RESENHA #42: UMA CASA É SÓ UMA CASA?

 

AUTOR: Josh Malerman
SINOPSE: James e Amelia têm dezessete anos. Em comum, além da idade, têm o fato de estarem um a fim do outro e de serem tomados pelo nervosismo quando James chama Amelia para sair. Mas tudo parece perfeito para um primeiro encontro: um passeio de canoa pelos lagos, levando um cooler cheio de sanduíches e cervejas. À medida que se aprofundam na exploração, os dois chegam a um lago escondido e encontram algo impressionante debaixo d’água. Um lugar perigosamente mágico: uma casa de dois andares com tudo que tem direito — móveis, um jardim, uma piscina e uma porta da frente, que está aberta. Enquanto, fascinados, vasculham o imóvel e tentam passar uma boa impressão para o outro, cresce o medo. Será que um local misterioso como aquele esconde alguém — ou algo — vivo? Uma coisa é certa: depois de mergulhar nos mistérios da casa no fundo do lago, a vida deles jamais voltará a ser a mesma.

Quando uma casa não é só uma casa?

Quando ela está no fundo de um lago.

Como isso seria possível? É o que Amelia e James, protagonistas do novo livro de Josh Malerman, tentam não se perguntar enquanto mergulham cada vez mais fundo no mistério de Uma casa no fundo de um lago.

Tinha tudo para ser um primeiro encontro legal. Dois adolescentes de dezessete anos andando de canoa por um lago maravilhoso, tendo como única companhia um cooler cheio de sanduíches, cervejas, água e batata chips. Era bem mais original que um cinema, certo? Era o que James pensava. Esperava que Amelia estivesse se divertindo, que estivesse achando especial. E, de fato, ela estava.

Havia um segundo lago depois do primeiro, James sabia. Remaram para ele, para o conhecido, através de uma abertura que se entrevia em meio às árvores no sopé. Sobre ele, almoçaram e observaram uma águia. Ainda a observavam quando Amelia avistou uma entrada, que, de início, parecia apenas uma ponte. Era a passagem que guiava ao terceiro lago, dentro do qual havia uma casa, mesmo que eles ainda não soubessem disso. Curiosos, remaram.

Não havia nada de conhecido no destino dessa vez.

Antes de iniciar a leitura do livro, eu já estava consciente de duas coisas: número um, eu poderia me decepcionar com a edição, porque, dessa vez, a Intrínseca escolheu publicar em versão slim, o que fez com que Uma Casa no Fundo de um Lago destoasse completamente das outras duas publicações do Malerman; e, número dois, eu podia detestar a história, uma vez que, aparentemente e como de costume, ela terminaria sem maiores explicações.

Confesso que, nos dias que antecederam à chegada do livro, eu não fui capaz de me segurar e li a maior parte das resenhas que foram publicadas. Não eram muito animadoras. Além de citarem os dois pontos que foram falados no parágrafo anterior, ainda acrescentavam um terceiro a ele: as cenas angustiantes, pelas quais Josh é tão conhecido, eram bastante desapontadoras na nova obra. No entanto, não obstante tudo que eu li, preferi aguardar e ler de mente aberta para formar uma opinião própria.

Não poderia ter tomado decisão melhor.

A House at the Bottom of a Lake, nome original da obra, é uma história curta que, no entanto, diz muito, o que reforça a ideia de que tamanho e qualidade não são diretamente proporcionais. Com um total de 159 páginas, é considerado antes uma novela do que um romance, não só por sua extensão, mas também pelo tratamento que dá ao enredo e aos personagens, dispensando detalhes que não girem diretamente em torno do evento principal e do casal que o protagoniza. São raríssimas as cenas que se passam fora do terceiro lago e, mesmo quando elas ocorrem, estão de alguma forma interligadas a ele.

Por se tratar de uma história que, apesar de curta, apresenta vários caminhos de leitura e interpretação, é extremamente difícil saber o que é possível dizer sem, com isso, revelar demais. Talvez o mais importante a se falar agora seja: Uma Casa no Fundo de um Lago não é nem um pouco como Caixa de Pássaros, e isso não é um defeito da história. Não é justo com o autor que todas as suas obras sejam sempre lidas em comparação a sua, até então, magnus opus, sua obra-prima. O primeiro romance do autor alcançou um enorme sucesso no Brasil, foi dito e repetido como um livro de terror assustador, capaz de envolver e angustiar o leitor. Isso é maravilhoso até o exato ponto em que se torna um fardo ou um estigma, que é o que tem acontecido.

Quando seu segundo romance, Piano Vermelho (no original, Black Mad Wheel), foi publicado no Brasil, os comentários que mais se liam internet afora eram “Não é bom como Caixa de Pássaros”, “Não assusta como Caixa de Pássaros”, “Não me prendeu como Caixa de Pássaros”. A informação que parecia faltar – e a mais óbvia – é que aquele livro recém-publicado não era Caixa de Pássaros. Seus erros e acertos deviam ser lidos em relação a ele mesmo, não a qualquer outra obra anterior, porque eram histórias diferentes com propostas diferentes.

O mesmo se aplica a Uma Casa no Fundo de um Lago. Porém, no caso dessa novela, a necessidade de entender que se trata de uma premissa nova é ainda mais urgente, porque, do contrário, não há como aproveitar a leitura. Começamos já pelo fato de que, nesse livro, o foco não recai sobre o terror, mas sobre o romance. Então, se a única expectativa para a leitura for de morrer de medo, isso não vai acontecer e o resultado será a frustração.

Isso não significa que não há momentos angustiantes. Na verdade, achei-os ainda mais instigantes nesse livro porque são carregados de reflexões, especialmente a respeito de uma temática que acompanha todo o desenrolar do livro: a escuridão dentro, abaixo e acima de nós. Como a casa fica sob a superfície turva de um lago lamacento, é esperado que ela seja rodeada e preenchida por escuro. Mergulhar em sua direção é como afundar num abismo. No entanto, já dizia Nietzsche, “quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você”. Lá embaixo, de fato, a escuridão parece vê-los – e tragá-los pouco a pouco.

O que achei mais curioso é como Malerman fez o primeiro amor, algo em tese tão inocente, florescer em volta de um lugar tão hostil e, de certa forma, rodeado de morte. James e, principalmente, Amelia enxergam a casa como um lugar impossível (pois como uma casa poderia sobreviver quase intacta estando rodeada e preenchida por água?) e, por isso mesmo, mágico. Um lugar desconhecido e secreto para chamar de seu. Medo e paixão flertam com uma frequência assustadora, tendo por fio condutor comum a excitação. Ambos se apaixonam um pelo outro à medida que se apaixonam pelo lugar. Foi justamente a maneira com que esse processo foi tecido que me fez olhar para a obra com um olhar mais atento, porque não parecia por acaso.

Por não poder dizer demais, digo apenas que, a meu ver, Uma Casa no Fundo de um Lago pode parecer um prato cheio para reflexões ou uma total perda de tempo – tudo depende do olhar que será lançado sobre ele. Ao longo da leitura, senti-me como Amelia e James jogando feixes de lanterna sobre a escuridão e tentando, aos poucos, montar um quebra-cabeças. Passeei por temas como a morte, o amor, as relações humanas, a loucura, o vazio existencial, a escuridão que nada tem a ver com a ausência de luz (e a que tem também). Acima de tudo, tentei sentir com eles a experiência das primeiras vezes – as boas e as ruins.

A existência de uma casa no fundo de um lago era, desde o início, uma premissa absurda e, exatamente por isso, eu não esperava uma explicação para ela; eu esperava que ela fizesse sentido, o que, apesar de não parecer, são coisas diferentes. Fechado o livro, sinto que tive todas as respostas de que eu precisei. Isso não significa que será assim com todos os leitores porque cada leitura é subjetiva. Mas eu acredito que qualquer um que realmente se envolva com a história terá algumas coisas sobre as quais pensar por algum tempo.

Ou talvez a resposta seja simplesmente, como decidiram James e Amelia, não fazer perguntas demais. Sem como ou por quê. Sem pensar demais sobre. Apenas mergulhar sob a superfície turva, para a casa no fundo de um lago.

Ela será o nosso segredo.

Mas será que você consegue?

 

REFERÊNCIAS

MALERMAN, Josh. Uma casa no fundo de um lago. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2018.