RESENHA #43: OS SABORES DE SOFIA

 

AUTOR: Jostein Gaarder
SINOPSE: Às vésperas de seu aniversário de quinze anos, Sofia Amundsen começa a receber bilhetes e cartões-postais bastante estranhos. Os bilhetes são anônimos e perguntam a Sofia quem é ela e de onde vem o mundo. Os postais são enviados do Líbano, por um major desconhecido, para uma certa Hilde Moller Knag, garota a quem Sofia também não conhece. O mistério dos bilhetes e dos postais é o ponto de partida deste romance fascinante, que vem conquistando milhões de leitores em todos os países e já vendeu mais de 1 milhão de exemplares só no Brasil. De capítulo em capítulo, de “lição” em “lição”, o leitor é convidado a percorrer toda a história da filosofia ocidental, ao mesmo tempo que se vê envolvido por um thriller que toma um rumo surpreendente.

 

Os que questionam são sempre os mais perigosos. Responder não é perigoso. Uma única pergunta pode ser mais explosiva do que mil respostas.

JOSTEIN GAARDER

 

Essa citação já diz bem o que nós devemos esperar na leitura de “O Mundo de Sofia”, um livro didático sobre filosofia – mas também sobre questionar, sobre filosofar no nosso cotidiano.

O livro narra a história – primariamente – de Sofia, uma menina de quinze anos que passa a receber um conteúdo diferente de qualquer outro pela caixa de correio de sua casa. A primeira correspondência questiona Sofia sobre quem ela é e vai a inteirando cada vez mais de si mesma, do mundo que a cerca e de como funcionam as pessoas, as coisas, além de também falar de toda a história da filosofia de maneira extremamente didática. Outras perguntas vão sendo feitas até que conheçamos o seu professor, entendamos quem é Hilde e porquê essa personagem é tão importante (além de seu pai, claro).

Enquanto conhecemos os passos da humanidade no campo filosófico, também ganhamos uma questão muito curiosa: qual é a relação de Sofia e de Hilde. Alguns não gostam muito da resposta, mas acredito eu que é algo primoroso principalmente por conta do conteúdo explorado no livro – a resposta dessa questão é sublime.

Não pretendo dar qualquer spoiler durante essa resenha, porém a proposta didática do livro se complementa absolutamente bem, eu diria que até perfeitamente, com o resultado da pergunta sobre a ligação de Hilde e Sofia, sobre a própria história de Sofia. Pois a maior questão é sobre quem somos e sobre o mundo em que vivemos, logo, o que o final apresenta é a resolução de questões intrincadas que podem fazer nossa mente ir além – por sinal, devido aos resultados e respostas, elas ultrapassam o além.

“Penso, logo existo”; Descartes ganha um todo e novo significado durante essa história e por conta de seu desenvolvimento, o que a torna brilhante, na minha concepção. O fato de existir está muito inerente no texto que foi feito para adolescentes, mas é muito melhor do que diversos livros adultos da atualidade que vemos por aí.

Ministrar história, filosofia e uma riqueza inata de possibilidades é o que faz O Mundo de Sofia ser tão surpreendente. A escrita do autor é muito didática e interessante, porém não é um livro que deve ser lido com a mente fechada e nem com a ideia de que não será – no final das contas – uma grande e divertida aula que pode levar a você, leitor, a loucura desse universo. Em alguns momentos – ainda mais se você conhece sobre o assunto – o livro pode se tornar maçante, o que é problemático e cansativo, mas nada que não dê para superar e seja de fato um problema, afinal, a leitura desse livro é para você saber sobre filosofia – como ele mesmo diz dentro da história e na boca de um personagem: “esse pode ser muito bem um livro didático sobre filosofia”.

Foi a segunda vez que li O Mundo de Sofia, quando era mais jovem, eu não sabia metade do conteúdo filosófico e nem literário para entender uma exuberante enxurrada de referências e passagens (Dickens, Shakespeare, Goethe, etc), e tenho certeza que dei umas puladas de página, hoje, mesmo já tendo estudado – até a fundo – parte da história da filosofia grega, mantive-me firme (ainda que em alguns momentos fosse um pouco desgastante por eu já saber previamente o conteúdo).

Em alguns pontos, eu tive que discordar do autor na questão da própria filosofia como, por exemplo, citar a fuga no universo mítico já em Platão, o que não foi assim, essa ruptura – em minha concepção – ocorreu depois e não com o autor que fazia de Sócrates o seu protagonista e tentava dar suas explicações filosóficas a partir de alegorias, além disso, também não concordo que o mítico não esteja relacionado à filosofia, pois era a partir desse universo que os homens já raciocinavam as causas da natureza – mesmo que a resposta tivesse viés fantástico. No entanto, são posicionamentos pessoais e não verdades absolutas, tanto da minha parte quanto – acredito eu – da parte do autor. Logo, não seria mais do que um debate filosófico na minha mente e uma doce leitura recheada de conhecimento, inteligência, diálogo e de um maravilhoso desfecho. Esse livro, com certeza, é uma excelente indicação.

 

  Um mítico indiano certa vez se expressou assim: “Quando eu era, não era Deus. Agora sou Deus, e não mais sou”.

JOSTEIN GAARDER

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

GAARDER, Jostein. O Mundo de Sofia. Rio de Janeiro: Seguinte, 2012.