RESENHA #44: (EXTRA)ORDINÁRIO

AUTOR: Daniel Kraus, Guillermo Del Toro
SINOPSE: Richard Strickland é um oficial do governo dos Estados Unidos enviado à Amazônia para capturar um ser mítico e misterioso cujos poderes inimagináveis seriam utilizados para aumentar a potência militar do país, em plena Guerra Fria. DEzessete meses depois, o homem enfim retorna à pátria, levando consigo o deus Brânquia, o deus de guelras, um homem-peixe que representa para Strickland a selvageria, a insipidez, o calor — o homem que ele próprio se tornou, e quem detesta ser. Para Elisa Esposito, uma das faxineiras do centro de pesquisas para o qual o deus Brânquia é levado, a criatura representa a esperança, a salvação para sua vida sem graça cercada de silêncio e invisibilidade. Richard e Elisa travam uma batalha tácita e perigosa. ENquanto para um o homem-peixe é só objeto a ser dissecado, subjugado e exterminado, para a outra ele é um amigo, um companheiro que a escuta quando ninguém mais o faz, alguém cuja existência deve ser preservada.

Desde os tempos clássicos, fomos informados por Platão que a água possui a forma de um poliedro, mais especificamente, um icosaedro. O icosaedro, como qualquer poliedro, é uma figura geométrica que possui a mesma quantidade de faces, ou seja, vinte pequenos triângulos equiláteros (aquele que possui todos os lados iguais). No entanto, de acordo com a obra de Daniel Kraus em parceria com Guillermo Del Toro, somos levados a acreditar em outra perspectiva: “não há forma para a água”.

Essa citação é elaborada por aquele que, durante a obra, foi nomeado como recurso, criatura e até deus. Dessa forma, como nós, reles mortais, poderíamos duvidar de uma figura tão enigmática e, ao mesmo tempo, lendária? Acho que se torna praticamente impossível.

Entretanto, não quer dizer que, por parecerem opostas – a forma e a falta de forma –, essas representações da água sejam antagônicas, na verdade, parecem-me muito similares e, como gosto de pensar a filosofia platônica, opostos complementares, justamente porque o icosaedro mostra que todos os lados são iguais, enquanto a obra de Kraus e Del Toro nos mostra que todos somos parte do todo, logo, não somos meramente uma representação do eu-subjetivo, mas sim do nós-coletivo. Somos, ao mesmo tempo, um e todos.

A partir do título e das múltiplas divagações que temos por causa dele, podemos perceber a complexidade dentro do clichê narrativo da bela e do monstro, apresentado há muito tempo por clássicos literários, como A Bela e a Fera. O que demonstra que o fato de ter uma narrativa relativamente simples, não quer dizer que ela seja simplória.

Há dentro dessa obra uma infinitude de questões políticas, sociais e afins, no entanto, o ponto mais interessante, ao meu ver, é a inversão extraordinária entre o cotidiano e o banal com a percepção do fantástico. Algo que Tolkien vinha chamando a atenção faz muito tempo, ressurge:

 

Pois é o ser humano que é sobrenatural (e muitas vezes de estatura diminuta) em comparação com as fadas, ao passo que elas são naturais, muito mais naturais que ele.

 

No desenrolar da narrativa, elaborada como um conto de fadas moderno, podemos perceber que existe uma completude entre a fantasia/fantástico e a realidade, não como percepções de mundo separadas, mas partes importantes de um todo: para a construção dos personagens, dos diálogos, das sequências de cenas. Não há qualquer personagem no livro que não tenha uma fantasia, um delírio ou que não elabore e imagine, dentro da cúpula de personagens principais e secundários, com exceção, talvez, da criatura que compreende a esfera dupla, do fantástico e do real, em que vive, sendo, por excelência, o mais natural entre todos que compõe aquele pequeno círculo de indivíduos.

Por conta desse aspecto primário, é que podemos repetir as palavras de Tolkien e admitir que o deus brânquia se torna, durante as páginas, o mais natural dos personagens, tanto é que é aquele que menos Kraus e Del Toro precisam explicar e aquele sobre o qual, por sermos ordinários, precisamos de mais explicações. Não nos preocupamos com suas motivações, como fazemos com Strickland; não nos preocupamos com as suas ganâncias como fazemos com Fleming ou Hoyt; nem mesmo com as suas fraquezas, o que percebemos em Giles ou Elaine que, pouco a pouco, vão se revelando dentro da história.

Contudo, essas preocupações são naturais, ainda mais para nós, leitores exigentes de narrativas impecáveis. E, sem qualquer sombra de dúvida, posso dizer que um dos pontos mais positivos da narrativa é a construção. A construção dos personagens, dos seus transtornos e deficiências, dos seus desejos e dos seus defeitos, tanto quanto das qualidades. Conseguimos encontrar personagens reais e palpáveis, muito mais do que fazemos ao assistir o filme, com um maniqueísmo proposital que rememora os contos de fadas e demarca o território dos deslocados dentro de um país governado por alguém que exerce seu poder com expressões xenofóbicas.

A narrativa é tão bem construída que não há nem um exagero de detalhes e nem a falta deles, no entanto, ansiei por mais informações que pudessem complementar cenários ainda mais profundos e psiquês ainda mais perturbadas. O único problema, ao meu ver, foi a narração em algumas cenas de ação que ficaram um pouco confusas, talvez, pelo hábito dos autores de construir histórias em forma de roteiro ao invés de prosa, o que, de jeito nenhum, prejudica o texto, pois a escrita é agradável e com poesia na medida certa, em uma trama que bebe da melodia, da arte e do fascínio pelas múltiplas formas de manifestar o real.

Ao me referir aos detalhes, acredito que os mais surpreendentes foram os fatos históricos e as referências culturais e sociais. Pode-se perceber, ao ler o livro, que houve esmero e capricho na execução, justamente porque houve pesquisa, como Daniel Kraus disse em sua entrevista, “o lugar conta muito sobre a história”. É possível checar informações a respeito da Guerra Fria, dos manifestos da época e até mesmo o confeito que Strickland mastiga durante boa parte da trama (diferente daquele que mastiga durante o filme).

Além disso, a própria concepção da criatura, ou melhor, do deus brânquia é baseada em relatos de brasileiros, como comenta Câmara Cascudo, a respeito do mito: o caboclo d’água, o protetor do rio São Francisco. Essa história surgiu, ao contrário do que muitos pensam, em Minas Gerais e, aos poucos, foi se espalhando pelo Nordeste. Ele é um personagem destemido que afugenta os pescadores e mora no fundo do rio. Inclusive, vale ressaltar que muitas de suas características se encontram na concepção da criatura apresentada em A Forma da Água, como a capacidade de sobreviver fora d’água e a diferença da construção cutânea (pele), no entanto, há algumas disparidades que o fazem parecer diferente o suficiente para ser original, como um mito em formação.

Contudo, essa narrativa não se desvela e revela somente no âmbito do fantástico e do sublime, mas também no cotidiano e ordinário, justamente porque, dentro de um microespaço, a OCCAM (Centro de Pesquisa Aeoro-Espacial), podemos perceber toda a sociedade daquele tempo, nos Estados Unidos, inclusive, um pouco mais além, tendemos a notar a natureza humana que é inatamente inumana e, memorando as palavras de Tolkien, menos natural do que o que é fantástico.

Como Machado faz com Dom Casmurro, essa história nos transporta toda uma sociedade para um pequeno círculo de pessoas e vamos sendo levados e envolvidos pelos seus preconceitos, por suas histórias, suas hierarquias e suas relações. Há uma submissão entre Strickland em relação a Hoyt tanto quanto Hoffstetler para Mihalkov, mesmo que façam parte de nações rivais; há a repressão e o preconceito por Zelda e o declínio de Giles; há o desejo incontido de liberdade de uma mulher que precisa viver fora da sombra do marido, estrelado por Elaine; e, infelizmente, há uma disputa de personagens que estão na mesma hierarquia, como é o caso dos faxineiros, excluídos e invisíveis.

Embora sejam invisíveis para os demais, não são invisíveis entre si, mas tentam fazer com que os outros fiquem tão invisíveis quanto eles, ao invés de buscar entender e aceitar uns aos outros. Essa estratégia abordada no livro é sublime, justamente porque é palpável, real e cruel, como a própria realidade daquele tempo e, embora eu quisesse dizer que não, a nossa, por ser parte da natureza humana.

Por todos esses aspectos, e também pela relação do deus brânquia com os demais, principalmente Elisa, eu não consigo deixar de ver A Forma da Água como uma história que fala sobre amor, compreensão e empatia. Indubitavelmente, um conto de fadas que nos coloca como moral a necessidade de ver o outro, de ser empático, pois somos carentes em todos os sentidos.  

Precisamos inverter o jogo, precisamos deixar de lutar com os nossos mais prósperos aliados e aqueles que sofrem como sofremos para ir contra quem devemos ir, precisamos entornar a água, que de acordo com Chevalier, é o símbolo da cura e a maior representante da vida, do balde e tornar o que é ordinário em extraordinário.

Porque isso é divino, como o deus que deixou de ser um mero recurso; como um homem que deixou de ser mero escravo.

 

REFERÊNCIAS

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. 9ª edição. Rio de Janeiro: Ediouro, 1954.

CHEVALIER, Jean. GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio, 2017.

TOLKIEN, J. R. R. Árvore e Folha. São Paulo: Wmf Martins Fontes, 2013.

<https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2018/03/06/a-forma-da-agua-um-livro-idealizado-antes-do-filme-mas-publicado-depois.htm>; consultado em 08/08/2018 às 23hr.