendo dinheiro, advogados e investigação policial me incomodaram, sim, em alguns momentos. Achei as decisões teatrais e até mesmo convenientes demais. Contudo, o final não. O final encaixou como uma luva.

Tartarugas até lá embaixo é, para todos os efeitos, um livro precioso. Para quem sofre com o transtorno, cada página é quase um abraço e um “eu entendo você”. Para todas as outras pessoas, é um relato fictício tão real em tantos aspectos que se torna uma chance única de conhecer mais do distúrbio sem precisar ler artigos científicos que, apesar de exatos, são completamente impessoais. Aza é uma das personagens de mentirinha mais verdadeiras que já conheci.

A frase da contracapa do livro, e que também aparece dentro da história, diz que “é muito raro encontrar quem veja o mesmo mundo que o seu”. Mesmo que no livro o trecho se encaixe em outro contexto, acho que ele serve bem para traduzir o que eu sinto ao encerrar essa resenha. É mesmo muito raro. Por isso me senti tão extraordinariamente abraçada quando passei os olhos através das páginas desse livro – porque Aza vê o mesmo mundo que o meu. Não existem palavras o suficiente para expressar o tamanho da gratidão que eu sinto por, finalmente, ganhar esse abraço e por, finalmente, tomar esse fôlego.

 

REFERÊNCIAS

GREEN, John. Tartarugas até lá embaixo. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2017.